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domingo, 22 de junho de 2008

INVENTÁRIOS 39



Running to stand still




(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")


Beth olhou no espelho. Olhos vermelhos. Olhos pequenos. Rosto cansado. Perguntas...
Difícil reconhecer que o cinismo, que tanto a ajudara a se defender dos golpes da vida, agora não poderia protegê-la.
Vontade de nada. Nenhuma música. Nenhuma posição na cadeira. Sem fome. Sem capacidade de reação. Lembrou do conselho de uma amiga:
- Quando a gente não sabe o que fazer, então é melhor não fazer nada.
Remexeu os CDs, tirando um a um da estante, mas não achou nenhum que quisesse ouvir. Olhou os arquivos de música no computador: nenhuma que prestasse naquela hora.
Pensou em algo, talvez dos anos 80. Lembrou do comentário de outra amiga, dizendo que a década pós virada do milênio glorificava os anos 80 e rejeitava os 90. Assim como, nos anos 90, todo mundo cultivava os 70 e torcia o nariz para os 80. E assim por diante.
Uma música. Sim, uma música dos anos 80. Procurou. Queria ouvir essa. Dos anos 80. E ouviu algumas dezenas de vezes sem parar naquela noite. "She's running to stand still". U2.


Running to Stand Still

And so she woke up
Woke up from where she was
Lying still
Said I gotta do something
About where we're going

Step on a steam train
Step out of the driving rain, maybe
Run from the darkness in the night
Singing ha, ha la la la de day
Ha la la la de day
Ha la la de day

Sweet the sin
Bitter the taste in my mouth
I see seven towers
But I only see one way out
You got to cry without weeping
Talk without speaking
Scream without raising your voice

You know I took the poison
From the poison stream
Then I floated out of here
Singing...ha la la la de day
Ha la la la de day
Ha la la de day

She runs through the streets
With her eyes painted red
Under black belly of cloud in the rain
In through a doorway she brings me
White gold and pearls stolen from the sea
She is raging
She is raging
And the storm blows up in her eyes

She will...
Suffer the needle chill
She's running to stand...
Still


(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS")

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

INVENTÁRIOS 6


This time will pass


(Continuação – ver os outros posts da série Inventários)




Ismael Devanir ismaeldeva@gmail.com for bethfuoco@gmail.com subject: Até onde


Beth, minha querida Beth,

Hoje faz cinco anos, 11 meses de 18 dias que estamos juntos.
Olho pra trás e vejo que chegamos tão longe, que fomos tão alto e vivemos tantas coisas nesse tempo, como, talvez, nunca tínhamos imaginado.
Então, eu penso, como ficamos assim?
Como ficamos tão próximos que não olhamos mais um para o outro como se fosse outra pessoa?
Lembro da noite em que te conheci.
Como rimos, como falamos durante horas sem parar e sem sentir o tempo passar.
E as coisas aconteceram com tanta rapidez e tanta facilidade, como se fosse assim mesmo que tivesse que acontecer, e não de outra forma.
Ninguém nos disse nada. Ninguém nos guiou nessa estrada.
E chegamos até aqui.
Mas ninguém também nos avisou que a gente poderia se perder assim.
Ninguém nos ensinou como fazer melhor as coisas.

Antes de te conhecer, as pessoas me diziam que o amor deveria ser um porto seguro. Um lugar pra se abrigar das tormentas do oceano, um lugar de repouso e paz.
Mas eu achava isso muito pouco.
E eu descobri com você que o amor pode ser um navio pra viajar, pra correr o mundo, vendo tudo, conhecendo, explorando, desvendando, descobrindo, aprendendo, crescendo...
E nós crescemos tanto, meu amor.
Com você, descobri continentes no próprio mundo, desvendei mistérios dentro de mim mesmo, ultrapassei os limites da minha vida até então restrita.

Acordei hoje lembrando daquela vez em que nos perdemos na Chapada e ficou tarde e escuro e não sabíamos mais como voltar até onde tínhamos deixado o carro.
Primeiro você ficou apavorada, e eu estava calmo.
Depois, você se acalmou e eu fiquei preocupado até não poder mais. Me sentia responsável por você. Tinha medo e não sabia como proteger você.
Aí você me abraçou e disse que tudo ia ficar bem.
Tinha uma lua brilhante no céu. Crescente, acho eu. E andamos durante horas, indo e voltando ao mesmo lugar.

Resolvemos, então, parar e dormir um pouco perto de umas pedras grandes.
Eu estava em pânico, com vontade de chorar.
E você começou a cantar uma música pra me acalmar.
Você lembra? Era Stuck in a Moment, do U2.

"You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment and now you can't get out of it
Don't say that later will be better now you're stuck in a moment
And you can't get out of it"

E você me abraçou e me beijou lenta e carinhosamente.

"I will not forsake, the colours that you bring
But the nights you filled with fireworks
They left you with nothing
I am still enchanted by the light you brought to me
I still listen through your ears, and through your eyes I can see"

E me contou das noites que passou sozinha e no escuro, pedindo à vida que te trouxese alguém como eu, que te ajudasse a enxergar o teu próprio caminho.

"And you are such a fool
To worry like you do
I know it's tough, and you can never get enough
Of what you don't really need now... my oh my"

E me contou das vezes em que chorou sem mesmo saber porque, sentindo que tudo no mundo era tão distante a ponto de ser intocável.

"You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment and now you can't get out of it
Oh love look at you now
You've got yourself stuck in a moment and now you can't get out of it"

Me falou do quanto queria se sentir livre como naquele momento. Livre pra se perder e livre pra se encontrar quando quisesse.

"I was unconscious, half asleep
The water is warm till you discover how deep...
I wasn't jumping... for me it was a fall
It's a long way down to nothing at all"

Tua mão nos meus cabelos me fazia sentir como uma criança e eu descobri que poderia ser homem, ser forte e ser frágil ao mesmo tempo, com você.

"You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment and now you can't get out of it
Don't say that later will be better now
You're stuck in a moment and you can't get out of it"

E você me disse que poder cuidar de mim te fazia se sentir mais forte a ponto de esquecer o próprio medo. E eu descobri o quanto você era generosa e doce e você parecia enorme naquele momento pra mim.

"And if the night runs over
And if the day won't last
And if our way should falter
Along the stony pass"

E eu, sem a mínima razão, comecei a chorar e rir ao mesmo tempo. Senti um vazio embaixo de mim como se eu estivesse me lançando de um avião debaixo de mim. E o mundo inteiro se abria pra mim. Eu não tinha amarras, não tinha onde me segurar, não tinha como controlar a situação. E eu não queria mais esse controle. Só queria me soltar nos teus braços e deixar que a vida nos levasse onde quer que fosse. Pela primeira vez, desde que eu era um bebezinho, eu me entreguei assim. Pela primeira vez eu não me preocupava com nada mais que pudesse acontecer. Só queria deixar que a tua respiração me ditasse o ritmo em que o meu coração devia bater. E nós fizemos amor ali mesmo, de uma forma diferente de todas que fizéramos antes.

"And if the night runs over
And if the day won't last
And if your way should falter
Along the stony pass
It's just a moment
This time will pass"

No dia seguinte, acordamos com o sol e acabamos encontrando o carro.
E o tempo passou. E agora, eu já não sei como deixar essas e outras tantas lembranças pra trás.
Não quero que a gente continue se magoando do jeito que está, mas quero tentar de novo encontrar esse sentimento puro que tivemos.
Quero uma chance pra nós.
Quero me perder de novo com você.
É isso.
Não me deixe aqui sozinho esperando.
Do sempre seu,

Ismael

"It's just a moment
This time will pass"

Responder Encaminhar

(Continua – ver os outros posts da série Inventários)