terça-feira, 13 de maio de 2008

INVENTÁRIOS 32


Persona 1




(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS)

Beth sentia alguma dificuldade para dormir naquelas noites. Estava para se mudar para a casa de Ismael e isso a deixava um pouco ansiosa. Apesar da relação profunda que os dois haviam desenvolvido nos últimos meses, achava aquela decisão era importante demais para ser tomada em tão pouco tempo. Na verdade - ela mesma admitia - tinha muito medo.
Numa dessas noites, pediu novamente a ajuda do "bibliotecário" João, o homem estranho que lhe aparecia como se fosse um sonho e trazia respostas para as suas perguntas. Sentada em sua cama, bastou Beth pensar na pergunta e chamá-lo, que mais uma vez ele apareceu.

- João?

- Estou aqui.

- Você é sempre muito rápido.

- Sim, se você tiver a pergunta bem definida.

- Tenho sim. Mas, antes dela, quero fazer uma pergunta da minha curiosidade. Posso?

- Pode.

- Essa é a sua imagem mesmo? Você é assim porque aparece assim pra mim, porque eu interpreto desse jeito? Afinal, você poder ser de outro jeito? Uma mulher, por exemplo?

- Esta é apenas uma das formas em que eu posso aparecer, mas se você quiser, pode me ver como mulher. Quer?

- Quero sim.

O homem moreno de terno, chapéu e sapato brancos transformou-se, de repente, numa mulher de cabelos pretos compridos, usando um vestido vermelho, que Beth considerou bastante espalhafatoso.

- Nossa - exclamou Beth.

- Senti uma ironia no seu olhar e na sua observação - disse a mulher com uma voz macia e um sotaque um pouco arrastado.

- Não é nada, não. Foi só a mudança.

- De qualquer forma, fico feliz que você tenha perdido o medo, mas espero que não perca o respeito. Não é recomendado para você.

- Não, não. De jeito nenhum. Mas e agora? Não posso mais chamar você de João. Como eu chamo você?

- Bárbara!

- Pronto. Gostei.

- E a sua pergunta?

- Eu sei que eu já perguntei uma coisa parecida, mas é que essa coisa não tá ainda bem clara pra mim. E é bem importante.

- Se é importante pra você, é importante pra mim também. Diga.

- Eu queria saber se a gente nasce como se fosse um recipiente vazio e depois a vida vai enchendo, ou se a gente já vem com muita coisa dentro.

- Você não é um recipiente vazio. Mesmo quando nasce.

- Mas parece que tudo vem do mundo de fora pra dentro. Que vai enchendo a gente com as experiências e a gente vai se tornando o que o mundo nos torna. Não é?

- As experiências são muito mais o que você interpreta delas do que propriamente uma coisa já pronta. Tudo depende de como você assimila, como você guarda elas dentro de você, ou seja, o que você faz com elas.

- Mas e essa chuva de informações o tempo todo bombardeando a gente? A cultura, a moda, a política, todas essas coisas, o que isso faz com a cabeça da gente? Isso muda o nosso jeito? Se não, como a gente evolui como pessoa?

- Vocês estão sempre buscando uma referência. Procurando uma certeza vinda fora. Isso é próprio da sua condição. Não é novo. O homem das cavernas também procurava vestir colares com garras ou dentes de animais, o que para ele significava assumir a força deles. É a mesma coisa quando alguém vai comprar uma roupa que determinada personalidade usa. Essa pessoa se identifica com a celebridade. A idéia é transferir para si algumas das qualidades dessa pessoa, mostrar que está por dentro da moda, que é legal, moderno ou qualquer coisa assim. É uma espécie de fetichismo.

(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

IMPERMANÊNCIAS 32


O Meu Olhar



Alberto Caeiro

O meu olhar é nítido como um girassol
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

domingo, 11 de maio de 2008

IMPERTINÊNCIAS 32

Dilemas de consciência


Até o surgimento dos códigos de conduta da religião judaica, não existiam noções teóricas de certo e errado absolutas no Ocidente. Tudo era relativizado pelas circunstâncias, pelas relações com o poder, pela situação social, pela “vontade dos deuses”. Um crime não era um crime contra o outro, mas contra os deuses e isso atraía a ira desta ou daquela divindade, embora pudesse ser simultaneamente bem aceito por outra.

O código moral que criou a linha de conduta do judaísmo, do cristianismo e do islamismo começou também mais preocupado com a ira divina do que com o bem do outro. Mas, aos poucos, ganhou um foco diferente. Dos Dez Mandamentos, os quatro primeiros referem-se à relação do homem com a divindade e os seguintes falam de atos cometidos contra o “próximo”, transformando-se em regras de conduta necessárias para que seja possível o convívio social.

O filme O Sonho de Cassandra (Cassandra´s Dream), de Woody Allen, mostra dois irmãos com temperamentos bem diferentes se defrontando com o mesmo ato cometido. Cada um interpreta e vive de forma diferente essa experiência. Enquanto um é mais racional e pragmático, convencendo-se de que fez aquilo que deveria ter sido feito e as conseqüências são positivas (os fins justificam os meios), o segundo, mais emocional, afunda-se num dilema de culpa e autopunição, martirizando-se no remorso.

A construção de Woody Allen, que faz os personagens atingirem o mesmo ponto e, depois, aos poucos, irem seguindo seus caminhos diferentes, é muito interessante e bastante realista. Nos permite a leitura de que os irmãos sejam uma metáfora do próprio ser humano, com dois lados se digladiando internamente num processo de auto-julgamento contínuo.


Por um lado, quando nos colocamos como referência de mundo, a vida segue e é preciso pensar pragmaticamente naquilo que queremos e precisamos. De outro, quando temos pontos de referência externos em que nos apoiamos - as pessoas à nossa volta, a cultura universal ou a possibilidade de uma divindade maior - temos que responder pelos nossos atos.
De qualquer forma, é uma grande filme. Colin Farrel e Ewan McGregor estão muito bem. E Woody Allen continua sendo um mestre.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

INVENTÁRIOS 31


ÁGUAS PROFUNDAS




(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")

Beth estava sentada num bar com sua amiga Cíntia. Precisava conversar sobre as coisas que lhe passavam pela cabeça. Estava angustiada e com medo, embora, ao mesmo tempo, sentisse uma grande excitação.

- Tudo isso é muito estranho pra mim, Cíntia. Ainda não sei o que eu vou responder.

- Faz quanto tempo que vocês tão namorando?

- Quase cinco meses.

- E você gosta dele?

- Gosto. Muito.

- Então, qual é o problema?

- Não sei. Morar junto é uma coisa nova pra mim. Não sei se vai dar certo. Não sei se eu tenho estrutura. Não sei se Ismael é maduro o suficiente pra isso. Não sei se eu sou...

- Você tem medo de abrir mão da sua privacidade?

- Não, não é isso. Eu tenho medo de não dar certo, de falhar, sei lá...

- Ele morava até pouco tempo com os pais, né?

- É. E fui eu que incentivei ele a sair de casa, a alugar aquela casa no village. E agora ele quer que vá pra lá.

- Mas vocês dois passam o final de semana inteiro juntos lá. Você vai na sexta à noite e só sai na segunda de manhã. Já sabe mais ou menos como é. E vocês também já viajaram juntos.

- Pois é. Não sei...

- Do que é que você tem medo realmente?

- Medo. Acho que não é medo, não. Acho que eu tô é apavorada.

- Mas por que?

- É que as coisas nunca deram certo pra mim nesse lado da emoção, sabe? De algum jeito, as coisas sempre dão errado. Eu tive uns namorados bem tranqueiras. E nas vezes em que eu gostei muito de alguém, alguma coisa de ruim aconteceu com ela.

- Se alguma coisa deu errado antes, não significa que vai dar errado de novo...

- Não sei, não sei, não sei - repetiu Beth nervosa.

- Acho que você está exagerando. Se não der certo, você volta pro apartamento.

- E se ele deixar de gostar de mim. Se ele descobre que eu não sou legal e que ele não gosta mesmo de mim?

- Se isso é verdade, não faz diferença se vocês tão morando juntos ou não, ele acaba descobrindo de qualquer jeito.

- É?

- É.

- Isso não ajuda muito...

- Bom, acho que você tá nervosa demais. Acho que ele gosta muito de você e você dele. E vai dar certo. Pelo tempo que tiver que ser, vai dar certo.

- Não sei, não sei, não sei - repetiu mais uma vez Beth, começando a roer as unhas.

- Olha só: para com isso. Ele é um cara legal. Vai dar tudo certo. Mesmo.

- Você acha?

- Acho.

- Por que as coisas são tão complicadas assim?

- Não são?

- Não são mesmo. Você é que tá fazendo ficar complicado.

- Mesmo?

- Mesmo. Se você não tentar, não vai saber se daria certo. Se for pra dar errado, vai dar errado agora ou mais tarde. No fundo, você não tem nada a perder. Só a ganhar.

- É verdade.

- É.

- Eu gosto muito do Ismael.

- Pronto.

- E ele gosta de mim. E a gente se dá tão bem. Em tudo: nas nossas idéias, no nosso jeito, na cama, nas coisas que a gente gosta...

- Viu? É isso mesmo.

- Acho que eu nunca ia me perdoar se eu não tentasse.

- Isso mesmo.

- É, acho que é isso mesmo.

- Tá convencida?

- Acho que sim.

- Que bom.

- É. E agora é respirar fundo.

- É. E vê se pede mais uma cerveja. Vamos ver se você se acalma. E para de roer a unha, tá?

- Tá certo. Eu vou tentar...

(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS")

domingo, 4 de maio de 2008

IMPERMANÊNCIAS 31


Insaciabilidade

De quase tudo,
Um pouco

De tudo,
Um quase pouco

De um pouco,
Quase tudo

sábado, 3 de maio de 2008

IMPERTINÊNCIAS 31



Fala-nos do Amor

Khalil Gibran






"Al-Mithra disse-lhe então: Fala-nos do amor.

E ele virou a cabeça e fitou o povo e sobre todos se abateu um grande silêncio. E, com voz grave, disse...

Quando o amor vos chamar, segui-o, mesmo que os seus caminhos sejam íngremes e penosos.

E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos a ele, ainda que a espada dissimulada nas suas penas vos possa ferir.

E quando ele vos falar, crede nele, embora a sua voz possa estilhaçar os vossos sonhos como o vento do norte devasta o jardim.

Pois assim como o amor vos coroa, também vos crucifica. E, tal como serve para o vosso crescimento, também serve para a vossa decadência.

E como ele se ergue até às vossas copas e acaricia os vossos mais tenros ramos que esvoaçam ao sol, também às vossas raízes ele desce e as sacudirá no seu apego à terra.

Quais feixes de trigo, ele vos reúne em si.

Vos amanha para vos pôr a nu.

Vos ciranda para vos libertar do vosso farelo.

Vos moi até à alvura.

Vos amassa até vos tornardes macios.

E, depois, vos entrega ao seu fogo sagrado, para vos tornardes pão sagrado para o festim sagrado de Deus.

O amor fará todas essas coisas de vós, para que possais conhecer os segredos do vosso coração e vos tornardes, através desse mesmo conhecimento, um fragmento do coração da vida.

Mas se, no vosso temor, procurardes no amor apenas paz e prazer, faríeis melhor se ocultásseis a vossa nudez e saísseis do amor, para o mundo sem razão, onde rireis, mas não com todo o vosso riso, e chorareis, mas não com todas as vossas lágrimas.

O amor dá-se apenas a si mesmo e nada recebe se não de si próprio.

O amor não possui nem quer ser possuído.

Porque o amor se basta do amor.

Quando amardes, não deveis dizer: "Deus está no meu coração", mas antes "Estou no coração de Deus".

E não penseis que sois vós quem orienta o rumo do amor, pois, se vos achar dignos, será o amor que conduzirá o vosso caminho.

O amor não tem outro desejo que não realizar-se a si mesmo.

Mas se amardes e sentirdes desejos, que sejam estes os vossos desejos: Dissolver-se e ser-se como um regato que desliza e canta à noite a sua melodia.

De tanta ternura conhecer a dor, ser ferido pela vossa própria concepção do amor e sangrar de boa vontade e com júbilo.

Acordar para o amor com um coração alado e dar graças por um outro dia de amor;

e fazer uma pausa à hora do meio dia e meditar sobre o êxtase do amor; regressar à noite ao lar com gratidão; e adormecer com uma oração no coração pelo amado, e nos lábios um hino de louvor.



Kahlil Gibran, em "O Profeta"

quinta-feira, 1 de maio de 2008

INVENTÁRIOS 30


Chama

(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")

Carta de Beth a Ismael

Querido Ismael,

Escrevo a você porque talvez ninguém saiba tanto o quão próximo do céu o inferno pode estar, e que a dor e delícia podem conviver lado a lado quando ousamos desafiar os limites da alma.


Amar, assim como crescer, assim como enxergar a luz, às vezes dói.

E, embora se queira o bem, pode-se fazer o mal involuntariamente.

E, embora sejamos amados, também podemos ser feridos dessa forma.

Porque assim como a água, que é símbolo da vida, pode nos afogar, o amor também pode se tornar perigoso em quantidades e circunstâncias erradas.

E há momentos em que o mais afetuoso dos carinhos pode machucar e o mais zeloso dos cuidados pode ter o gosto amargo da tirania.

Nessas horas, precisamos de ar.

Pra que a chama não se apague.

Beijos, muitos,

Beth

(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")