Phantasmagoria

(Continuação da série de posts Inventários)
- Quem é você? Perguntou Beth ao homem de terno branco sentado aos pés de sua cama.
- Você sabe quem eu sou. Tenho vários nomes, rostos e formas – Respondeu o homem, que aparentava meia-idade e tinha as pernas cruzadas mostrando o sapato branco brilhante. Se não estivesse tão assustada, Beth acharia aquilo francamente cafona.
- Isso é um sonho? Só pode ser. Eu não lhe conheço, meu senhor. O que o senhor está fazendo aqui? No meu quarto... Na minha cama...
- Eu teria várias respostas para essa sua pergunta, inclusive uma que questiona as suas noções de sonho e realidade, de sono e vigília, mas, por hora, vou deixar que você mesma decida isso.
- Olha, o senhor deve ser algum maluco que entrou aqui. Se pensa que estou com medo, não estou. Vou gritar e as minhas colegas que moram comigo vão vir correndo e vão chamar a polícia... É melhor o senhor ir embora correndo. Já.
- Eu não sou maluco, suas amigas não estão em casa e você não precisa ficar preocupada. Estou aqui apenas para me apresentar e colocar meus serviços à sua disposição.
- Como assim: à minha disposição. O que o senhor faz?
- Eu sou o Bibliotecário. Eu tenho todas as respostas do mundo. Você tem, nos últimos tempos, chamado por mim. Pois bem, agora eu estou aqui.
- Hahahahahahaha. Isso deve ser algum tipo de brincadeira. Ou eu comi alguma coisa estragada e estou tendo uma alucinação. Olha, vou fechar os olhos e dormir de novo e espero que você não esteja mais aí, porque eu vou gritar e gritar muito.
- Já disse que, no fundo, você sabe quem eu sou e foi você mesma quem me chamou. Estou aqui para ajudá-la. Não precisa ter medo. Você deve aproveitar essa oportunidade.
- Se você realmente tem a resposta pra tudo, me diga o que eu comi hoje de manhã quando acordei.
- Nada.
- Nada?
- Sim. Você acordou tarde e ficou sem comer até que saiu para almoçar.
- Isso pode ser só uma coincidência. Me diga, então, como era o nome do cachorrinho que eu tive quando era criança?
- Fred.
- E quanto é sete bilhões e novecentos e cinqüenta milhões vezes dois milhões e quinhentos e três mil?
- Dezenove quatrilhões, oitocentos e noventa e oito trilhões e oitocentos e cinqüenta bilhões.
- Peraí – Beth levantou e foi até o computador, abriu o programa de calculadora e fez a multiplicação. O resultado conferia.
- Isso deve ser um sonho mesmo. Só pode ser. Ou melhor, um pesadelo. Olha, melhor você ir embora, senão eu vou começar a chorar.
- Você não acha que já chorou demais ontem à noite.
- Ai, meu Deus. Você sabe de todas essas coisas mesmo?
- Sei sim.
Beth suspirou. Sentou-se novamente na cama e pôs se a pensar.
- Então quais são as respostas que você tem pra mim? Quais as respostas que eu preciso na minha vida?
- Ah, agora estamos chegando a algum lugar. Bom, a primeira coisa que eu devo lhe dizer é que, antes de conhecer a resposta, você precisa saber direito qual é a pergunta. Aí, você pode me chamar que eu virei para responder. Isso basta por hora. Agora feche os olhos, que eu já vou indo.
- Mas espere. Como é o nome do senhor? Como eu posso chamá-lo?
- Pode me chamar de João. Quando quiser falar comigo, bata três vezes o pé esquerdo no chão e chame pelo meu nome. Ah, e chega desse negócio de senhor. Eu não gosto disso, sabe? Confunde as coisas...
- Hã?
- Não esqueça da pergunta.
- Sim, sim, vou pensar, vou pensar.
- E feche os olhos...
- Certo, certo. Já fechei...
(Continua na série de posts Inventários)
PS.: Trecho do poema "Phantasmagoria" de Lewis Carroll
“The Third was written to protect
The interests of the Victim,
And tells us, as I recollect,
To treat him with a grave respect,
And not to contradict him.”
“That’s plain”, said I, “as Tare and Tret,
To any comprehension:
I only wish some Ghosts I’ve met
Would not so constantly forget
The maxim that you mention!”
“Perhaps”, he said, “you first transgressed
The laws of hospitality:
All Ghosts instinctively detest
The Man that fails to treat his guest
With proper cordiality.
“If you address a Ghost as ‘Thing!’
Or strike him with a hatchet,
He is permitted by the King
To drop all formal parleying
And then you’re sure to catch it!



