Mostrando postagens com marcador Jorge Luis Borges. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jorge Luis Borges. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de março de 2008

IMPERMANÊNCIAS 20


Bernard-Henri Levy e

o intelectualismo dândi



Ontem à noite, na saída da palestra de Bernard-Henri Levy, conversei com Mariana, Simone, Josélia, Simanca, Tiago, Marta e Ana Helena. Acredito que havia algo em comum a todas as opiniões, ou seja, um certo sentimento de que faltou alguma coisa.

Na realidade, acho que a média das expectativas era grande demais e por mais que o palestrante demonstrasse seu notório saber, em nenhum momento aconteceu aquilo que todo mundo esperava: uma grande afirmação filosófica que mexesse com as nossas crenças pessoais, que nos colocasse de frente a uma interrogação nova e inquietante, que nos deixasse – como diz a sabedoria popular – com a pulga atrás da orelha.

Apresentado como o supra-sumo do pensamento francês da atualidade, BHL provou ser mesmo o grande filósofo pop-star. Um homem de mídia, um showman, um dândi que passeia sobre conceitos do pensamento francês do século passado, alimentando-se de nomes como Sartre e Malraux, aproveitando-se, ao mesmo tempo, apenas daquilo que lhe interessa.

A palestra de BHL passeou por temas que são hoje “standard” no pensamento mundial, criticando o totalitarismo e o nazismo, e também festejando a morte do já apodrecido comunismo. Num discurso surrado de direita, fez a sua elegia aos Estados Unidos – única coisa surpreendente, já que isso é raríssimo no pensamento francês (excetuando a histórica presença de Tocqueville, nome em que os defensores da globalização se apoiaram de forma comensal).

O que mais chama a atenção foi a falta de algo novo e talvez isso não seja mesmo culpa de BHL (nem da fraca tradução simultânea), mas da falta de originalidade do pensamento ocidental atual. Se, ao falar contra o totalitarismo, o filósofo francês entrasse na questão da indústria cultural, talvez trouxesse algo de quase novo. Talvez. Mas, nem isso.

De aproveitável, fica um dos pontos citados como o papel do intelectual na cidade: o de gerar a dúvida. Interessante. Nada de novo, mas interessante. E que dúvida BHL nos trouxe na palestra? Talvez a dúvida de que existe um novo pensamento, não cooptado pela indústria cultural, nem rançoso com o messianismo de uma esquerda que já feneceu diante da luz do sol.

Eu tenho verdadeira alergia daquelas resenhas à moda da Folha de São Paulo dos anos 80, escola de matinas Suzuki, onde a ordem era descer a lenha. Quanto mais ácida, irônica, destrutiva e cruel era a resenha, mais inteligente ela era considerada. Não se trata disso aqui. O problema das idéias de BHL foi realmente o nada de novo retumbante - sonolento – mesmo que dito com inteligência e proficiência.

A lição que fica, pelo menos para mim, é a do vácuo de idéias novas. Já que o neo-conservadorismo nada traz de realmente novo e nada propõe.

Por incrível que pareça, o melhor momento da palestra foi quando BHL falou do ateísmo de Sartre como “a grande aventura do homem moderno”. Mas não era BHL falando. Era o deus dele. O seu pai gerador. E o engraçado é que cinco minutos antes, ele dizia que reza todos os dias para que Barak Obama seja o novo presidente dos Estados Unidos.

Sobre a sua declaração de amor aos EUA, é óbvio que o Tio Sam é responsável por grandes avanços nas liberdades individuais e na luta pelos direitos humanos no nosso tempo. Mas tem muitas coisas despencando no Império Americano.

Não sou grande conhecedor dos Estados Unidos, Mas estive no interior dos EUA no ano passado e pude ver bandeiras confederadas e retratos do General Lee em restaurantes populares. BHL diz que a Ku Klux Klan acabou e que o racismo é coisa que não existe mais já há 30 anos. Mas como explicar, então, o caso Rodney King e as cadeias norte-americanas cheias de negros? Como explicar o que aconteceu em Nova Orleãs após o Katrina?

Talvez seja por esse vácuo do novo pensamento ocidental que novos cineastas, escritores e pensadores do Oriente e do Oriente Médio conquistaram admiradores nos últimos anos. Nomes como Wong Kar-Wai e Kiarostami. Mesmo tendo sido, em parte, cooptados pela indústria cultural.

Agora, de todos os pecados da palestra de BHL, dois eu não consigo perdoar. O primeiro foi o de fazer altos elogios aos pensadores brasileiros e de conseguir citar apenas Celso Furtado (com mérito) e não lembrar de um só escritor. E, pior, ao falar do argentino Jorge Luis Borges, dizer que ele não era um intelectual.

Óbvio que Borges não era um acadêmico, mas era sim um intelectual e que influenciou nomes como Umberto Eco e Italo Calvino. E, com certeza, a obra dele sobreviverá muitas décadas depois do nome de BHL não constar mais nem mesmo na Wikipedia.


Abaixo, vai uma foto que tirei nos EUA mostrando a bandeira confederada exposta num tradicional restaurante que serve o “barbecue”, em Columbia, na Carolina do Sul.




sábado, 8 de março de 2008

INVENTÁRIOS 16


Who made who?





(Continuação da série de posts "Inventários")

Mesa do bar Valentino. Beth conversa com Ismael e com um casal de amigos, Teresa e Dinho. Ela é jornalista e ele cursou psicologia junto com Beth. A conversa varia sobre diversos temas, que vão desde falar mal de pessoas chatas e arrogantes, até divagações sobre política e futebol. No momento, falam sobre música.
- Gosto de Los Hermanos. Principalmente do Bloco do Eu Sozinho. Todo o Carnaval Tem Seu Fim. Acho uma coisa diferente na música brasileira - observa Teresa, comentando a música cantada pelo rapaz com um violão, no pequeno palco do bar.
- Que coisa nova o quê. É uma releitura de várias coisas antigas, que vão desde bossa nova e samba, até o rock inglês dos ano 80 e 90. É Nara Leão misturado com The Smiths e Coldplay - replica Dinho.
- Se for pensar desse jeito, tudo hoje é mistura de alguma coisa. Nos anos 90 acho que já era assim também - emenda Beth - hoje de manhã eu tava ouvindo Madeleine Peyroux. É pura Billie Holliday. É imitação descarada.
- Não quero decepcionar vocês, mas a gente vive no tempo do sampler e do remix. Tudo agora é a uma revisão de algo antigo, um retalho colado a outros retalhos, tentando parecer algo novo. Aliás, desde os Beatles não tem nada de novo na música – intervém Ismael.
- Até os Beatles tiveram suas influências, cara. Folk music, blues, clássicos – aponta Dinho.
- Mas eles desenharam um caminho por onde todos vieram depois – acrescenta Teresa.
- Será que eles tinham noção disso? - Pergunta Ismael.
- Como assim? – Pergunta também Beth.
- Será que não foram as releituras posteriores é que foram acrescentando novas significações e que enriqueceram o trabalho deles? – Responde Ismael com outra pergunta.
- É uma teoria interessante – dá de ombros Teresa.
- Não é minha. Vários filósofos da cultura já falaram sobre isso, principalmente na literatura. É a idéia de que a obra se completa com o olhar do leitor e quanto mais rica e generosa for a sua interpretação, mais a sua obra cresce – prossegue Ismael.
- Li um conto do Jorge Luis Borges sobre isso. Ele fala de um cara que quer reescrever o Quixote, 200 anos depois de Cervantes. Palavra por palavra. Mas esse maluco, chamado Pierre Menard, simplesmente não consegue. E Borges, construindo seus velhos labirintos, vai nos provando que escritores posteriores influenciaram seus antecessores – conta Dinho.
- É mais ou menos lógico. Como alguém que vê um filme do Godard e só depois vê pela primeira vez um Hitchcock. É o nosso olhar que fica influenciado – lembra Teresa.
- Como alguém que ouvisse a Madeleine primeiro e depois Billie Holliday e achasse que ela é que imita – brinca Beth.
- Mas, então, a gente nunca vai poder dizer que tem uma música do nosso tempo? - questiona Dinho.
- A gente só vai saber disso depois. O poeta Baudelaire dizia que a obra prima é aquela que ao mesmo tempo fala uma coisa do seu tempo e outra que é essencial a todas as épocas. Ou seja, ao mesmo tempo que ela é eterna, você também pode localizá-la exatamente no tempo dela – cita Ismael.
- Então a gente não tem uma cultura. Tem retalhos requentados de culturas mais antigas? – ironiza Beth.
- E se sempre foi assim? E se é a gente que se acha tão desenvolvido e importante que resolve achar que é diferente? E se tudo for igual ao que sempre foi? A gente se reinventando sempre. O tempo todo vasculhando os bolsos dos defuntos atrás de um trocado, de uma boa idéia... – argumenta Dinho
- Acho que a gente não vai conseguir responder essa pergunta numa mesa de bar – interrompe Teresa.
- Muita coisa boa já saiu de uma mesa de bar... – insiste Ismael.
- Não sei de vocês, mas nesse momento, a única coisa que eu quero é outra cerveja e que esse cara que tá cantando pare de tentar imitar o Djavan – reclama Beth.
- Essa é a pôrra da cultura remix – segue Dinho, rindo. E os outros concordam e riem também, enquanto Beth pede outra cerveja e faz caretas imitando o cantor.

(Continua na série de posts "Inventários")

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

IMPERMANÊNCIAS 13


O amor insubstantivo



No conto "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", o escritor argentino Jorge Luis Borges fala de um mundo misterioso chamado Tlön onde a linguagem dos habitantes não usa substantivos. Os habitantes desse mundo não vêem as coisas de forma espacial, apenas temporal. Assim, as coisas são designadas através de verbos, numa espécie de continuum.

Lá não existe a lua, mas o lunar, não existe o rio, mas o duradouro-fluir. E o amor, nesse mundo, seria o amar. Nunca estanque, nunca estático, nunca contingente, apenas fluido e em movimento.

Talvez os habitantes de Tlön tenham chegado a um conceito mais próximo das coisas como realmente são e, por extensão, do que é o verdadeiro amor: um eterno mover-se.