Mirasmus

(Continuação – ver os outros posts da série Inventários)
Certa vez, Beth leu num livro que bebês privados de contato podem morrer de um mal denominado “mirasmus”. Eles precisam de cuidado, de carinho, de interação com outro ser para sobreviver.
Para estudar isso, uma experiência foi feita com macaquinhos recém-nascidos, que eram separados das mães. Os cientistas construíram dois tipos de simulacros de mães para os filhotes. O primeiro tipo era feito de arame, tendo uma mamadeira com leite embutida. O segundo era coberto de pele macia e quentinha, mas não tinha mamadeira.
O resultado é que os macaquinhos que ficavam com as “mães” peludas estavam mais felizes e saudáveis do que aqueles que permaneciam com as de arame frio. Depois de algum tempo, os macaquinhos foram, então, encaminhados para suas mães verdadeiras e os primeiros continuaram se desenvolvendo melhor do que os outros, que pareciam mais quietos e assustadiços.
A mãe de Beth, que se chamava Alma, teve depressão pós-parto quando ela nasceu. O tempo passou, a depressão também. Mas Alma continuou distante da filha de quem não escondia que ela era o fruto de uma gravidez indesejada. O tratamento talvez não magoasse tanto a Beth se ela não soubesse que poderia ser diferente, já que via os cuidados que a mãe tinha com o irmão mais velho, Ricardo.
O pai, Sérgio, era distante sempre. Distante da mulher e dos filhos. Passava o tempo todo preocupado com trabalho, dinheiro e com as amantes. Já adulta, Beth viu o filme “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” e se identificou muito com a garota. A única diferença é que nem quando ela ficava doente, seus pais lhe davam atenção. Ela lembrava da mãe a levando ao consultório médico sem trocar uma única palavra e depois a trazia para casa, dava remédio e a punha na cama.
Ela via o irmão chamar a atenção dos pais com suas exibições. Cantava, dançava, fazia palhaçadas, tirava notas excelentes, era bom esportista e muito obediente. Não sobrava muito espaço para Beth pedir atenção para ela.
Quando tinha uns seis anos, ela descobriu uma coisa que, bem ou mal, lhe abriu novas portas para o mundo. Foi quando quebrou um grande vaso de porcelana e a mãe lhe deu uma surra. Foi a primeira vez e doeu bastante. Mas aquela súbita atenção inesperada, aquela sensação de estar viva, de ser vista, de chamar a atenção do mundo, lhe trouxe um tipo de satisfação inédita.
Dias depois, testou o mesmo com seu pai, quebrando uma pequena estatueta que ficava na mesa do escritório dele em casa. Bingo! Funcionava. A partir daí, Beth passou a achar que ser agredida era um tipo de atenção, uma demonstração de preocupação, uma inequívoca manifestação de reconhecimento da importância da sua existência.
Ricardo
O primeiro namorado de verdade de Beth se chamava Ricardo, o mesmo nome de seu irmão. Ela tinha 14 anos e se apaixonou por ele por tudo aquilo que as garotas dessa idade procuram num menino: ele era popular, bonito, adorado pelas outras meninas e a tratava com certa indiferença.
Ricardo era dois anos mais velho e não tinha a mesma devoção que Beth tinha por ele. Certa vez, ele a deixou sozinha no cinema e foi embora com dois amigos, sem ao menos lhe avisar. Na escola, a deixava falando sozinha e chegou algumas vezes a ficar com outras garotas na frente de Beth.
Mas ela não ligava e ficava ainda mais apaixonada. Corria atrás dele, choramingava, implorava. Ele a mandava embora, debochava, chamava de burra e outras coisas piores. E ela lá, beijando os pés dele.
Certa vez, Ricardo, irritado porque outra garota havia lhe deixado esperando, deu um tapa no rosto de Beth. Ela chorou, mas acabou voltando a procurá-lo. A cena se repetiu várias vezes até que ele enjoou da brincadeira e a mandou embora “pra sempre” – como ele fez questão de deixar claro.
Beth chorou muito, mas depois de um tempo veio outro namorado. E outro, e mais outro. E todos a tratavam com desprezo e violência, numa repetição doentia do que ela vivia em casa. Foi só na época de faculdade que os olhos de Beth se abriram para esse ciclo de auto-flagelação. Ela conseguiu romper isso e mudar suas escolhas.
Não que ela tivesse encontrado então algo muito diferente do que tinha visto antes. Mas estava menos dependente de alguém em sua vida. Sua auto-estima crescente com o curso de psicologia e um círculo bacana de amigos fizeram-na esquecer por um bom tempo a procura pela tal alma gêmea que a tornaria tão feliz.
Ela acreditava que ainda não sabia o que era o amor. Mas já sabia que aquilo que ela experimentara até ali não era. - Talvez isso não exista mesmo – pensava. E levava sua vida assim.
Aprendeu na faculdade de psicologia que tudo o que os pais dizem – ou não dizem – fica gravado muito fundo nas crianças. Mas, já adultas, elas têm o poder de mudar isso, sozinhas ou com a ajuda de outras pessoas.
Ficou gravada em sua memória a história de uma colega de curso que era muito gordinha quando criança e todos a achavam linda. Era paparicada, beliscada e mimada o tempo todo pela família. Quando ficou moça, ainda era bem gordinha e todos – de repente – passaram a criticá-la e rejeitá-la.
Inconscientemente, ela não entendia muito bem essa mudança de opinião do mundo. Essa espécie de traição. E, sem conhecer outro caminho para conquistar a estima das outras pessoas, comia ainda mais, tentando encontrar em algum lugar perdido daquele caminho que percorrera, uma resposta para essa pergunta.
(Continua na série de posts Inventários)
