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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 50


Fotogenia eleitoral

Em tempos de corrida eleitoral, com as ruas sendo invadidas por cartazes, panfletos e carros plotados cheios de sorrisos forçados, frases feitas e olhares vagos, a reflexão de Barthes sobre a construção da imagem dos candidatos se mostra ainda atual:

Certos candidatos a deputado ornam com um retrato o seu prospecto eleitoral. Isto equivale a supor que a fotografia possui um poder de conversão que se deve analisar. Para começar, a efígie do candidato estabelece um elo entre ele e seus eleitores; o candidato não propõe apenas um programa, mas também um clima físico, um conjunto de opções cotidianas expressas numa morfologia, um modo de vestir, uma pose. A fotografia tende, assim, a restabelecer o fundo paternalista das eleições, a sua natureza "representativa", desvirtuada pelo voto proporcional e pelo reino dos partidos. Na medida em que a fotografia é elipse da linguagem e condensação de todo um "inefável" social, constitui uma arma antiintelectual, tende a escamotear a "política" (isto é, um conjunto de problemas e de soluções) em proveito de uma maneira de ser, de um estatuto social e moral (...).
(...) O que é exposto através da fotografia do candidato não são seus projetos, são suas motivações, todas as circunstâncias familiares, mentais e até eróticas, todo um estilo de vida de que ele é, simultaneamente, o produto, o exemplo, e a isca. É óbvio que aquilo que a maior parte dos nossos candidatos propõe através de sua efígie é uma posição social, o conforto especular das normas familiares, jurídicas, religiosas,a propriedade infusa de certos bens burgueses(...) O uso da fotografia eleitoral supõe cumplicidade: a foto é espelho, ela oferece o familiar, o conhecido, propõe ao leitor a sua própria efígie, clarificada, magnificada, imponentemente elevada à condição de tipo. É, aliás, esta ampliação valorativa que define exatamente a fotogenia: ela exprime o eleitor e, simultaneamente, transforma-o num herói; ele é convidado a eleger-se a si próprio, incumbindo o mandato que vai dar de uma verdadeira transferência física: delega de algum modo a sua "raça"(...).

Roland Barthes - Mitologias