sexta-feira, 30 de maio de 2008

IMPERTINÊNCIAS 36



Holofernes e João Batista




O Erotismo na Arte do Século 20 foi o tema escolhido por Camille Paglia para a palestra realizada em Salvador, no TCA, na última quarta-feira. Bem interessante, embora, talvez, o formato escolhido pela autora tenha sido equivocado e extenso demais para um evento num teatro. Mesmo assim, deixou reflexões importantes sobre a forma como o erotismo foi retratado no século passado, período de intensas reformulações na relação do ser humano com a imagem.

Começou com o quadro “Danaë”, de Gustav Klimt, mostrando a mulher sensual e inacessível, imagem que, segundo a escritora pós-feminista, fascina os homens através dos tempos. Danaë, do mito grego, vive trancada numa torre para preservar sua “pureza”, mas isso não impede o olímpico Zeus de “possuí-la” transformando-se numa chuva de ouro. Metáfora desse voyeurismo masculino, da ânsia do olhar, da vontade de retratar como forma de possuir, de controlar.

Em sua exposição, Camille Paglia passeou por imagens de mulheres inatingíveis, calipígeas, voluptuosas, misteriosas e até cruéis, indo de vaginas dentatas a cortadoras de cabeças bíblicas como Judith e Salomé. Sempre baseando-se na fixação do homem por essas imagens, mostrou mais de 60 imagens. Muitas delas óbvias, bastante conhecidas e dissecadas pelos estudiosos da arte.

Mas foi interessante ver a evolução da forma de representação do erótico, que começa o Século 20 marcada pelo nu feminino e termina com o forte apelo da androginia. Fica clara também a transferência de parte do poder de representação e definição de mundo das mãos dos homens para as das mulheres. Muda, pelo menos em parte, essa forma de controle e são abertas novas possibilidades.

O quadro de Frida Kahlo “O Abraço Amoroso entre o Universo, a Terra (México), Eu, o Diego e o Señor Xólotl” mostra um pouco dessa mudança de mãos do poder. A chegada ao ponto de inflexão, segundo Paglia, estaria patente na tela “Portrait de Madame Allan Bott”, de Tâmara de Lempicka, com seu glamour e art nouveau. E, para mostrar a maior abertura na forma do olhar o erótico, Camille Paglia termina o Século 20 apresentando fotos de Helmut Newton.

Nas questões finais da platéia, a escritora se soltou um pouco do esquema quadrado da apresentação e falou sobre a discussão de papéis mais atuais. Camille Paglia concorda com a opinião dominante de que os homens estão confusos e que as mulheres não sabem muito bem o que querem porque conquistaram junto com os merecidos direitos algumas coisas que não desejavam do mundo masculino, como a competição desenfreada. De qualquer forma, ela emendou que mesmo Freud tentou explicar alma feminina e não conseguiu.

Concordo com ela (e com Freud). Estou lendo um livro chamado “Mulheres que Correm com os Lobos”, que Andréa Lemos me emprestou. A autora, Clarissa Pinkola Estés, tenta explicar as várias dimensões da alma feminina através dos mitos adultos ou infantis que falam sobre a mulher selvagem.

É bem interessante. Mas, para mim, que convivo com esse universo desde minha mãe, avós, irmãs, professoras, ex-mulher, filha, ex-namoradas, colegas de trabalho e tantas amigas, ainda é algo muito misterioso o mundo profundo e complexo da alma feminina. Seguindo a tese de Camille Paglia, a arte talvez seja um dos melhores caminhos para tentar compreende-lo um pouco mais.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

INVENTÁRIOS 35



Ouriços e abraços




(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")


Quando Beth era criança, assistia aos desenhos e filmes na TV, lia livrinhos e ouvia as estórias que a professora contava na escola. Gostava sobretudo dos finais felizes, onde tudo era fácil, límpido e mecanicamente justo. Onde os mocinhos eram mocinhos e os bandidos eram bandidos e estes sempre acabavam mal.
Pessoas velhas, feias, deformadas, pobres e que viviam em lugares sujos e escuros eram sempre as vilãs das estórias. Sofriam de inveja, cobiça e ciúme. Tinham instinto cruel e vingativo. Não amavam ninguém.
O mundo, então, para Beth, não possuía tons de cinza. Não havia dúvidas, não havia sombras. Havia os bons e os maus e só as pessoas ruins podiam machucar os outros.
Houve um tempo, também, em que Beth achou que tinha algo de mau dentro si, porque seus pais a repreendiam o tempo todo e ela sentia culpa por pequenas coisas que fazia de errado. Mais tarde, aprendeu que poderia ser perdoada, mas continuava achando que fazia coisas ruins.
Adolescente, Beth se apaixonou muitas vezes e, em algumas delas achava que era amada. Foi aí que descobriu que mesmo pessoas que amam podem machucar. E que quanto mais se ama alguém, mais se pode ser machucado por esta pessoa com palavras ou ações descuidadas.
Muitos anos depois, morando com Ismael, Beth ainda tinha medo da possibilidade de ser machucada. Procurava se proteger da dor que poderia sentir e quanto mais via que Ismael não tinha o mesmo medo, mais fechada ficava.
Dois anos juntos e ele parecia imune a inquietações e de uma segurança absurda em relação a tudo. Não tinha ciúmes, não perguntava sobre como iam as coisas no trabalho dela, o que ela pensava, o que sentia ou aspirava. Não procurava fazer nada para agradá-la, para mantê-la junto dele. Parecia indiferente e acomodado com a situação.
Beth, por outro lado, parecia sempre estar mudando sua maneira de pensar e questionava todas as coisas o tempo todo. Se para Ismael, as coisas à volta não precisavam mudar nunca, para Beth havia a necessidade de coisas novas sempre.
No começo, a passividade de Ismael, que a ouvia questionando uma coisa aqui e outra ali, mas aceitando tudo, deixava Beth contente. Com o tempo, passou a irritá-la e o silêncio dele, ironicamente, ficava ainda maior.
Depois de um tempo, ela contava cada vez menos coisas a ele e ele perguntava cada vez menos também. E o silêncio foi abrindo um grande espaço entre os dois. E Beth sentia falta de seu amigo querido de antes.
Certa noite, comentou com Ismael que tinha lido um artigo numa revista falando sobre a dificuldade que as mulheres tinham de encontrar o seu homem ideal:
- De um lado, as mulheres querem a segurança do amigo, do companheiro que entenda, incentive e ame incondicionalmente. De outro, elas querem o amante, o homem misterioso que traga o fogo, o desejo e deixe elas inseguras – comentou Beth.
- É difícil entender isso.
- Não sei se isso é só da mulher, não. Acho que tem a ver com todo mundo. É porque o sexo só é bom se tem um tipo de tensão. Se tem mistério, disputa de poder, controle e outras coisas assim.
- Mas como é que fica a segurança de uma relação mais profunda?
- Não sei. Talvez quanto mais a gente se conhece e se entrega, mais tem a perder e isso aumenta a tensão, o poder que o outro tem sobre a vida da gente e isso pode aumentar o desejo. Você não acha?
- Não sei. Acho que, num determinado ponto, as coisas começam a esfriar e não tem mais jeito – respondeu Ismael, num tom de suspiro, que deixou Beth triste.
Beth não insistiu na conversa. Abraçou o travesseiro e lembrou das estórias infantis, dos finais felizes e dos mocinhos que eram mocinhos e dos bandidos que eram bandidos. Sempre.


(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS")

terça-feira, 27 de maio de 2008

IMPERMANÊNCIAS 35

SUPERTRAMP - THE LOGICAL SONG

When I was young, it seemed that life was so wonderful,a miracle, oh it was beautiful, magical.And all the birds in the trees, well they'd be singing so happily,joyfully, playfully watching me.But then they send me away to teach me how to be sensible,logical, responsible, practical.And they showed me a world where I could be so dependable,clinical, intellectual, cynical.There are times when all the world's asleep,the questions run too deep for such a simple man.Won't you please, please tell me what we've learnedI know it sounds absurd but please tell me who I am.Now watch what you say or they'll be calling you a radical,liberal, fanatical, criminal.Won't you sign up your name, we'd like to feel you'reacceptable, respectable, presentable, a vegetable!At night, when all the world's asleep,the questions run so deep for such a simple man.Won't you please, please tell me what we've learnedI know it sounds absurd but please tell me who I am.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

IMPERTINÊNCIAS 35


Escolhas

Costumo, à noitinha, meter-me pelo meio do meu povo, rodeando-o com o silêncio do meu amor. E vejo a angústia invadir quer o inquieto, exclusivamente deslumbrado por aquilo que brilha com uma luz inútil, quer o poeta cheio de amor pelos poemas, mas que nunca escreveu o seu, quer a mulher apaixonada pelo amor, mas incapaz de devir por não saber escolher. Eles bem sabem que eu os curaria da angústia se lhes permitisse esse dom que exige sacrifício e escolha e esquecimento do universo. Porque determinada flor é, em primeiro lugar, uma renúncia a todas as outras flores. E, no entanto, só com esta condição é bela.

Antoine de Saint-Exupéry – “Cidadela”

domingo, 25 de maio de 2008

INVENTÁRIOS 34


Circunstâncias




(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")



Numa das primeiras vezes em que Beth e Ismael saíram juntos, ela falou a ele sobre os sonhos que tinha. Falou também das visões com o homem de terno branco que tinha respostas a todas as perguntas que ela fazia.
Ismael achava tudo muito interessante, fazia perguntas e discutia detalhes. Nunca questionava nem tentava explicar. Para ele, o mundo era grande e cheio de coisas que simplesmente não tinham explicação.
- Isso pode ser qualquer coisa! – era uma das frases preferidas dele.
Na noite anterior, Beth tivera um sonho que lhe tinha deixado impressionada. No sonho, ela andava por um belo campo num dia de sol, num lugar plano e absolutamente tranqüilo. De repente, sem qualquer explicação, o chão se abriu sob os seus pés ela caiu desesperada num vazio sem fim. Acordou assustada e com a sensação muito forte do inesperado.
Não sabia explicar aquilo e o sonho a assustava. Comentou com Ismael, que achou interessante, mas disse que ela não devia se preocupar com isso.
- Pode ser só um sonho – disse ele.
- Mas e se for um sinal ou qualquer coisa assim? Uma mensagem, um pedido de socorro do meu inconsciente?
- Se fosse, acho que você ia entender. Quem quer mandar uma mensagem quer que o outro entenda. Não faz tanto mistério com enigmas.
- Mas no plano dos sentimentos as coisas não são tão simples assim. Tem muitas coisas que não passam pelo racional. Você não se preocupa com isso? – questionou Beth.
- Essas coisas não me preocupam tanto.
- É mesmo?
- É. Eu sinto você com a alma angustiada, sempre cheia de perguntas, mas comigo as coisas não são assim. Prefiro ver como os outros lidam com as vidas deles e estudar os pensadores da filosofia. Não fico pensando tanto assim sobre a minha vida. Fazendo esses balanços e inventários.
- Eu preciso sempre disso pra saber onde estou, como cheguei aqui e pra onde eu vou.
- Acho que eu sempre fiquei no mesmo lugar. Acho que não vou a nenhum lugar no mundo. É ele que se mexe. Eu fico parado.
- Não sei se isso é bom ou ruim...
- É o que é. Só isso.



(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS")

sexta-feira, 23 de maio de 2008

IMPERMANÊNCIAS 34


Processos criativos

Uma nota publicada pelo jornalista Levi Vasconcelos na coluna Tempo Presente (18/05/08), do jornal A TARDE, mostra um pouco como era o processo criativo de Jorge Amado. É bonito e engraçado, mostrando a familiaridade que ele mantinha com seus personagens.

O destino de D. Flor
Zélia Gattai, que agora nos deixa, contou-nos num dos seus momentos de descontração, em Itacimirim, que no dia em que estava finalizando D. Flor e Seus Dois Maridos, Jorge Amado chegou às 11 da noite, na dúvida sobre com quem D. Flor ia ficar, se com Vadinho ou Teodoro, o marido morto ou o vivo. “Vou dormir”, disse ela. “Vá. Eu vou permanecer mais um pouco aqui até ver essa cidadã (D. Flor) decidir quem ela quer”. Dia seguinte, no café da manhã, ela perguntou: - “E aí, Jorge? Ela ficou com quem?”. E ele:– Aquilo é uma vagabunda. Ficou com os dois.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

IMPERTINÊNCIAS 34


Try a little tenderness

Fui ver ontem "My Blueberry Nights", que foi traduzido para "Beijo Roubado" em português, o que, além da imprecisão, também é uma perda poética. O novo filme de Wong Kar-Wai, já encaixado nos padrões holliwoodianos, perde muito do encanto dos trabalhos anteriores, mas mantém algumas das qualidades também. Os planos intimistas, os movimentos de câmera lentos, as cores primárias berrando e o olhar implacável sobre as dificuldades de comunicação das pessoas ainda estão ali.

Gostei muito da metáfora do vaso com as chaves de pessoas que terminaram relacionamentos. É interessante quando o personagem de Jude Law, o inglês Jeremy, dono do bar, diz que ao deixar ali as chaves de uma casa que antes dividiam, as pessoas mantém a sensação de que ainda poderão reabrir essas portas um dia. Relacionamentos terminados, mas sempre com a possibilidade de retorno, porque a vida dá voltas. Mas é o próprio Jeremy quem depois reflete: mas quando voltamos e abrimos a porta, aquela pessoa já mudou, não é mais a mesma.

Mais uma metáfora interessante, e essa dá o nome ao filme, é a respeito da torta de blueberry, que fica todas as noites intacta no balcão do bar, sem que ninguém experimente. As pessoas preferem degustar as opções mais comuns, como maçã e chocolate. Quem nunca se sentiu assim um dia, como a torta blueberry, levante o garfo.

Outro ponto interessante do filme é o drama do policial abandonado pela mulher e que insiste em tentar reatar o relacionamento. O filme mostra a dificuldade de por um ponto final, de terminar uma relação, de deixar o outro ir, de "morrer para o outro". É muito difícil de ouvir de quem ainda se gosta que não se significa mais nada para essa pessoa. É difícil entender os porquês.
Como comenta mais uma vez o dono de bar: - procuramos razões para explicar esses rompimentos, mas os sentimentos não podem ser enquadrados pela razão. As razões simplesmente não existem.

Apesar de ser despretensioso e até simples como cinema, o filme de Kar-Wai tem sim algumas ambições de retratar as relações humanas. E vai bem, embora o formato circular da trama nos deixe a sensação de um final forçado. Mas, se não existem explicações para o amor, para a arte, também não devemos cobrar isso.

Rachel Weisz e Natalie Portman estão competentes e lindas, como sempre. E Norah Jones vai bem, embora, na minha opinião, seja melhor como cantora.

A trilha sonora é outra coisa bacana do filme, com Cat Power (que aliás aparece no filme como Kátia, a ex-de Jeremy) e inclui ainda Norah Jones, Otis Readding cantando Try a Little Tenderness e Cassandra Wilson cantando "The Harvest Moon" de Neil Young, entre outras coisas bacanas.

Blueberry Pie
Para quem quiser conhecer melhor a torta de Blueberry, aqui vai uma receita que encontrei na internet:
Ingredientes
2 ½ xícaras de chá de farinha para bolo
½ xícara de chá de açúcar
½ xícara de chá de manteiga amolecida
3 gemas
1 colher de chá de raspas de limão
¼ colher de chá de sal
Preparo
Coloque a farinha em uma tigela. Usando um misturador de massa, misture o açúcar e a manteiga, junte as gemas, o limão e o sal. Trabalhe a massa para que tudo esteja bem misturado, mas não a trabalhe demais. Descanse a massa por 30 minutos, abra bem fina, com 3 mm de espessura. Coloque-a em uma forma untada de 25 cm. Asse no forno a 180ºC por 15 minutos.
Recheio
Ingredientes
1 ¾ xícara de chá açúcar
¼ xícara de chá de maisena
2 ovos
1 colher de sopa de manteiga
1 ½ xícara de chá de leite
1 colher de chá de essência de baunilha
3 xícaras de chá de blueberries
¼ xícara de chá de geléia de maçã
Preparo
Misture uma xícara de açúcar à maisena e aos ovos em banho Maria. Junte a manteiga, o leite e a baunilha, e cozinhe até ficar um molho grosso. Coloque numa forma. Combine o açúcar restante, com os blueberries. Espalhe sobre o recheio de creme, volte ao forno e continue a assar por 25 minutos. Retire do forno, esfrie. Aqueça a geléia de maçã, pincele as blueberries e coloque na geladeira. Fica ótimo com sorvete de creme.