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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

INVENTÁRIOS 13


Sanbenito e Sanselimão

(Continuação da série de posts INVENTÁRIOS)
- Qual é a pergunta?
- Nossa. Tão rápido assim? Eu mal chamei e você já apareceu.
- Eu disse que viria quando você tivesse a pergunta pronta.
- Eu tenho. Acho...
- Acha ou tem certeza?
- Tenho certeza.
- E qual é?
- Tô um pouco tensa. Fico com vergonha. Posso perguntar mais uma coisa sobre o senhor? Digo, sobre você?
- Pode – respondeu o homem de terno branco, sentado aos pés da cama.
- De onde você vem?
- Muito complicado. Você realmente não teria como entender. Melhor você pular essa.
- O que você é? É gente, é espírito, é anjo, é um bruxo, é um ET, é o capeta? É Deus?
- Nenhuma das anteriores. Não vou responder essa também. Você não entenderia. Relaxe e pense que eu tenho as respostas para todas as perguntas das pessoas. Tenho acesso a esse conhecimento compartilhado por todos no universo. Posso acessá-lo a qualquer momento. Por isso alguns me chamam de Bibliotecário.
- Você é uma espécie de “Google” espiritual? É isso?
- Algo parecido. Talvez um Wikipedia seja mais próximo do que eu sou. Com a ressalva de que eu sei as respostas em profundidade. Elas são absolutas, não há possibilidade de erro.
- Tá certo, então.
- E a sua pergunta?
- Bom, lá vai: quero saber quem sou eu?
- Por que você quer saber isso?
- Você não pode me responder isso?
- Não é isso. Eu só quero saber exatamente o que você quer saber. Na realidade, o fato de eu devolver a pergunta a você já faz parte da resposta.
- Eu quero saber porque acho que só assim vou saber o que quero e saber o que preciso pra ser feliz. Quero saber o que eu tenho lá dentro, quem eu sou bem lá dentro, no princípio.
- Você acha que tem um princípio?
- Não sei...
- Se nós somos aquilo que os outros vêem, o que somos, então, quando ninguém nos vê? Somos alguma coisa?
- Não sei...
- Feche os olhos. Mergulhe fundo em você mesma, o que você vê?
- Minha infância.
- Vá mais fundo, tire as outras pessoas, as coisas que você aprendeu, as referências dos outros. O que você vê?
- Não sei...
- Continue. Mais fundo. E agora?
- Nada.
- É isso mesmo, então.
- Nada. Eu sou nada?
- Talvez seja tudo.
- Tudo ou nada?
- Faz diferença nesse ponto em que você se encontra?
- Não. Parece tudo a mesma coisa aqui. Não tem em cima nem em baixo, nem quente nem frio, nem certo ou errado. Afinal, existe certo ou errado?
- O que você acha?
- Meu pai e minha mãe me disseram um monte de coisas sobre isso. Mas eles nunca faziam aquilo que diziam. Maior hipocrisia. Fui vendo que as coisas que eles falavam não tinham nenhum encaixe com a realidade. Hoje, eu não sei se existe certo ou errado. Acho que não existe.
- E o que isso significa?
- Que tudo pode. Mas, então, se tudo pode... Então, Deus não existe. Certo?
- Um escritor russo chamado Dostoievsky já chegou a uma conclusão parecida, só que pelo lado contrário: “se Deus não existe, então tudo é permitido”.
- Mas isso é verdade?
- Não necessariamente. O que não pode coexistir é esse conceito de Deus cheio de regras fixas que se aplicam indiscriminadamente a todos os casos.
- Mas existe certo e errado?
- O que existe são decisões e conseqüências. Ou seja, existe responsabilidade por aquilo que se decide. E existe aprendizado com tudo isso. Podemos dizer que existe um mais certo e um menos certo. E a gente sabe disso. Chamamos de consciência.
- Todo mundo tem isso?
- Todo mundo. Só que tem gente que faz um verdadeiro contorcionismo de consciência para adaptar a realidade ao que deseja. Para poder, por exemplo, se convencer de quem tem o direito de prejudicar os outros.
- E cada um assume as conseqüências do que faz?
- Sem dúvida. Mais cedo ou mais tarde.
- João?
- Sim. Não sei se você respondeu a minha pergunta. Mas eu gostei. Me fez pensar.
- A resposta você já tem. Ela só não é exatamente o que você esperava.
- Acho que sim. Obrigado.
- Disponha. Quando precisar me chame.
- Tá certo, eu... Já foi... É... Então tá... Valeu...

(Continua na série de posts INVENTÁRIOS)