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terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 7


Carnavalium

Se eu dissesse que imaginava, estaria mentindo. Impossível imaginar. Por mais que a TV mostre, por mais que a gente leia sobre isso, por mais que os outros contem, é impossível antecipar o que é o Carnaval da Bahia.
Uma semana antes, e eu pensava em passar o Carnaval (peguei plantão sábado e domingo e folga segunda e terça no jornal) descansando, andando na praia e coisa e tal. Longe do verdadeiro caos que algumas pessoas me pintaram. Me disseram que era um verdadeiro inferno de violência e devassidão (sic), de onde, se você entrasse, só conseguiria sair de novo depois da quarta-feira de cinzas (se saísse).
Que nada. A cada dia aparecia alguém me convidando pra ir a algum lugar e acabei indo todos os dias para a folia, sem gastar quase nada. Do Palco do Rock, em Piatã, até o desfile de bonecões, no Pelourinho. Do show dos Miseravão, no Rio Vermelho, até a entrada triunfal de Ivetão, com o sol a pino, no Campo Grande. Do camarote chique (graças à super-Sônia supersônica), onde tinha uísque, rango caro e charuto de graça, até a pipoca apertada e suada do Crocodilo de Daniela Mercury, com muita mulher linda, na Barra.

Energia
É uma explosão de energia, de alegria e de beleza. Mesmo não sendo fã de axé, pulei até cansar atrás dos ídolos da massa, como Banda Eva, Babado Novo e Asa de Águia, e também de deuses sagrados da MPB, como Gilberto Gil e Jorge Benjor. Na mistura de ritmos, teve até Fatboy Slim puxa do a massa. E o que falar do Chiclete. Um fenômeno irracional. Uma coisa muito parecida com a torcida do Bahia. Quase um fanatismo religioso. Contagiante.

Pra quem quiser conferir fotos da folia, aqui vai o link da galeria do A TARDE Online. Um belo trabalho do pessoal do Online e um espetáculo o material feito pelo time de fotógrafos de A TARDE: http://www.atarde.com.br/carnaval/galeria/index.jsf

Lado B
Mas o melhor mesmo do Carnaval na Bahia é o que ele tem de mais popular. É a engraçadíssima e inteligente mudança do Garcia. É a beleza dos blocos afro como o Ilê e o Male. É o tapete dos Filhos de Gandhy. É a fubica de Armandinho fazendo duelo na guitarra baiana com Pepeu. E é o pessoal que trabalha de vendedor, garçom, faxineiro, cordeiro, segurança e catador de latinha largando tudo de lado pra dançar ao som do trio elétrico. É o mais puro e simples prazer. É a felicidade experimentada de forma direta, sensorial e sem restrições.
Uma coisa difícil, inicialmente, de ser entendida por um cara do Sul, cheio de travas, sinequanons e detalhes sobre a felicidade, aprendidos na educação católica e nas propagandas de margarina.

Segregação
O Carnaval tem, sim, muito de segregação. Tem as castas, cordas separatórias, camarotes e abadás. Tem o lado feio da exploração de uma festa pública para o lucro de uns poucos e o desfile dos políticos. Tem o massacre da mídia eletrônica promovendo seus queridinhos e a violência em todas as suas formas que, apesar da beleza da festa, toma seu lugar no preconceito, nas brigas, no crime e na rapinagem.

Iloma e a cobra
Mas o Carnaval também rende boas histórias. Uma das mais engraçadas que ouvi, é de Iloma Sales, colega de jornal A TARDE. Há uns anos atrás, ela, que é uma pessoa muito doce, inteligente e adora uma festa, saiu fantasiada de cobra no Carnaval. Deixou o carro estacionado numa das ruas laterais da Barra e lá se foi pra folia.
Já de manhã, cansada da farra, foi procurar o carro. Qual nada. Tinha sido rebocado pela SET.
Lá foi ela, então, vestida de cobra, suada, despenteada e com os pés enlameados, reclamar o carro na SET. Os funcionários não queriam liberar e Iloma teve que ligar pro jornal pedindo uma intervenção junto à SET, pra ver se davam um “jeitinho”. Por fim, de má vontade, os funcionários tiveram que liberar o carro para aquela “sucuri descabelada”, que pôde, então, finalmente, encerrar a noite de folia. Depois de um pequeno “carteiraço”. Ossos do ofídio, digo, do ofício. (trocadilho horrível)

Mas agora chega de escrever, porque hoje é a última noite de Carnaval e ainda tem uma reservazinha de energia pra gastar. Acho que a partir da quarta-feira de cinzas (amanhã), eu não vou querer ouvir axé por um ano.