domingo, 10 de fevereiro de 2008

INVENTÁRIOS 8


Phantasmagoria



(Continuação da série de posts Inventários)

- Quem é você? Perguntou Beth ao homem de terno branco sentado aos pés de sua cama.
- Você sabe quem eu sou. Tenho vários nomes, rostos e formas – Respondeu o homem, que aparentava meia-idade e tinha as pernas cruzadas mostrando o sapato branco brilhante. Se não estivesse tão assustada, Beth acharia aquilo francamente cafona.
- Isso é um sonho? Só pode ser. Eu não lhe conheço, meu senhor. O que o senhor está fazendo aqui? No meu quarto... Na minha cama...
- Eu teria várias respostas para essa sua pergunta, inclusive uma que questiona as suas noções de sonho e realidade, de sono e vigília, mas, por hora, vou deixar que você mesma decida isso.
- Olha, o senhor deve ser algum maluco que entrou aqui. Se pensa que estou com medo, não estou. Vou gritar e as minhas colegas que moram comigo vão vir correndo e vão chamar a polícia... É melhor o senhor ir embora correndo. Já.
- Eu não sou maluco, suas amigas não estão em casa e você não precisa ficar preocupada. Estou aqui apenas para me apresentar e colocar meus serviços à sua disposição.
- Como assim: à minha disposição. O que o senhor faz?
- Eu sou o Bibliotecário. Eu tenho todas as respostas do mundo. Você tem, nos últimos tempos, chamado por mim. Pois bem, agora eu estou aqui.
- Hahahahahahaha. Isso deve ser algum tipo de brincadeira. Ou eu comi alguma coisa estragada e estou tendo uma alucinação. Olha, vou fechar os olhos e dormir de novo e espero que você não esteja mais aí, porque eu vou gritar e gritar muito.
- Já disse que, no fundo, você sabe quem eu sou e foi você mesma quem me chamou. Estou aqui para ajudá-la. Não precisa ter medo. Você deve aproveitar essa oportunidade.
- Se você realmente tem a resposta pra tudo, me diga o que eu comi hoje de manhã quando acordei.
- Nada.
- Nada?
- Sim. Você acordou tarde e ficou sem comer até que saiu para almoçar.
- Isso pode ser só uma coincidência. Me diga, então, como era o nome do cachorrinho que eu tive quando era criança?
- Fred.
- E quanto é sete bilhões e novecentos e cinqüenta milhões vezes dois milhões e quinhentos e três mil?
- Dezenove quatrilhões, oitocentos e noventa e oito trilhões e oitocentos e cinqüenta bilhões.
- Peraí – Beth levantou e foi até o computador, abriu o programa de calculadora e fez a multiplicação. O resultado conferia.
- Isso deve ser um sonho mesmo. Só pode ser. Ou melhor, um pesadelo. Olha, melhor você ir embora, senão eu vou começar a chorar.
- Você não acha que já chorou demais ontem à noite.
- Ai, meu Deus. Você sabe de todas essas coisas mesmo?
- Sei sim.
Beth suspirou. Sentou-se novamente na cama e pôs se a pensar.
- Então quais são as respostas que você tem pra mim? Quais as respostas que eu preciso na minha vida?
- Ah, agora estamos chegando a algum lugar. Bom, a primeira coisa que eu devo lhe dizer é que, antes de conhecer a resposta, você precisa saber direito qual é a pergunta. Aí, você pode me chamar que eu virei para responder. Isso basta por hora. Agora feche os olhos, que eu já vou indo.
- Mas espere. Como é o nome do senhor? Como eu posso chamá-lo?
- Pode me chamar de João. Quando quiser falar comigo, bata três vezes o pé esquerdo no chão e chame pelo meu nome. Ah, e chega desse negócio de senhor. Eu não gosto disso, sabe? Confunde as coisas...
- Hã?
- Não esqueça da pergunta.
- Sim, sim, vou pensar, vou pensar.
- E feche os olhos...
- Certo, certo. Já fechei...


(Continua na série de posts Inventários)

PS.: Trecho do poema "Phantasmagoria" de Lewis Carroll

“The Third was written to protect

The interests of the Victim,

And tells us, as I recollect,

To treat him with a grave respect,

And not to contradict him.”

“That’s plain”, said I, “as Tare and Tret,

To any comprehension:

I only wish some Ghosts I’ve met

Would not so constantly forget

The maxim that you mention!”

“Perhaps”, he said, “you first transgressed

The laws of hospitality:

All Ghosts instinctively detest

The Man that fails to treat his guest

With proper cordiality.

“If you address a Ghost as ‘Thing!’

Or strike him with a hatchet,

He is permitted by the King

To drop all formal parleying

And then you’re sure to catch it!

sábado, 9 de fevereiro de 2008

IMPERMANÊNCIAS 8


To be or not to be me

Eu já não sou mais aquele que eu nunca fui.
Já não mais serei aquele que poderia ter sido,
Se eu não fosse eu mesmo

Já não existe um eu,
Já não existe uma raiz,
Um lugar, uma alma,
Já não há um lar para mim
Dentro de mim mesmo
Estou fugindo,
Estou me desencontrando

To be or not to be me
Or you, or he, or she, or it
Or they, or everyfuckingbodyelse

That’s the question
But it’s not me, anyway

Wilson Gasino

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 8


Pós-Carnaval




Esta é uma das minhas tiras preferidas. Principalmente pelo nome do caranguejo.

Sempre fui fã de tiras, gosto de quase tudo, de Calvin a Mafalda, de Hagar às cobras do Veríssimo. Mas o que eu mais gosto mesmo é da fase brasileira dos anos 1980 e início dos 90, com Los Três Amigos Angeli, Glauco e Laerte e outras figuras como o Gonzales, Adão, Spacca et alii.

Não dá para deixar de citar também o mestre Ziraldo, com quem tive o prazer de tomar alguns porres quando trabalhava em Londrina. Uma referência como artista, como humorista, como escritor, como jornalista e como ser humano.

E não posso esquecer também dos colegas de A TARDE, Cau Gomez e Simanca. Talentosos, reconhecidos e duas figuras fantásticas. Também tive o prazer de tomar alguns porres com eles. São dois caras muito engraçados.


Cau e a Megasena
Uma das histórias mais engraçadas do jornal A TARDE é a de Cau Gomez e a Megasena. Parece coisa de comédia de cinema.
Aconteceu mais ou menos assim: Cau tinha jogado na Mega e não tinha conferido o resultado. O prêmio era dos gordos, acumulados. Aí ele passou numa casa lotérica e pegou um daqueles impressos com o resultado, que se parecem muito com o volante dos jogos.
Na hora em que ele foi conferir, não conseguia encontrar o volante do jogo. Procurou, procurou e acabou se confundindo e pegando o impresso com o resultado. Entrou na internet e pronto!!! Estava tudo lá: os seis números certinhos. Inacreditável.
Mineiro tranqüilo, Cau conseguiu conter a euforia e falou para alguns amigos e colegas mais próximos. Ligou para a namorada e pediu para ela largar tudo o que estava fazendo. Foram para casa e ele, depois de algum tempo fazendo suspense, contou a novidade. Comemoraram bastante, fizeram planos e gastaram alguns milhões mentalmente.
Passado algum tempo, a namorada quis dar uma conferida nos números, só para se certificar de que todo aquele sonho era realidade. Entrou na internet, olhou os números e realmente viu que eram os mesmos. Conferiu ainda uma vez mais e, de repente, notou alguma coisa estranha:
- Mas Cau, esse aqui não é volante de jogo, é de resultado...
Uma ducha de água fria e a sensação de alguns milhões de reais voando pela janela.
No dia seguinte, de manhãzinha, com a cabeça ainda latejando da ressaca dos sonhos que se desmancharam abruptamente no ar, Cau atende o telefone. Do outro lado da linha, Simanca, com aquele inconfundível sotaque cubano.
- Cau, o número da minha conta no banco é...


(Adendo: hoje, por sinal, é aniversário de Cau Gomez).

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

INVENTÁRIOS 7


Mirasmus




(Continuação – ver os outros posts da série Inventários)

Certa vez, Beth leu num livro que bebês privados de contato podem morrer de um mal denominado “mirasmus”. Eles precisam de cuidado, de carinho, de interação com outro ser para sobreviver.
Para estudar isso, uma experiência foi feita com macaquinhos recém-nascidos, que eram separados das mães. Os cientistas construíram dois tipos de simulacros de mães para os filhotes. O primeiro tipo era feito de arame, tendo uma mamadeira com leite embutida. O segundo era coberto de pele macia e quentinha, mas não tinha mamadeira.
O resultado é que os macaquinhos que ficavam com as “mães” peludas estavam mais felizes e saudáveis do que aqueles que permaneciam com as de arame frio. Depois de algum tempo, os macaquinhos foram, então, encaminhados para suas mães verdadeiras e os primeiros continuaram se desenvolvendo melhor do que os outros, que pareciam mais quietos e assustadiços.
A mãe de Beth, que se chamava Alma, teve depressão pós-parto quando ela nasceu. O tempo passou, a depressão também. Mas Alma continuou distante da filha de quem não escondia que ela era o fruto de uma gravidez indesejada. O tratamento talvez não magoasse tanto a Beth se ela não soubesse que poderia ser diferente, já que via os cuidados que a mãe tinha com o irmão mais velho, Ricardo.
O pai, Sérgio, era distante sempre. Distante da mulher e dos filhos. Passava o tempo todo preocupado com trabalho, dinheiro e com as amantes. Já adulta, Beth viu o filme “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” e se identificou muito com a garota. A única diferença é que nem quando ela ficava doente, seus pais lhe davam atenção. Ela lembrava da mãe a levando ao consultório médico sem trocar uma única palavra e depois a trazia para casa, dava remédio e a punha na cama.
Ela via o irmão chamar a atenção dos pais com suas exibições. Cantava, dançava, fazia palhaçadas, tirava notas excelentes, era bom esportista e muito obediente. Não sobrava muito espaço para Beth pedir atenção para ela.
Quando tinha uns seis anos, ela descobriu uma coisa que, bem ou mal, lhe abriu novas portas para o mundo. Foi quando quebrou um grande vaso de porcelana e a mãe lhe deu uma surra. Foi a primeira vez e doeu bastante. Mas aquela súbita atenção inesperada, aquela sensação de estar viva, de ser vista, de chamar a atenção do mundo, lhe trouxe um tipo de satisfação inédita.
Dias depois, testou o mesmo com seu pai, quebrando uma pequena estatueta que ficava na mesa do escritório dele em casa. Bingo! Funcionava. A partir daí, Beth passou a achar que ser agredida era um tipo de atenção, uma demonstração de preocupação, uma inequívoca manifestação de reconhecimento da importância da sua existência.

Ricardo
O primeiro namorado de verdade de Beth se chamava Ricardo, o mesmo nome de seu irmão. Ela tinha 14 anos e se apaixonou por ele por tudo aquilo que as garotas dessa idade procuram num menino: ele era popular, bonito, adorado pelas outras meninas e a tratava com certa indiferença.
Ricardo era dois anos mais velho e não tinha a mesma devoção que Beth tinha por ele. Certa vez, ele a deixou sozinha no cinema e foi embora com dois amigos, sem ao menos lhe avisar. Na escola, a deixava falando sozinha e chegou algumas vezes a ficar com outras garotas na frente de Beth.
Mas ela não ligava e ficava ainda mais apaixonada. Corria atrás dele, choramingava, implorava. Ele a mandava embora, debochava, chamava de burra e outras coisas piores. E ela lá, beijando os pés dele.
Certa vez, Ricardo, irritado porque outra garota havia lhe deixado esperando, deu um tapa no rosto de Beth. Ela chorou, mas acabou voltando a procurá-lo. A cena se repetiu várias vezes até que ele enjoou da brincadeira e a mandou embora “pra sempre” – como ele fez questão de deixar claro.
Beth chorou muito, mas depois de um tempo veio outro namorado. E outro, e mais outro. E todos a tratavam com desprezo e violência, numa repetição doentia do que ela vivia em casa. Foi só na época de faculdade que os olhos de Beth se abriram para esse ciclo de auto-flagelação. Ela conseguiu romper isso e mudar suas escolhas.
Não que ela tivesse encontrado então algo muito diferente do que tinha visto antes. Mas estava menos dependente de alguém em sua vida. Sua auto-estima crescente com o curso de psicologia e um círculo bacana de amigos fizeram-na esquecer por um bom tempo a procura pela tal alma gêmea que a tornaria tão feliz.
Ela acreditava que ainda não sabia o que era o amor. Mas já sabia que aquilo que ela experimentara até ali não era. - Talvez isso não exista mesmo – pensava. E levava sua vida assim.
Aprendeu na faculdade de psicologia que tudo o que os pais dizem – ou não dizem – fica gravado muito fundo nas crianças. Mas, já adultas, elas têm o poder de mudar isso, sozinhas ou com a ajuda de outras pessoas.
Ficou gravada em sua memória a história de uma colega de curso que era muito gordinha quando criança e todos a achavam linda. Era paparicada, beliscada e mimada o tempo todo pela família. Quando ficou moça, ainda era bem gordinha e todos – de repente – passaram a criticá-la e rejeitá-la.
Inconscientemente, ela não entendia muito bem essa mudança de opinião do mundo. Essa espécie de traição. E, sem conhecer outro caminho para conquistar a estima das outras pessoas, comia ainda mais, tentando encontrar em algum lugar perdido daquele caminho que percorrera, uma resposta para essa pergunta.

(Continua na série de posts Inventários)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 7


Carnavalium

Se eu dissesse que imaginava, estaria mentindo. Impossível imaginar. Por mais que a TV mostre, por mais que a gente leia sobre isso, por mais que os outros contem, é impossível antecipar o que é o Carnaval da Bahia.
Uma semana antes, e eu pensava em passar o Carnaval (peguei plantão sábado e domingo e folga segunda e terça no jornal) descansando, andando na praia e coisa e tal. Longe do verdadeiro caos que algumas pessoas me pintaram. Me disseram que era um verdadeiro inferno de violência e devassidão (sic), de onde, se você entrasse, só conseguiria sair de novo depois da quarta-feira de cinzas (se saísse).
Que nada. A cada dia aparecia alguém me convidando pra ir a algum lugar e acabei indo todos os dias para a folia, sem gastar quase nada. Do Palco do Rock, em Piatã, até o desfile de bonecões, no Pelourinho. Do show dos Miseravão, no Rio Vermelho, até a entrada triunfal de Ivetão, com o sol a pino, no Campo Grande. Do camarote chique (graças à super-Sônia supersônica), onde tinha uísque, rango caro e charuto de graça, até a pipoca apertada e suada do Crocodilo de Daniela Mercury, com muita mulher linda, na Barra.

Energia
É uma explosão de energia, de alegria e de beleza. Mesmo não sendo fã de axé, pulei até cansar atrás dos ídolos da massa, como Banda Eva, Babado Novo e Asa de Águia, e também de deuses sagrados da MPB, como Gilberto Gil e Jorge Benjor. Na mistura de ritmos, teve até Fatboy Slim puxa do a massa. E o que falar do Chiclete. Um fenômeno irracional. Uma coisa muito parecida com a torcida do Bahia. Quase um fanatismo religioso. Contagiante.

Pra quem quiser conferir fotos da folia, aqui vai o link da galeria do A TARDE Online. Um belo trabalho do pessoal do Online e um espetáculo o material feito pelo time de fotógrafos de A TARDE: http://www.atarde.com.br/carnaval/galeria/index.jsf

Lado B
Mas o melhor mesmo do Carnaval na Bahia é o que ele tem de mais popular. É a engraçadíssima e inteligente mudança do Garcia. É a beleza dos blocos afro como o Ilê e o Male. É o tapete dos Filhos de Gandhy. É a fubica de Armandinho fazendo duelo na guitarra baiana com Pepeu. E é o pessoal que trabalha de vendedor, garçom, faxineiro, cordeiro, segurança e catador de latinha largando tudo de lado pra dançar ao som do trio elétrico. É o mais puro e simples prazer. É a felicidade experimentada de forma direta, sensorial e sem restrições.
Uma coisa difícil, inicialmente, de ser entendida por um cara do Sul, cheio de travas, sinequanons e detalhes sobre a felicidade, aprendidos na educação católica e nas propagandas de margarina.

Segregação
O Carnaval tem, sim, muito de segregação. Tem as castas, cordas separatórias, camarotes e abadás. Tem o lado feio da exploração de uma festa pública para o lucro de uns poucos e o desfile dos políticos. Tem o massacre da mídia eletrônica promovendo seus queridinhos e a violência em todas as suas formas que, apesar da beleza da festa, toma seu lugar no preconceito, nas brigas, no crime e na rapinagem.

Iloma e a cobra
Mas o Carnaval também rende boas histórias. Uma das mais engraçadas que ouvi, é de Iloma Sales, colega de jornal A TARDE. Há uns anos atrás, ela, que é uma pessoa muito doce, inteligente e adora uma festa, saiu fantasiada de cobra no Carnaval. Deixou o carro estacionado numa das ruas laterais da Barra e lá se foi pra folia.
Já de manhã, cansada da farra, foi procurar o carro. Qual nada. Tinha sido rebocado pela SET.
Lá foi ela, então, vestida de cobra, suada, despenteada e com os pés enlameados, reclamar o carro na SET. Os funcionários não queriam liberar e Iloma teve que ligar pro jornal pedindo uma intervenção junto à SET, pra ver se davam um “jeitinho”. Por fim, de má vontade, os funcionários tiveram que liberar o carro para aquela “sucuri descabelada”, que pôde, então, finalmente, encerrar a noite de folia. Depois de um pequeno “carteiraço”. Ossos do ofídio, digo, do ofício. (trocadilho horrível)

Mas agora chega de escrever, porque hoje é a última noite de Carnaval e ainda tem uma reservazinha de energia pra gastar. Acho que a partir da quarta-feira de cinzas (amanhã), eu não vou querer ouvir axé por um ano.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

IMPERMANÊNCIAS 7


Silêncio

Silêncio
Doce silêncio
Sem peso
Só o sopro
Do todo tênue
Teu corpo

Incêndio
Lento e calmo
Preguiçoso
Promissor
E dócil incêndio
Da alma

Desejo
Manso desejo
Adormece
Música clara
Qual sonho
Todo meu Ser

Silêncio...

Wilson Gasino

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

INVENTÁRIOS 6


This time will pass


(Continuação – ver os outros posts da série Inventários)




Ismael Devanir ismaeldeva@gmail.com for bethfuoco@gmail.com subject: Até onde


Beth, minha querida Beth,

Hoje faz cinco anos, 11 meses de 18 dias que estamos juntos.
Olho pra trás e vejo que chegamos tão longe, que fomos tão alto e vivemos tantas coisas nesse tempo, como, talvez, nunca tínhamos imaginado.
Então, eu penso, como ficamos assim?
Como ficamos tão próximos que não olhamos mais um para o outro como se fosse outra pessoa?
Lembro da noite em que te conheci.
Como rimos, como falamos durante horas sem parar e sem sentir o tempo passar.
E as coisas aconteceram com tanta rapidez e tanta facilidade, como se fosse assim mesmo que tivesse que acontecer, e não de outra forma.
Ninguém nos disse nada. Ninguém nos guiou nessa estrada.
E chegamos até aqui.
Mas ninguém também nos avisou que a gente poderia se perder assim.
Ninguém nos ensinou como fazer melhor as coisas.

Antes de te conhecer, as pessoas me diziam que o amor deveria ser um porto seguro. Um lugar pra se abrigar das tormentas do oceano, um lugar de repouso e paz.
Mas eu achava isso muito pouco.
E eu descobri com você que o amor pode ser um navio pra viajar, pra correr o mundo, vendo tudo, conhecendo, explorando, desvendando, descobrindo, aprendendo, crescendo...
E nós crescemos tanto, meu amor.
Com você, descobri continentes no próprio mundo, desvendei mistérios dentro de mim mesmo, ultrapassei os limites da minha vida até então restrita.

Acordei hoje lembrando daquela vez em que nos perdemos na Chapada e ficou tarde e escuro e não sabíamos mais como voltar até onde tínhamos deixado o carro.
Primeiro você ficou apavorada, e eu estava calmo.
Depois, você se acalmou e eu fiquei preocupado até não poder mais. Me sentia responsável por você. Tinha medo e não sabia como proteger você.
Aí você me abraçou e disse que tudo ia ficar bem.
Tinha uma lua brilhante no céu. Crescente, acho eu. E andamos durante horas, indo e voltando ao mesmo lugar.

Resolvemos, então, parar e dormir um pouco perto de umas pedras grandes.
Eu estava em pânico, com vontade de chorar.
E você começou a cantar uma música pra me acalmar.
Você lembra? Era Stuck in a Moment, do U2.

"You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment and now you can't get out of it
Don't say that later will be better now you're stuck in a moment
And you can't get out of it"

E você me abraçou e me beijou lenta e carinhosamente.

"I will not forsake, the colours that you bring
But the nights you filled with fireworks
They left you with nothing
I am still enchanted by the light you brought to me
I still listen through your ears, and through your eyes I can see"

E me contou das noites que passou sozinha e no escuro, pedindo à vida que te trouxese alguém como eu, que te ajudasse a enxergar o teu próprio caminho.

"And you are such a fool
To worry like you do
I know it's tough, and you can never get enough
Of what you don't really need now... my oh my"

E me contou das vezes em que chorou sem mesmo saber porque, sentindo que tudo no mundo era tão distante a ponto de ser intocável.

"You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment and now you can't get out of it
Oh love look at you now
You've got yourself stuck in a moment and now you can't get out of it"

Me falou do quanto queria se sentir livre como naquele momento. Livre pra se perder e livre pra se encontrar quando quisesse.

"I was unconscious, half asleep
The water is warm till you discover how deep...
I wasn't jumping... for me it was a fall
It's a long way down to nothing at all"

Tua mão nos meus cabelos me fazia sentir como uma criança e eu descobri que poderia ser homem, ser forte e ser frágil ao mesmo tempo, com você.

"You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment and now you can't get out of it
Don't say that later will be better now
You're stuck in a moment and you can't get out of it"

E você me disse que poder cuidar de mim te fazia se sentir mais forte a ponto de esquecer o próprio medo. E eu descobri o quanto você era generosa e doce e você parecia enorme naquele momento pra mim.

"And if the night runs over
And if the day won't last
And if our way should falter
Along the stony pass"

E eu, sem a mínima razão, comecei a chorar e rir ao mesmo tempo. Senti um vazio embaixo de mim como se eu estivesse me lançando de um avião debaixo de mim. E o mundo inteiro se abria pra mim. Eu não tinha amarras, não tinha onde me segurar, não tinha como controlar a situação. E eu não queria mais esse controle. Só queria me soltar nos teus braços e deixar que a vida nos levasse onde quer que fosse. Pela primeira vez, desde que eu era um bebezinho, eu me entreguei assim. Pela primeira vez eu não me preocupava com nada mais que pudesse acontecer. Só queria deixar que a tua respiração me ditasse o ritmo em que o meu coração devia bater. E nós fizemos amor ali mesmo, de uma forma diferente de todas que fizéramos antes.

"And if the night runs over
And if the day won't last
And if your way should falter
Along the stony pass
It's just a moment
This time will pass"

No dia seguinte, acordamos com o sol e acabamos encontrando o carro.
E o tempo passou. E agora, eu já não sei como deixar essas e outras tantas lembranças pra trás.
Não quero que a gente continue se magoando do jeito que está, mas quero tentar de novo encontrar esse sentimento puro que tivemos.
Quero uma chance pra nós.
Quero me perder de novo com você.
É isso.
Não me deixe aqui sozinho esperando.
Do sempre seu,

Ismael

"It's just a moment
This time will pass"

Responder Encaminhar

(Continua – ver os outros posts da série Inventários)