
(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS)
Beth nunca pensou que sentiria tanta falta da mãe. Apesar de toda a indiferença, das demonstrações de desprezo, do desdém pela sua escolha da faculdade de psicologia e de tantas outras ocasiões em que ela fizera questão de ser desagradável. Apesar de tantas vezes ela ter jogado para cima de Beth toda a frustração de ter largado uma vida própria para se dedicar à família. E apesar das tantas vezes em que a mãe descarregara nela a raiva das amantes que o pai fazia questão de não esconder.
Mas Beth sentiu o baque da morte da mãe. Enquanto as pessoas iam e viam em torno do caixão, ela pensava em tudo o que poderia ter sido. De como seria bom ter tido uma mãe amiga e companheira, com quem pudesse ter dividido segredos, descobertas e dúvidas. De como teria sido bem mais fácil e prazeroso o difícil percurso da adolescência.
Quando a mãe morreu, fazia dois anos que Beth tinha saído da casa dos pais para morar com uma amiga de faculdade. No início, ela sempre ia ver a família nos almoços de domingo, mas, com o passar do tempo, as visitas foram rareando. E agora que ela estava entrando no último ano de faculdade, chegava a passar mais de um mês sem ver os pais.
Mesmo assim, Beth ficou chocada. Mais ainda pela forma como a mãe morrera. Nunca pensara que ela seria capaz de cometer suicídio. Alguém tão apegado à vida e à imagem que os outros faziam dela. Alguém que tinha como seu maior prazer a inveja dos outros, coisa que o dinheiro do pai de Beth sempre ajudava a proporcionar.
O mais irônico de tudo foi que justamente a partir daí é que o suicídio entrou na vida de Beth como uma idéia concreta. Até então, o suicídio lembrava à Beth apenas a morte de sua melhor amiga de infância, Mira. Mas, depois da morte da mãe, passou a fazer parte do seu dia-a-dia.
E isso aconteceu justamente num momento em que ela se sentia fraca e sem sentido. Em que começara a experimentar drogas pesadas com alguns colegas de faculdade e um forte desejo de autodestruição despontava nas suas pequenas atitudes. Não se alimentava direito, não dormia bem, não cuidava dos cabelos e da roupa. Passava dias sem arrumar a cama.
A única rotina era a faculdade, que ela freqüentava numa disciplina quase mecânica, como algo que tem que ser feito sem qualquer questionamento.
Nessa época, as coisas pareciam embotadas e Beth procurava sensações fortes para poder realmente sentir alguma coisa. E de todas as sensações fortes, a mais aguda e a única que parecia ser capaz de vencer o entorpecimento e fazê-la se sentir viva era a dor.
E nesse período, algumas vezes, a dor a fez feliz.






