Schicksalswende
(Continuação da série de posts “INVENTÁRIOS”)Quando Ismael morreu, Beth já tinha saído de casa há mais de três semanas. Tinha deixado quase tudo para trás. Não quis levar nada dos móveis, eletrodomésticos e, principalmente, dos objetos de decoração. Deixou CDs, livros, louça, panelas, roupa de cama e a coleção da revista Bravo.
Deixou os DVDs dos seus filmes favoritos, os bichinhos de pelúcia, os souvenirs de viagem, o MP3, a máquina fotográfica e as almofadas em forma de nuvem. Deixou também as raquetes de tênis, as cortinas que tinha comprado em Feira de Santana e a rede que trouxe de Fortaleza. Não tinha disco de Pixinguinha nem livro de Neruda, mas tinha duas dúzias de porta-retratos legais e a toalha de mesa que ela e Ismael compraram juntos para o Natal de 2006. Ficou tudo lá.
As malas, as cadeirinhas de praia, as canecas coloridas que enfeitavam a estante e com as quais Beth gostava de tomar chá nos dias de chuva. O travesseiro ortopédico, os óculos de natação, as gravuras que a Nanda fez, a foto autografada com Marcelo Camelo e os tíquetes de cinema que Beth gostava sempre de guardar.
Ficou tudo na casa quando Beth saiu e agora não tinha mais ninguém para cuidar disso. O que fazer? Pegar tudo e levar para casa? Dar todas as coisas para alguém? Deixar tudo fechado para que os pais de Samuel dessem um fim?
Enquanto caminhava na direção da casa, Beth pensava no que fazer. Levar tudo com ela, dizia baixinho, seria carregar de volta para sua vida um monte de coisas que não queria mais.
Era seu passado. Tudo bem. Mas já não era mais seu presente. E trazia lembranças demais. Dores demais. O que fazer com isso? Apagar as lembranças? Zerar o passado? Isso não seria limpar o que ela era?
Lembrou do filme “Eternal Sunshine of the Spotless Mind” e ficou preocupada.
Essa coisa de passado sempre era difícil de lidar para Beth. Ela lembrava da metáfora que a terapeuta uma vez usara. Ela dissera que o inconsciente era como o fundo do mar, que a gente mergulhava em sonhos e pensamentos e, de vez em quando, trazia as coisas lá do fundo para cima. Seres abissais monstruosos. Mas também valiosos tesouros. Lembranças, sonhos, devaneios, insights.
Às vezes, pensava Beth, quando acontecia algo muito forte, era, então, como uma tsunami. A onda vinha arrastando tudo, revolvendo tudo e levantando milhões de coisas do fundo do mar. Era mais ou menos o que estava acontecendo agora.
Pensando nisso, ela tirou o chaveiro da bolsa e colocou a chave na fechadura, ficando parada por um breve momento.
(No próximo post da série “INVENTÁRIOS”, o final da estória de Beth e Ismael)