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quinta-feira, 20 de março de 2008

IMPERMANÊNCIAS 20-B



Comentários sobre o post

acerca de Bernard-Henri Levy

O post sobre a palestra de BHL (ver IMPERMANÊNCIAS 20) gerou vários comentários interessantes via e-mail. Reproduzo aqui os do professor Florisvaldo Mattos e de Ana Helena Lima Santana, que achei bastante interessantes e mordazes.

Florisvaldo Mattos

Prezado Gasino:
Saudações madrugadoras. Abri o seu bem inspirado blog e li o comentário que faz sobre a palestra do (porque não?) indefectível BHL num TCA surpreedentemente (para a ocasião e a programação) quase lotado. Corroboro com as suas observações na quase totalidade. Saí de lá com a sensação também de um vácuo, ou talvez de um "déjá-vu", uma patente obviedade, ressonância de tudo que representou a montanha de idéias encadeadas ao longo das sete últimas décadas do século 20, com fatos, correntes de idéias, movimentos, corriolas pensantes, personagens, que construíram a massa do pensamento ocidental bafejado pela França, a partir das ações, à direita e à esquerda, conjugadas ou não, de personalidades, não só como Sartre e Malraux, em certo sentido timoneiros, mas André Gide, Léon Blum, Picasso, Ilia Erhenburg, Aragon, Paul Éluard, Breton, Heidegger, e depois, o pessoal da Escola de Frankfurt (Adorno, Benjamim e Horkheimer à frente), que se tornaram o núcleo das idéias antitotalitaristas (nazi-fascismo, fascismo, comunismo à Stalin), que BHL citou como componentes do painel de suas influências primeiras, enveredando por Maio de 68, queda do Muro de Berlim (1989) e fim do comunismo na sua faceta pragmatista totalitária (URSS, China de Mao, Cuba de Fidel), por ele citados, explícita ou implicitamente; por fim, as atualidades.


Para mim também não trouxe novidades nem apontou para horizontes que deslindem os entraves e engolfamentos dos dias de hoje, os da plena ausência de utopias e, em troca, da presença de uma potência hegemônica em patente estado de queda e de diluição de valores apregoados como excelsitudes ao longo de dois séculos, decadência melancolicamente emoldurada de peripécias e delírios que são exemplos de má-conduta (guerras do Golfo, Afeganistão e Iraque, ingerências em realidades e inúmeras questões que pertencem a outros povos, pelo planeta, sem lhes apontar soluções), sob os olhos e as críticas inermes de uma Europa em franco declínio, apesar das magras cintilações de uma União Européia, até o momento conluio de impotências e cintilações frívolas de estrelismo, como a de BHL.

É para mim também um pop-star do pensamento ocidental, que mostra nada ter mais a dizer. Fui lá, por um cacoete de esperançosa atualização, mas de lá saí como se não tivesse ido. Corrijo: valeu para confirmar uma sensação de vazio que se patenteia e perdura hoje em quase tudo que representa cultura ocidental. E digo: não estou confiante no que virá de outros nomes do programa Fronteiras do Pensamento, à exceção talvez de Win Wenders e da africana, símbolo da mulher contestadora e enfrentadora de abismos. Luc Ferry é outro pop-star com excursão pela política e administração cultural com luz francesa. Christo é o símbolo da decadência das idéias no campo das artes plásticas que se expressa por uma das facetas mais incisivas da indústria cultural, o monumentalismo, disfarçado na máscara da originalidade, o que significa (para usar um conceito de Pound) diluição. Falam bem do psicanalista Charles Melman, mas, confesso, nunca li nada dele, nem até o momento me fez falta. Os músicos (Philip Glass e David Byrne), nada me falam, pois só dou bola para o Jazz.

Enfim, ouvimos um pop-star do pensamento ocidental, badaladíssimo, presença forte na mídia seletivista, pregador da eternização do capitalismo como sistema de idéias e poder e estilo de vida, e continuamos a pisar o chão da aridez, sem mesmo dele retirar as impurezas que as estéticas da modernidade, só para lembrar T. S. Eliot, e seguimos atravessando o deserto. Como vê, nossas observações sobre a exótica experiência parecem confluírem. Em tempo, finalizando: me candidato a freqüentador de seu blog. Um bom dia para você e um abraço. Florisvaldo.


ANA HELENA LIMA SANTANA

Que sucesso, hein!!!!
Porém devo expor meu ressentimento por você não ter citado alguma das nossas contribuições, a exemplo de:
- em Jequié, também testemunhamos um genocídio que marcou aquela cidade. O das piabas mortas quando da enchete do Rio de Contas em 1981! Foi um marco que a intelectualidade local retratou nos mais diversos veículos de comunicação. Opss: o jornal Sudoeste e a rádio 93FM!
- o equivalente à Revolução de Maio de 86 (viu que cabalístico o número - é 68 ao contrário!) nos colégios jequieenses. Dessa mobilização estudantil surgiu o emblemático nome de Dominguinhos para candidato a prefeito de Jequié pelo PC do B, que recebeu incontáveis 17 votos nas diversas eleições as quais candidatou-se.
E tem mais! Falta é tempo para contar.
beijos e boa páscoa.

terça-feira, 18 de março de 2008

IMPERMANÊNCIAS 20


Bernard-Henri Levy e

o intelectualismo dândi



Ontem à noite, na saída da palestra de Bernard-Henri Levy, conversei com Mariana, Simone, Josélia, Simanca, Tiago, Marta e Ana Helena. Acredito que havia algo em comum a todas as opiniões, ou seja, um certo sentimento de que faltou alguma coisa.

Na realidade, acho que a média das expectativas era grande demais e por mais que o palestrante demonstrasse seu notório saber, em nenhum momento aconteceu aquilo que todo mundo esperava: uma grande afirmação filosófica que mexesse com as nossas crenças pessoais, que nos colocasse de frente a uma interrogação nova e inquietante, que nos deixasse – como diz a sabedoria popular – com a pulga atrás da orelha.

Apresentado como o supra-sumo do pensamento francês da atualidade, BHL provou ser mesmo o grande filósofo pop-star. Um homem de mídia, um showman, um dândi que passeia sobre conceitos do pensamento francês do século passado, alimentando-se de nomes como Sartre e Malraux, aproveitando-se, ao mesmo tempo, apenas daquilo que lhe interessa.

A palestra de BHL passeou por temas que são hoje “standard” no pensamento mundial, criticando o totalitarismo e o nazismo, e também festejando a morte do já apodrecido comunismo. Num discurso surrado de direita, fez a sua elegia aos Estados Unidos – única coisa surpreendente, já que isso é raríssimo no pensamento francês (excetuando a histórica presença de Tocqueville, nome em que os defensores da globalização se apoiaram de forma comensal).

O que mais chama a atenção foi a falta de algo novo e talvez isso não seja mesmo culpa de BHL (nem da fraca tradução simultânea), mas da falta de originalidade do pensamento ocidental atual. Se, ao falar contra o totalitarismo, o filósofo francês entrasse na questão da indústria cultural, talvez trouxesse algo de quase novo. Talvez. Mas, nem isso.

De aproveitável, fica um dos pontos citados como o papel do intelectual na cidade: o de gerar a dúvida. Interessante. Nada de novo, mas interessante. E que dúvida BHL nos trouxe na palestra? Talvez a dúvida de que existe um novo pensamento, não cooptado pela indústria cultural, nem rançoso com o messianismo de uma esquerda que já feneceu diante da luz do sol.

Eu tenho verdadeira alergia daquelas resenhas à moda da Folha de São Paulo dos anos 80, escola de matinas Suzuki, onde a ordem era descer a lenha. Quanto mais ácida, irônica, destrutiva e cruel era a resenha, mais inteligente ela era considerada. Não se trata disso aqui. O problema das idéias de BHL foi realmente o nada de novo retumbante - sonolento – mesmo que dito com inteligência e proficiência.

A lição que fica, pelo menos para mim, é a do vácuo de idéias novas. Já que o neo-conservadorismo nada traz de realmente novo e nada propõe.

Por incrível que pareça, o melhor momento da palestra foi quando BHL falou do ateísmo de Sartre como “a grande aventura do homem moderno”. Mas não era BHL falando. Era o deus dele. O seu pai gerador. E o engraçado é que cinco minutos antes, ele dizia que reza todos os dias para que Barak Obama seja o novo presidente dos Estados Unidos.

Sobre a sua declaração de amor aos EUA, é óbvio que o Tio Sam é responsável por grandes avanços nas liberdades individuais e na luta pelos direitos humanos no nosso tempo. Mas tem muitas coisas despencando no Império Americano.

Não sou grande conhecedor dos Estados Unidos, Mas estive no interior dos EUA no ano passado e pude ver bandeiras confederadas e retratos do General Lee em restaurantes populares. BHL diz que a Ku Klux Klan acabou e que o racismo é coisa que não existe mais já há 30 anos. Mas como explicar, então, o caso Rodney King e as cadeias norte-americanas cheias de negros? Como explicar o que aconteceu em Nova Orleãs após o Katrina?

Talvez seja por esse vácuo do novo pensamento ocidental que novos cineastas, escritores e pensadores do Oriente e do Oriente Médio conquistaram admiradores nos últimos anos. Nomes como Wong Kar-Wai e Kiarostami. Mesmo tendo sido, em parte, cooptados pela indústria cultural.

Agora, de todos os pecados da palestra de BHL, dois eu não consigo perdoar. O primeiro foi o de fazer altos elogios aos pensadores brasileiros e de conseguir citar apenas Celso Furtado (com mérito) e não lembrar de um só escritor. E, pior, ao falar do argentino Jorge Luis Borges, dizer que ele não era um intelectual.

Óbvio que Borges não era um acadêmico, mas era sim um intelectual e que influenciou nomes como Umberto Eco e Italo Calvino. E, com certeza, a obra dele sobreviverá muitas décadas depois do nome de BHL não constar mais nem mesmo na Wikipedia.


Abaixo, vai uma foto que tirei nos EUA mostrando a bandeira confederada exposta num tradicional restaurante que serve o “barbecue”, em Columbia, na Carolina do Sul.