Fotogenia eleitoral
Em tempos de corrida eleitoral, com as ruas sendo invadidas por cartazes, panfletos e carros plotados cheios de sorrisos forçados, frases feitas e olhares vagos, a reflexão de Barthes sobre a construção da imagem dos candidatos se mostra ainda atual:
(...) O que é exposto através da fotografia do candidato não são seus projetos, são suas motivações, todas as circunstâncias familiares, mentais e até eróticas, todo um estilo de vida de que ele é, simultaneamente, o produto, o exemplo, e a isca. É óbvio que aquilo que a maior parte dos nossos candidatos propõe através de sua efígie é uma posição social, o conforto especular das normas familiares, jurídicas, religiosas,a propriedade infusa de certos bens burgueses(...) O uso da fotografia eleitoral supõe cumplicidade: a foto é espelho, ela oferece o familiar, o conhecido, propõe ao leitor a sua própria efígie, clarificada, magnificada, imponentemente elevada à condição de tipo. É, aliás, esta ampliação valorativa que define exatamente a fotogenia: ela exprime o eleitor e, simultaneamente, transforma-o num herói; ele é convidado a eleger-se a si próprio, incumbindo o mandato que vai dar de uma verdadeira transferência física: delega de algum modo a sua "raça"(...).
Roland Barthes - Mitologias

