sábado, 1 de março de 2008

INVENTÁRIOS 14


Outrum lugar


(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS)

Beth nunca pensou que sentiria tanta falta da mãe. Apesar de toda a indiferença, das demonstrações de desprezo, do desdém pela sua escolha da faculdade de psicologia e de tantas outras ocasiões em que ela fizera questão de ser desagradável. Apesar de tantas vezes ela ter jogado para cima de Beth toda a frustração de ter largado uma vida própria para se dedicar à família. E apesar das tantas vezes em que a mãe descarregara nela a raiva das amantes que o pai fazia questão de não esconder.
Mas Beth sentiu o baque da morte da mãe. Enquanto as pessoas iam e viam em torno do caixão, ela pensava em tudo o que poderia ter sido. De como seria bom ter tido uma mãe amiga e companheira, com quem pudesse ter dividido segredos, descobertas e dúvidas. De como teria sido bem mais fácil e prazeroso o difícil percurso da adolescência.
Quando a mãe morreu, fazia dois anos que Beth tinha saído da casa dos pais para morar com uma amiga de faculdade. No início, ela sempre ia ver a família nos almoços de domingo, mas, com o passar do tempo, as visitas foram rareando. E agora que ela estava entrando no último ano de faculdade, chegava a passar mais de um mês sem ver os pais.
Mesmo assim, Beth ficou chocada. Mais ainda pela forma como a mãe morrera. Nunca pensara que ela seria capaz de cometer suicídio. Alguém tão apegado à vida e à imagem que os outros faziam dela. Alguém que tinha como seu maior prazer a inveja dos outros, coisa que o dinheiro do pai de Beth sempre ajudava a proporcionar.
O mais irônico de tudo foi que justamente a partir daí é que o suicídio entrou na vida de Beth como uma idéia concreta. Até então, o suicídio lembrava à Beth apenas a morte de sua melhor amiga de infância, Mira. Mas, depois da morte da mãe, passou a fazer parte do seu dia-a-dia.
E isso aconteceu justamente num momento em que ela se sentia fraca e sem sentido. Em que começara a experimentar drogas pesadas com alguns colegas de faculdade e um forte desejo de autodestruição despontava nas suas pequenas atitudes. Não se alimentava direito, não dormia bem, não cuidava dos cabelos e da roupa. Passava dias sem arrumar a cama.
A única rotina era a faculdade, que ela freqüentava numa disciplina quase mecânica, como algo que tem que ser feito sem qualquer questionamento.
Nessa época, as coisas pareciam embotadas e Beth procurava sensações fortes para poder realmente sentir alguma coisa. E de todas as sensações fortes, a mais aguda e a única que parecia ser capaz de vencer o entorpecimento e fazê-la se sentir viva era a dor.
E nesse período, algumas vezes, a dor a fez feliz.


(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS)

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

IMPERMANÊNCIAS 14


There Will Be Blood

Só fui ver “Sangue Negro” (There Will Be Blood), de Paul Thomas Anderson, depois do Oscar. Já tinha visto o grande vencedor “Onde os Fracos Não Tem Vez” (No Country For The Old Man).
Na realidade, gostei mais de Sangue Negro. Os dois filmes tem bom roteiro, boa direção bom elenco, e, principalmente, um grande personagem interpretado por um excelente ator, que acaba levando o filme. Javier Bardem faz o psicopata Anton Chigur e Daniel Day-Lewis o ambicioso “oil-man” Daniel Plainview.

Nenhum dos dois filmes traz uma linguagem nova em termos de cinema: um thriler nervoso e um drama convencional, os dois com final infeliz. Mas Sangue Negro me pareceu mais bem construído e finalizado. Talvez eu seja muito conservador ou ignorante em termos de cinema. Ou, talvez, simplesmente porque eu tenha achado espetacular a atuação de Day-Lewis. E é realmente muito bom ver a atuação desse grande ator (bissexto no cinema) que se desenvolve até nos detalhes mínimos da postura corporal. Muito bom.

Sai capeta
Outro ponto interessante de Sangue Negro, é aquele garoto de cara esquisita (Paul Dano) que faz papel de Edir Macedo quando jovem. Muito bom também.
Os dois fazem um contraponto bacana. Cada um com a sua visão dogmática da vida. Levando até as últimas conseqüências esse comportamento no aspecto externo, e vivendo, simultaneamente, imensas dúvidas por dentro.
A melhor mensagem do filme é justamente essa: a realidade não se amolda a certezas absolutas, a caminhos inflexíveis, a dogmatismos inquebrantáveis.
Cada um busca o poder de uma forma diferente: o dinheiro ou a fé cega. Mas o mundo não é tão simples assim. A dúvida monstruosa vai crescendo por dentro, e quanto maior ela é, mais forte se torna a necessidade de – pela força, pelo discurso ou pelo dinheiro – tentar amoldá-la ao que se quer provar.



E sempre há o momento da quebra. Que pode ser um momento de aprendizado, de ruptura e abertura, ou pode servir apenas para tornar ainda mais altos e mais largos os muros à volta.
Na realidade, a única coisa que o ser humano busca sempre é ser amado. O que varia são as formas de buscar isso e a confusão que as pessoas fazem entre o meio e o fim. Ou seja, se inicialmente a busca do poder é uma forma de tentar ser amado/admirado, muita gente que entra nesse caminho acaba confundindo as coisas. E, no fim, acaba pensando que o que está buscando realmente é o poder pelo poder.

Elizabeth
Sobre Elizabeth – The Golden Age, apenas uma observação: a transposição totalmente intempestiva da discussão sobre tolerância religiosa e dominação política. Fica totalmente artificial. Achei bacana ver no filme o pirata/soldado/comerciante Sir Walter Raleigh, que eu já tinha citado aqui no blog comentando os livros “Mr. Vertigo” de Paul Auster e “Código da Vida” de Saulo Ramos (no post "Impermanências 2").


Juno
Já em relação a Juno, também me senti um pouco decepcionado depois de tanta expectativa. A atriz Ellen Page realmente faz um bom trabalho e o resultado é uma garota semi-histérica, irritante, que não para de falar e acha que sabe tudo mais do que os outros. Mas ela faz um caminho interessante em busca da sua própria ternura. “Try a litle tenderness”. E acaba conquistando a gente.

O filme é bonitinho, engraçado e ótimo como entretenimento. Na minha modesta visão, o que o diferencia das demais comédias adolescentes que invariavelmente acabam indo parar (sendo eternamente reprisadas) na Sessão da Tarde é justamente a atuação da atriz e o ritmo alucinante da personagem (mérito do roteiro ganhador do Oscar).

Gostei do final. Gosto de finais felizes. Os dois tocando violando e cantando juntos na calçada. É bom sair do cinema assim, não é?


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 14


Walden

“Deixei a floresta por uma razão tão boa quanto a que me levava para lá. Talvez, então, me parecesse ter muitas outras vidas para viver; eu não podia gastar mais tempo com aquela”.

Henry David Thoreau

Folhas de Relva

O lugar de meus pés
está lavrado e ajustado em granito
rio-me do que dizem ser dissolução
– conheço bem a amplitude do tempo.

Walt Whitman

Amely




Pryscila Vieira

http://pryscila-freeakomics.blogspot.com/

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

INVENTÁRIOS 13


Sanbenito e Sanselimão

(Continuação da série de posts INVENTÁRIOS)
- Qual é a pergunta?
- Nossa. Tão rápido assim? Eu mal chamei e você já apareceu.
- Eu disse que viria quando você tivesse a pergunta pronta.
- Eu tenho. Acho...
- Acha ou tem certeza?
- Tenho certeza.
- E qual é?
- Tô um pouco tensa. Fico com vergonha. Posso perguntar mais uma coisa sobre o senhor? Digo, sobre você?
- Pode – respondeu o homem de terno branco, sentado aos pés da cama.
- De onde você vem?
- Muito complicado. Você realmente não teria como entender. Melhor você pular essa.
- O que você é? É gente, é espírito, é anjo, é um bruxo, é um ET, é o capeta? É Deus?
- Nenhuma das anteriores. Não vou responder essa também. Você não entenderia. Relaxe e pense que eu tenho as respostas para todas as perguntas das pessoas. Tenho acesso a esse conhecimento compartilhado por todos no universo. Posso acessá-lo a qualquer momento. Por isso alguns me chamam de Bibliotecário.
- Você é uma espécie de “Google” espiritual? É isso?
- Algo parecido. Talvez um Wikipedia seja mais próximo do que eu sou. Com a ressalva de que eu sei as respostas em profundidade. Elas são absolutas, não há possibilidade de erro.
- Tá certo, então.
- E a sua pergunta?
- Bom, lá vai: quero saber quem sou eu?
- Por que você quer saber isso?
- Você não pode me responder isso?
- Não é isso. Eu só quero saber exatamente o que você quer saber. Na realidade, o fato de eu devolver a pergunta a você já faz parte da resposta.
- Eu quero saber porque acho que só assim vou saber o que quero e saber o que preciso pra ser feliz. Quero saber o que eu tenho lá dentro, quem eu sou bem lá dentro, no princípio.
- Você acha que tem um princípio?
- Não sei...
- Se nós somos aquilo que os outros vêem, o que somos, então, quando ninguém nos vê? Somos alguma coisa?
- Não sei...
- Feche os olhos. Mergulhe fundo em você mesma, o que você vê?
- Minha infância.
- Vá mais fundo, tire as outras pessoas, as coisas que você aprendeu, as referências dos outros. O que você vê?
- Não sei...
- Continue. Mais fundo. E agora?
- Nada.
- É isso mesmo, então.
- Nada. Eu sou nada?
- Talvez seja tudo.
- Tudo ou nada?
- Faz diferença nesse ponto em que você se encontra?
- Não. Parece tudo a mesma coisa aqui. Não tem em cima nem em baixo, nem quente nem frio, nem certo ou errado. Afinal, existe certo ou errado?
- O que você acha?
- Meu pai e minha mãe me disseram um monte de coisas sobre isso. Mas eles nunca faziam aquilo que diziam. Maior hipocrisia. Fui vendo que as coisas que eles falavam não tinham nenhum encaixe com a realidade. Hoje, eu não sei se existe certo ou errado. Acho que não existe.
- E o que isso significa?
- Que tudo pode. Mas, então, se tudo pode... Então, Deus não existe. Certo?
- Um escritor russo chamado Dostoievsky já chegou a uma conclusão parecida, só que pelo lado contrário: “se Deus não existe, então tudo é permitido”.
- Mas isso é verdade?
- Não necessariamente. O que não pode coexistir é esse conceito de Deus cheio de regras fixas que se aplicam indiscriminadamente a todos os casos.
- Mas existe certo e errado?
- O que existe são decisões e conseqüências. Ou seja, existe responsabilidade por aquilo que se decide. E existe aprendizado com tudo isso. Podemos dizer que existe um mais certo e um menos certo. E a gente sabe disso. Chamamos de consciência.
- Todo mundo tem isso?
- Todo mundo. Só que tem gente que faz um verdadeiro contorcionismo de consciência para adaptar a realidade ao que deseja. Para poder, por exemplo, se convencer de quem tem o direito de prejudicar os outros.
- E cada um assume as conseqüências do que faz?
- Sem dúvida. Mais cedo ou mais tarde.
- João?
- Sim. Não sei se você respondeu a minha pergunta. Mas eu gostei. Me fez pensar.
- A resposta você já tem. Ela só não é exatamente o que você esperava.
- Acho que sim. Obrigado.
- Disponha. Quando precisar me chame.
- Tá certo, eu... Já foi... É... Então tá... Valeu...

(Continua na série de posts INVENTÁRIOS)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

IMPERMANÊNCIAS 13


O amor insubstantivo



No conto "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", o escritor argentino Jorge Luis Borges fala de um mundo misterioso chamado Tlön onde a linguagem dos habitantes não usa substantivos. Os habitantes desse mundo não vêem as coisas de forma espacial, apenas temporal. Assim, as coisas são designadas através de verbos, numa espécie de continuum.

Lá não existe a lua, mas o lunar, não existe o rio, mas o duradouro-fluir. E o amor, nesse mundo, seria o amar. Nunca estanque, nunca estático, nunca contingente, apenas fluido e em movimento.

Talvez os habitantes de Tlön tenham chegado a um conceito mais próximo das coisas como realmente são e, por extensão, do que é o verdadeiro amor: um eterno mover-se.




segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 13


Todos os sempres

Sempre houve essas cartas
Viradas sobre a mesa.
Sempre houve esses rostos,
Nos censurando sobre a vida.

Sempre houve a dificuldade,
O perigo, e promessas não cumpridas.
Sempre houve o tempo escasso
E essa espera que não acaba nunca.

Sempre houve o nada ao nosso redor
E sempre houve todas essas coisas
Que não nos servem e que a vida,
Meio sem querer, tenta nos impor.

Sempre houve a pressão e a cobrança,
O medo de errar e a dificuldade enorme
De distinguir o fim e o começo.
Pois, sempre houve mais dúvidas do que certezas.

Sempre houve um passado e um futuro,
Enquanto o presente escapa rápido
Por entre os nossos dedos,
Levando aquilo em que acreditávamos.
Sempre houve menos do que queríamos
E mais do que podíamos suportar.

Sempre houve a vida e a morte.
Sempre houve caminhos
Que nunca levaram a lugar algum
E por isso nunca estivemos perdidos.

Sempre houve amor e esperança,
Sempre houve dedicação e esforço,
Mas ninguém nos viu crescer
Porque sempre houve essa triste cegueira.

Sempre houve todos esses preconceitos
E a facilidade dos julgamentos apressados.
Quando esperávamos alguma compreensão,
Sempre houve acusações e braços cruzados.

Sempre houve o céu azul e o mar
A vontade de conhecer e de viajar.
Sempre houve estradas se abrindo,
Mas onde deveria haver portas,
Nós encontrávamos janelas
E quase nenhuma vontade de pular.

Sempre houve a vontade de desistir
E sempre houve uma saída mais fácil.
Mas sempre haverá mais força
Dentro de tudo aquilo que temos sido
Porque sempre haverá mais sonhos
Do que uma vida possa destruir.

Wilson Gasino

domingo, 24 de fevereiro de 2008

INVENTÁRIOS 12


Aporia





(Continuação da série de posts “Inventários”)


- A palavra é "ensimesmado" - propôs Beth.
- Essa é muito fácil. A própria palavra já diz. É estar dentro em si mesmo. Meditando, refletindo ou qualquer coisa assim. – respondeu Ismael.
- OK. Tá certo. Manda uma.
- "Solipsismo".
- Isso existe mesmo ou você ta inventando?
- Existe sim. É um termo filosófico.
- Aí fica difícil. Você fica puxando esse seu dialeto filosofal...
- Você disse que valia e eu aceitei que você também usasse termos de psicologia.
- OK, OK. Não sei. Que diabo é isso?
- É uma corrente teórica que diz que todo e qualquer conhecimento só pode ser fundamentado na experiência pessoal.
- É um egocentrismo filosófico.
- É, de certa forma é. Vai lá. Vê se agora traz uma difícil.
- "Epônimo".
- Hmmmm. Nessa você me pegou. Eu sabia, mas não lembro mais. Que bicho é esse?
- É quando o nome de alguém vira nome de lugar, teoria ou até de doença. Nesse último caso eu estudo bastante. Síndrome de fulano, mal de sicrano de tal e por aí.
- Como Doença de Chagas?
- Isso mesmo. E a palavra também pode ter outro sentido que é quando você coloca um “ismo”. Você pode dizer que fulano é “lulista” ou “carlista” ou “malufista”.
- Bacana.
- Ah, essa é fácil...
- Não, eu só tava comentando.
- Rsrsrsrs. Eu sei, bobo.
- Tá bom. Aí vai, hein: "aporia".
- Faço a menor idéia do que é esse troço.
- É quando um raciocínio leva a uma contradição insolúvel ou um paradoxo, onde não há saída. Pode ser um tipo de sofisma, por exemplo.
- Ainda tô boiando.
- Vou dar um exemplo: se o maior amor é o amor incondicional, como ele pode existir se ele parte de uma condição que é o objeto a quem ele é dirigido. Ou seja, ou não existe amor incondicional ou esse amor não é dirigido a ninguém, nem mesmo à Humanidade, por exemplo. E como tal é fútil e não passa de um baita de um egoísmo que nada constrói.
- Não sei ainda se entendi direito, mas é a minha vez e agora eu tenho uma arma fatal: "flunfa".
- Fácil demais. Essa palavra virou modismo. Tem até site na internet sobre isso. É a sujeirinha que fica no umbigo da gente.
- Rrrrrrrrrrrrrrrr. Pensei que ia pegar você.
- Quem vai pegar sou eu. Lá vai a bomba: "patognomônico".
- Ah, não. Que pôrra é essa? Você só pode ter inventado isso, seu canalha.
- Hahahahahaha.
- Inventou, não inventou?
- Hahahaha, não, existe mesmo, hahahaha, é só olhar no dicionário. E não vale fazer cócegas.
- Rsrsrsrs. Agora você me paga. Rsrsrs. Patoqueopariu o cacete. Tá lenhado comigo. Rsrsrs.
- Hahaha. Eu me rendo, eu me rendo, mas cócegas não. Hahahaha.

(Continua na série de posts “Inventários”)