Aporia

(Continuação da série de posts “Inventários”)
- A palavra é "ensimesmado" - propôs Beth.
- Essa é muito fácil. A própria palavra já diz. É estar dentro em si mesmo. Meditando, refletindo ou qualquer coisa assim. – respondeu Ismael.
- OK. Tá certo. Manda uma.
- "Solipsismo".
- Isso existe mesmo ou você ta inventando?
- Existe sim. É um termo filosófico.
- Aí fica difícil. Você fica puxando esse seu dialeto filosofal...
- Você disse que valia e eu aceitei que você também usasse termos de psicologia.
- OK, OK. Não sei. Que diabo é isso?
- É uma corrente teórica que diz que todo e qualquer conhecimento só pode ser fundamentado na experiência pessoal.
- É um egocentrismo filosófico.
- É, de certa forma é. Vai lá. Vê se agora traz uma difícil.
- "Epônimo".
- Hmmmm. Nessa você me pegou. Eu sabia, mas não lembro mais. Que bicho é esse?
- É quando o nome de alguém vira nome de lugar, teoria ou até de doença. Nesse último caso eu estudo bastante. Síndrome de fulano, mal de sicrano de tal e por aí.
- Como Doença de Chagas?
- Isso mesmo. E a palavra também pode ter outro sentido que é quando você coloca um “ismo”. Você pode dizer que fulano é “lulista” ou “carlista” ou “malufista”.
- Bacana.
- Ah, essa é fácil...
- Não, eu só tava comentando.
- Rsrsrsrs. Eu sei, bobo.
- Tá bom. Aí vai, hein: "aporia".
- Faço a menor idéia do que é esse troço.
- É quando um raciocínio leva a uma contradição insolúvel ou um paradoxo, onde não há saída. Pode ser um tipo de sofisma, por exemplo.
- Ainda tô boiando.
- Vou dar um exemplo: se o maior amor é o amor incondicional, como ele pode existir se ele parte de uma condição que é o objeto a quem ele é dirigido. Ou seja, ou não existe amor incondicional ou esse amor não é dirigido a ninguém, nem mesmo à Humanidade, por exemplo. E como tal é fútil e não passa de um baita de um egoísmo que nada constrói.
- Não sei ainda se entendi direito, mas é a minha vez e agora eu tenho uma arma fatal: "flunfa".
- Fácil demais. Essa palavra virou modismo. Tem até site na internet sobre isso. É a sujeirinha que fica no umbigo da gente.
- Rrrrrrrrrrrrrrrr. Pensei que ia pegar você.
- Quem vai pegar sou eu. Lá vai a bomba: "patognomônico".
- Ah, não. Que pôrra é essa? Você só pode ter inventado isso, seu canalha.
- Hahahahahaha.
- Inventou, não inventou?
- Hahahaha, não, existe mesmo, hahahaha, é só olhar no dicionário. E não vale fazer cócegas.
- Rsrsrsrs. Agora você me paga. Rsrsrs. Patoqueopariu o cacete. Tá lenhado comigo. Rsrsrs.
- Hahaha. Eu me rendo, eu me rendo, mas cócegas não. Hahahaha.
(Continua na série de posts “Inventários”)
