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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

IMPERMANÊNCIAS 66



Cachoeira do Rio dos Pardos



União da Vitória - Paraná



35 metros de altura

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

IMPERTINÊNCIAS 65



Cachoeira do Rio Bonito





União da Vitória - Paraná





20 metros de altura

domingo, 4 de janeiro de 2009

IMPERMANÊNCIAS 65

Deus absconditus, deus otiosus



Minha alma troca de pele
Assim como fazem as cobras.
Os dentes continuam afiados
O veneno fica ainda mais forte.

De tudo o que vamos deixando
Para trás por esse caminho,
As nossas verdades mais puras
São aquilo que permanece em nós.

Mudamos de idéia, de casa,
De par, de personalidade,
De sonho e até mesmo de nome,
E o veneno fica ainda mais forte.

...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

IMPERTINÊNCIAS 64



Homo Viator


Somos todos Ulisses
(grego ou irlandês).
Viajamos pela vida
E, nos encontros,
Trocamos notas
De diários de bordo.
Nos reconhecemos.

Eu a vejo no caminho
O olhar doce
E o sorriso dela
Fazem com que
A minha alma
Se sinta em casa.
Nossa casa é o novo.

domingo, 28 de dezembro de 2008

sábado, 27 de dezembro de 2008

IRIDESCÊNCIAS 6


El dia que me queira



(Continuação da série de posts “IRIDESCÊNCIAS”)


Pepita Gonzales caminhou pelas estradas fugindo de sua própria imagem durante dias. Quando passava por alguma pequena cidade, evitava as vitrines onde, muitas vezes, o vidro refletia seu rosto e seu corpo. Estava triste, se sentia só, faminta, gorda e com a sobrancelha malfeita.

Só se sentiu melhor quando parou em frente aos enormes portões do Spa Beleza Beautifull, com seus jardins cheios de flores e atendentes cheias de sorrisos. Ali, pensou Pepita, poderia se tornar uma pessoa digna de ser olhada. Poderia tirar novas fotos e espalhá-las pela internet nos seus perfis de Orkut, My Space, Flickr, Facebook, Twitter, Crapshook e muito mais.

A grã-esteticista do Spa Beleza Beatifull, Donana Marzipan, era uma mulher ocupada, mas abriu um pequeno espaço em sua agenda Hello Kitty para receber Pepita.

- O mais importante é a beleza interior – observou Donana, lixando a pontinha da unha do dedo indicador que lhe pinicava cada vez que ela coçava o ouvido.

- É mesmo? – duvidou Pepita.

- Mas como ninguém enxerga mesmo dentro de você, a não ser o operador de raio-x, vamos fazer alguma coisa para melhorar esse visual.

- O quê, o quê?

- Alinhamento de silicone, botox retrofacial, peeling ornamental, buço permanente, chapinha balinesa e depilação ergométrica.

- Uau – suspirou a moça, já se imaginando toda repaginada.


(Continua na série de posts “IRIDESCÊNCIAS”)


quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 62


Interiores



Fechado em sua concha áspera, mas sem nunca deixar de ouvir o rugido do mar revolto lá fora, Antonio prosseguia seu trabalho no casarão. Fazia suas refeições em separado. Muitas vezes, até, fechado em seu quarto, conversando apenas com Laura, quando queria algo da casa, e com Augusto, nas horas de trabalho. Nestes dias não via Letícia, nem Theodoro, nem Arthur, numa vida quase monástica.


Lia muito. Levava os jornais para o quarto à noite e pegava muitos livros da imensa biblioteca de Augusto Orsini. Mas fugia de temas que o fizessem pensar demais. Gostava de biografias antigas e livros de história, fazendo do passado antigo a maior parte do seu presente.


O inverno de Curitiba era frio e seco, com belas manhãs de sol. Nos finais de semana, saía a caminhar pela cidade. Andava um pouco de bonde. Via centenas de rostos diferentes. Eram pessoas que viviam e quantas - ele pensava - não estavam mortas e enterradas como ele. Quantas haviam escolhido, como ele, aquele caminho. E quantas, também como ele, não haviam sido levadas a isto pela vida.


Mas a maior parte das pessoas parecia feliz e, portanto, não sentia a mesma dor incômoda. Que tipo de droga anestésica milagrosa - pensava - poderia fazer isso? Será que havia alguma forma de apagar isso, como quem apaga um lampião de gás. Seria conformismo? Será que todos já sabiam mesmo que a vida era apenas uma dor transmitida de geração em geração, ou ele era o único no mundo a se sentir daquele jeito?


Parou em frente à banca de jornal e leu algumas manchetes. Havia muita desgraça e nenhuma notícia que pudesse considerar boa. Pensou que havia gente com muito mais problemas e dor do que ele. Havia morte, doenças, miséria, guerra, violência e o roubo deslavado da política. Havia desencontros, filhos que perdem os pais, amores que se separam, fortunas que se dissolvem da noite para o dia, desgraças de todo o tipo. Havia fome, medo, desesperança e solidão. Mas não havia ninguém que sentisse o que ele sentia. Não havia ninguém que se sentisse tão inútil e tão perdido em sua própria vida. Pelo menos era o que os jornais diziam.


(trecho do romance inédito "O Castelo da Não Existência")


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 61

And so...

So this is Christmas
and what have you done...

(e quando começa a tocar a versão de Simone - Socorro!!!!!!!)

sábado, 20 de dezembro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 60



Tudo


Tudo o que há de vago em teu olhar
É o que me afaga

...

IMPERMANÊNCIAS 60


Tudo



O que há de vasto em teu olhar
É que o que me basta

...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

IRIDESCÊNCIAS 5


Smoke on the water



(Continuação da série de posts “IRIDESCÊNCIAS”)


O jovem multimilionário Alberto Royal, seguindo seu caminho de peregrinação em busca da parte de sua alma que misteriosamente sumira, chegou, certo dia, à cidade de Nova Lanufla. Tinha ouvido falar do famoso guru Salib Babaji-Uhh e seus poderes de transubstanciação, obnubilação e comiseração iluminista.

Alberto Royal esperou, fleumático, que a longa fila de pobres diabos à sua frente se esgotasse. Não havia comido nada nos últimos dois dias porque o caviar que trouxera na mala não lhe parecia estar na temperatura adequada. Mas agüentava firme.

Depois de três dias, entrou no “asram” do guru e prostrou-se:

- Oh, mestre, tenho em minhas ricas contas bancárias bilhões de rúfios, mas um pedaço da minha alma se foi. O que faço?

- Meu filho. O guru tudo vê. Há um caminho para a sua salvação. Mas não é fácil. Você está disposto? – perguntou o ancião coçando a barba com a ponta do rolex.

- Sim, mestre.

- Você precisa se livrar do peso terível que o oprime. De todo esse dinheiro amaldiçoado. Dessa energia negativa.

- O que faço? - perguntou, Alberto Royal, com lágrimas brilhantes correndo por seus olhos cor de ouro

- Doe aos necessitados. A Fundação Anopheles Babaji-Uh-Hu cuidará do problema para você. Basta assinar este documento transferindo todos seus bens para nós.

- E então?

- Sua alma estará plena novamente, meu filho.


(Continua na série de posts “IRIDESCÊNCIAS”)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

IRIDESCÊNCIAS 4


See me, feel me...



(Continuação da série de posts “IRIDESCÊNCIAS”)


Depois de muito andar em sua peregrinação, Billy-Bobby, o Homem Invisível, chegou à Tubesville, a cidade com o maior número de televisores e revistas de fofoca em todo o mundo. Na entrada da cidade, viu um out-door anunciando os serviços do mega-consultor de imagem e marketing-espetacular-pessoal Carter Stonewater.

- Eu posso fazer você aparecer!! – dizia o cartaz. E Billy-Bobby achou que finalmente alguém poderia ajudá-lo a se curar da invisibilidade.

O personal image trainer recebeu Billy-Bobby em seu escritório:

- Sim. Nós podemos. Nós podemos melhorar a sua imagem, fazê-la ganhar musculatura, personalidade e sex-appeal. Temos frascos de frases feitas, caixas de estilos impactantes, pílulas de poses enigmáticas e pacotes e mais pacotes de expressões faciais inesquecíveis.

Billy-Bobby encheu-se de esperanças. Passou a contar ao especialista sobre todas as suas desaparecências e insignificâncias. Lembrou dos esforços para se tornar visível, colocando piercings, fazendo tatuagens, pintando o cabelo de fúcsia-escuro, comprando roupas da moda, arranjando um bronzeado incontestável, óculos escuros de griffe, operação plástica no nariz, hálito puro e o carro mais potente do mercado.

- Tudo isso vai mudar – profetizou Carter Stonewater.

- Mudar – repetiu Billy-Bobby batendo palmas – mudar...


(Continua na série de posts “IRIDESCÊNCIAS”)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

IRIDESCÊNCIAS 3


Horror ao espelho



(Continuação da série de posts “IRIDESCÊNCIAS”)

O caso de Pepita havia se dado de uma hora para outra. Foi numa tarde de sábado, no salão de beleza de dona Dolores Amparo, em Insolitópolis. Tinha chegado alguns minutos adiantada e sentou-se no sofá para ler revistas de moda e beleza.
Repentinamente, as revistas começaram a se mexer, levantaram da mesinha de centro, quase em fila indiana, e começaram a agredir Pepita. Desejavam soterrá-la - contou, mais tarde, aos incrédulos.
Dúzias de páginas com fotos de modelos, biquínis, penteados, exercícios e receitas para emagrecer vinham em sua direção, fustigando seu rosto e sua auto-estima impiedosamente. Pepita, moça de família, estudante e prendada à procura de um noivo, foi covardemente atacada sem poder se defender da avalanche de fotografias deslumbrantes que esgotavam seus sentidos, sua capacidade de discernimento e sua conta bancária.
Foi encontrada, mais tarde, perambulando pelas ruas sem saber direito o que havia acontecido. Sabia apenas de uma coisa: passara a ter verdadeiro pavor da própria imagem. Olhar-se no espelho e tirar fotografias passaram a ser atividades que lhe provocavam ataques selvagens de pânico e coceira.
Assim, Pepita decidiu partir em busca de uma solução para o seu problema, sem olhar para trás, sem levar espelho, estojo de maquiagem e nem mesmo um batonzinho.

(Continua na série de posts “IRIDESCÊNCIAS”)

domingo, 7 de dezembro de 2008

IRIDESCÊNCIAS 2



Um pedaço da alma



(Continuação da série de posts “IRIDESCÊNCIAS”)

Na grande megápole de Bizarrisburgo, vivia Alberto Royal, jovem herdeiro, magnata, dândi e gentleman de primeira linha. Certo dia, Alberto Royal acordou estranho. Sentiu que faltava algo. Abriu todos os 449 cofres de sua mansão de 800 opulentos quartos e 647 opulentos banheiros. Chamou seus 1.295 empregados e fez com eles uma completa varredura em todos os possíveis lugares de sua imensa propriedade.
Verificou que tudo estava em seu lugar. Nada faltava em seus amontoados astronômicos de riqueza quase incomensurável. Dormiu de novo e, pela manhã, mais uma vez, acordou sentindo que lhe faltava algo. Chamou seus consultores, seus médicos, modistas e alfaiates. Procurou corretores, analistas, vendedores, contadores, calculistas e banqueiros, mas ninguém – repito - ninguém, encontrou nada que lhe faltasse.
E, assim, com elegância e estoicismo, o empertigado jovem Alberto Royal deitou-se para dormir na terceira noite. Depois de um sono agitado, acordou pasmo e suado em seu leito de sedas e pedras preciosas. Descobrira o mistério: faltava-lhe um pedaço da alma. Como havia ido, quem o tinha levado e para qual paradeiro, não havia qualquer pista.
E como ele sabia que ninguém ali poderia ajudá-lo, partiu pelo mundo numa longa, nobre e valiosa jornada em busca da parte de sua alma que faltava.

(Continua na série de posts “IRIDESCÊNCIAS”)

sábado, 6 de dezembro de 2008

IRIDESCÊNCIAS 1



O Homem Invisível


(Primeira parte da série de posts “IRIDESCÊNCIAS”)

Não foi de uma só vez que Billy-Bobby descobriu que era invisível. Tudo aconteceu aos pouquinhos. Era quase ainda um bebê. Um dia, sua mãe não o ouvira. No outro, seu pai passara reto por ele.
E, naquele triste Natal, não ganhara o brinquedo que pedira. Mas, sua irmã, Jenniffer-Lee-Terezinha, recebera a mini-metralhadora que encomendara ao Papai Noel.
Depois veio aquela garota por quem Billy-Bobby era apaixonado na escola: Britney-Lou-Aparecida. Ela, em momento algum, o viu.
E Billy-Bobby foi desaparecendo aos poucos. Aos 35 anos, o problema atingiu o auge. Numa manhã fatídica, ao chegar ao escritório da NSPRC Company & Brothers Association, onde trabalhava, havia outro funcionário ocupando sua mesa. Voltou para casa e encontrou sua mulher, Pamela-Sue-Cremilda, com o marceneiro, na cama.
Ficou arrasado. Pediu ao Senhor Jesus que o ajudasse, mas o gerente da igreja disse que Ele estava muito ocupado naquele momento para atendê-lo (no fundo, Ele também não conseguia ver Billy-Bobby).
Procurou o prefeito de Ghrotesch Town City, o delegado, o deputado, o magistrado, o médico, o jardineiro, o veterinário, o boticário, o psiquiatra, o filósofo e o poeta, mas nenhum deles via cura para o seu caso.
Decidiu, então, sair pelo mundo à procura de algo ou alguém que o curasse dessa invisibilidade.

(Continua na série de posts “IRIDESCÊNCIAS”)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 21


Bips



(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)


Som de rufar de tambores. Metal raspando quando sai da bainha. Depois o zunido no ar. E o barulho seco do aço cravando-se na receptiva madeira.

Lúcia sente a faca entrar na tábua a alguns milímetros da pele do pescoço. Ela ouve um bip distante.

Os pelos da nuca se arrepiam e ela sente uma emoção diferente. Excitante como uma carícia. Como um lábio roçando docemente em seu pescoço nu.

Outra lâmina. Ela se crava ao lado da batata da perna esquerda. Muito perto. Arrepio em todo o corpo.

A mão firme de Dorival solta o aço no ar. Um fio invisível a conduz carinhosamente até ao lado da coxa direita de Lúcia. Bip.

Lúcia sua. Seu corpo passa a esperar languidamente cada um dos punhais que chegam pelo ar. Carinhos delicados.

Há um prazer indescritível em cada vez que a faca entra na madeira a poucos milímetros da sua pele.

Ondas de calor percorrem seu corpo. Bip. Arrepios de cima a abaixo na espinha. Respiração rápida.

Ela sente o punhal entrar na madeira entre o braço e a pele do seio direito. Uma área muito sensível.

Lúcia sente prazer como nunca na vida. A boca fica cheia de saliva e a vagina está quente e molhada. Seus quadris começam a tremer. Bip.

O momento mais grave. Dorival coloca a venda para a última faca. Lúcia sabe que ele ainda enxerga através do pano. Ela nem pensa. O público suspende a respiração.

A faca voa, pássaro selvagem domesticado pelos dedos seguros de Dorival. O aço vibra e canta. O pássaro pousa. A madeira denuncia o golpe.

O metal penetra a uma distância mínima do corpo de Lúcia, bem no meio das pernas. Lúcia estremece com o frenesi do gozo. Ela geme e suspira.

O auditório vai abaixo. Ovação. Aplausos. Gritos. Risos. Bip. Bip. Bip. As luzes giram. Ela vê um clarão.

Lúcia vê o sorriso de Dorival vindo em sua direção. Bip, bip, bip, bip. O clarão aumenta. Ela já não sente o corpo. Bip, bip, bip, bip, bip. O clarão é tanto que não há mais como ficar com os olhos abertos.

Bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip, bip. Ela ainda ouve a voz de Dorival dizendo: - Eu amo você. Bip.

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiip...

Os médicos retiram o aparelho de ressuscitação. O coração já não responde mais. Eles lamentam pela perda da mulher jovem que foi covardemente esfaqueada pelo marido.

Na parede, em frente à cama de Lúcia, uma gravura antiga de circo mostra palhaços, bailarinas, malabaristas e outros artistas. No centro da figura, uma jovem de olhos azuis sorri. Bip.


Fim (bip)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 20


Luzes


(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)


Cheiro de palha molhada. Cocô de cavalo. Suor. Pipoca. Roupa mofada. Algodão doce.


Lúcia assiste, um a um, todos os números do circo que antecedem o do atirador de facas.


Angústia. Malha apertada. Respiração curta. Coração acelerado. Vontade de fugir. Excitação.


Ela sente uma mistura de emoções que vão da alegria histérica ao início de um pânico profundo.


Palhaços. Risos. Contorcionistas. Aplausos. Bailarinas. Suspiros. Malabaristas. Apupos.


O anão Golia, com voz poderosa, anuncia o aterrorizante número de Dorival, O Atirador de Facas.


Lúcia ouve um bip distante e sente que chegou a hora de resolver tudo de uma vez por todas.


- É agora – pensa, seguindo Dorival ao picadeiro – o momento que eu mais temi e mais quis


(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)


segunda-feira, 24 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 19


Ruas



(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

- Então é assim? – perguntou Dorival.
Lúcia virou-se. Já estava parada ali há algum tempo. Olhava a rua. Fitava o que havia do outro lado.

Juntara suas poucas coisas. Uma pequena sacola. Roupas que ganhara de Diana. Sonhos. Lembranças.

Saíra do trailer. Meio da noite. Silêncio. Frio. Um mundo fechado. Angústia. Não o alívio que pensara.

- Você vai embora assim? Sem se despedir?

Os olhos azuis de Lúcia se apagam. Ela se sente sem forças para atravessar a rua. Mas não consegue ficar.
- Desculpe. Eu não sabia o que dizer - ela ouve um bip distante.
- Mas por que ir embora?
- Eu não consigo... – ela passa a mão pelo ventre.
- Acha que só você tem feridas?
- Você não perdeu a confiança em si mesmo?
- Não. Eu ainda acredito.
- Você não tem medo?
- Tenho. Mas, mesmo assim, vim aqui para pedir que você venha fazer o número comigo.
- Eu não posso.
- Tantas vezes eu morri. E tantas outras vidas eu ainda vou viver além desta. Mas é só nesta que há este circo, este picadeiro, estas facas, este eu e esta você. Também tenho minhas cicatrizes, mas quero viver o que tenho para viver aqui. Com você.
- Pensei em ir embora...
- Lá fora só há ilusão. O único mundo que existe é o circo. Venha comigo - estendeu a mão Dorival.
Lúcia parou um instante. Sentiu-se como o trapezista solto no ar que tem como único destino a mão do companheiro.
Apanhou a sacola. Respirou fundo. Enfrentou as alturas. E deixou para trás o outro lado da rua.

(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

domingo, 23 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 18



Águas



(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

Atrás da lona. Lúcia olha. Dorival atira facas. Celeste, a assistente, recebe os golpes à sua volta. Impassível.

As facas voam. Precisas. Desenham o contorno da moça. Cravam-se na taboa. Recortam o mundo à volta dela.

Lúcia treme. Primeiro, o barulho do metal deixando a bainha. Então, zunido no ar. Por fim, som seco na madeira.

Dorival nunca treme. Mão firme como aço de sabre. Olhar direto ao ponto. Nenhum desvio. Nenhuma dúvida.

Celeste confia nele. É sua irmã. Os dois fazem o número desde crianças. Nunca houve um erro. Até ali.

Dispersa. Ela tenta se concentrar. Pensa em Hélio. Marido doente. O cigarro comeu o pulmão. Disse o médico.

Ela faz o que não devia. Distrai-se. Move o corpo para a direita. Alguns centímetros. E a faca penetra o ombro.

Gritos. A luz se apaga por segundos. Acende de novo. Música. Palhaços. Bailarinas. Malabaristas. Cavalos.

Atrás da lona. Lúcia chora. Não presta atenção ao barulho de bip. Teimoso. As lágrimas não são por Celeste.

(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)