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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

IMPERMANÊNCIAS 14


There Will Be Blood

Só fui ver “Sangue Negro” (There Will Be Blood), de Paul Thomas Anderson, depois do Oscar. Já tinha visto o grande vencedor “Onde os Fracos Não Tem Vez” (No Country For The Old Man).
Na realidade, gostei mais de Sangue Negro. Os dois filmes tem bom roteiro, boa direção bom elenco, e, principalmente, um grande personagem interpretado por um excelente ator, que acaba levando o filme. Javier Bardem faz o psicopata Anton Chigur e Daniel Day-Lewis o ambicioso “oil-man” Daniel Plainview.

Nenhum dos dois filmes traz uma linguagem nova em termos de cinema: um thriler nervoso e um drama convencional, os dois com final infeliz. Mas Sangue Negro me pareceu mais bem construído e finalizado. Talvez eu seja muito conservador ou ignorante em termos de cinema. Ou, talvez, simplesmente porque eu tenha achado espetacular a atuação de Day-Lewis. E é realmente muito bom ver a atuação desse grande ator (bissexto no cinema) que se desenvolve até nos detalhes mínimos da postura corporal. Muito bom.

Sai capeta
Outro ponto interessante de Sangue Negro, é aquele garoto de cara esquisita (Paul Dano) que faz papel de Edir Macedo quando jovem. Muito bom também.
Os dois fazem um contraponto bacana. Cada um com a sua visão dogmática da vida. Levando até as últimas conseqüências esse comportamento no aspecto externo, e vivendo, simultaneamente, imensas dúvidas por dentro.
A melhor mensagem do filme é justamente essa: a realidade não se amolda a certezas absolutas, a caminhos inflexíveis, a dogmatismos inquebrantáveis.
Cada um busca o poder de uma forma diferente: o dinheiro ou a fé cega. Mas o mundo não é tão simples assim. A dúvida monstruosa vai crescendo por dentro, e quanto maior ela é, mais forte se torna a necessidade de – pela força, pelo discurso ou pelo dinheiro – tentar amoldá-la ao que se quer provar.



E sempre há o momento da quebra. Que pode ser um momento de aprendizado, de ruptura e abertura, ou pode servir apenas para tornar ainda mais altos e mais largos os muros à volta.
Na realidade, a única coisa que o ser humano busca sempre é ser amado. O que varia são as formas de buscar isso e a confusão que as pessoas fazem entre o meio e o fim. Ou seja, se inicialmente a busca do poder é uma forma de tentar ser amado/admirado, muita gente que entra nesse caminho acaba confundindo as coisas. E, no fim, acaba pensando que o que está buscando realmente é o poder pelo poder.

Elizabeth
Sobre Elizabeth – The Golden Age, apenas uma observação: a transposição totalmente intempestiva da discussão sobre tolerância religiosa e dominação política. Fica totalmente artificial. Achei bacana ver no filme o pirata/soldado/comerciante Sir Walter Raleigh, que eu já tinha citado aqui no blog comentando os livros “Mr. Vertigo” de Paul Auster e “Código da Vida” de Saulo Ramos (no post "Impermanências 2").


Juno
Já em relação a Juno, também me senti um pouco decepcionado depois de tanta expectativa. A atriz Ellen Page realmente faz um bom trabalho e o resultado é uma garota semi-histérica, irritante, que não para de falar e acha que sabe tudo mais do que os outros. Mas ela faz um caminho interessante em busca da sua própria ternura. “Try a litle tenderness”. E acaba conquistando a gente.

O filme é bonitinho, engraçado e ótimo como entretenimento. Na minha modesta visão, o que o diferencia das demais comédias adolescentes que invariavelmente acabam indo parar (sendo eternamente reprisadas) na Sessão da Tarde é justamente a atuação da atriz e o ritmo alucinante da personagem (mérito do roteiro ganhador do Oscar).

Gostei do final. Gosto de finais felizes. Os dois tocando violando e cantando juntos na calçada. É bom sair do cinema assim, não é?


terça-feira, 8 de janeiro de 2008

IMPERMANÊNCIAS 2


Leituras de férias

Uma coisa maravilhosa das férias é poder colocar a leitura em dia. Eu tinha vários livros me esperando e não tinha tempo para me dedicar a eles como deveria, já que a correria no jornal foi muito grande em novembro e dezembro. Principalmente pela aceleração do processo de convergência de mídia, o que me obrigou a me dedicar a leituras mais técnicas nesse período. Para matar a vontade, tenho devorado livros com uma velocidade impressionante para um período movimentado de festas, viagens, caminhadas no mato e banhos de cachoeira. Vamos à lista:

Momo e o Senhor do Tempo

Comecei com “Momo e o Senhor do Tempo”, de Michael Ende, que ganhei de Alane. Uma bela fábula sobre o uso do tempo e o quanto a gente fica economizando a vida, como se ela pudesse ficar guardada em algum lugar nos esperando. Tem passagens belíssimas, como a estória da princesa dos espelhos.






Mr. Vertigo

Depois terminei “Mr. Vertigo”, do Paul Auster, na versão em inglês, que emprestei de Greice. Muito bom. Também uma fábula. Esta sobre o american dream no Século XX e, afinal, os sonhos de todos nós.







As 1001 noites


Falando em fábulas, em seguida reli os contos das "1001 Noites", recomendado e emprestado especialmente pela Luciane. Sempre muito bom. Dá para ver o quanto esses contos influenciaram e influenciam o nosso imaginário até hoje.

Código da Vida

Estou lendo agora “Código da Vida” do jurista Saulo Ramos, que ganhei da Nani no Natal. Um livro muito interessante. Misto de memórias e thriller de suspense. Ele conta vários episódios interessantes de sua carreira, alguns fundamentais na história do Brasil, como a renúncia de Jânio, a posse de Sarney após a morte de Tancredo e o impeachment de Collor. Paralelamente, conta como resolveu, junto com a equipe de seu escritório de advocacia, o caso que considera o mais cabeludo de sua carreira. Vale muito a pena.



Coincidência

Um fato interessante é que Saulo Ramos viaja em vários devaneios pelo livro. Num deles, falando do seu vício do cigarro, cita Sir Walter Raleigh, um misto de comerciante e pirata britânico, responsável por introduzir o fumo no dito mundo civilizado do início do século XVII. O fato é que o rei inglês Jaime I, conta Saulo Ramos, revelou-se o primeiro anti-tabagista da história, inclusive escrevendo contra o novo “mau costume oriundo da América”. Por fim, Jaime I mandou decapitar Walter Raleigh nos idos de 1618.

Uma interessante coincidência aí é o fato de Paul Auster também ter citado em seu livro Sir Walter Raleigh e claramente ter buscado inspiração nele para o nome de seu personagem principal Walter Claireborne Rawley, o garoto que aprende a voar.

Bruno e os Elefantes Marinhos

Ah, também li nesse período “Bruno e os Elefantes Marinhos”, do gaúcho Luigi Del Re. São crônicas de um pai que perdeu seu filho mais companheiro. Uma história real e emocionamente. Fiquei imediatamente sensibilizado, porque o meu filho mais velho se chama Bruno e faz 16 anos em 2008. A mesma idade com que o filho do autor morreu.






Filhos

Embora meus filhos Bruno, Bernardo e Giovanna já há vários anos não morem comigo (desde a minha separação da mãe deles), temos uma ligação muito forte. Passei junto com eles boa parte destas férias.

No último Dia dos Pais, Bruno me mandou um longo e-mail lembrando de todas as coisas que fazíamos juntos quando morávamos em Curitiba e, depois, nos finais de semana em que eu ficava com eles em Londrina, no Norte do Paraná. Era para me consolar da distância e eu me senti muito feliz.

Ele terminava com a frase: “- Deus te abençoe, pai”. E eu, emocionado, respondi ao e-mail de pronto: “Ele tem me abençoado, meu filho, você é uma grande prova disso”.