Persona 1

(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS)
Beth sentia alguma dificuldade para dormir naquelas noites. Estava para se mudar para a casa de Ismael e isso a deixava um pouco ansiosa. Apesar da relação profunda que os dois haviam desenvolvido nos últimos meses, achava aquela decisão era importante demais para ser tomada em tão pouco tempo. Na verdade - ela mesma admitia - tinha muito medo.
Numa dessas noites, pediu novamente a ajuda do "bibliotecário" João, o homem estranho que lhe aparecia como se fosse um sonho e trazia respostas para as suas perguntas. Sentada em sua cama, bastou Beth pensar na pergunta e chamá-lo, que mais uma vez ele apareceu.
- João?
- Estou aqui.
- Você é sempre muito rápido.
- Sim, se você tiver a pergunta bem definida.
- Tenho sim. Mas, antes dela, quero fazer uma pergunta da minha curiosidade. Posso?
- Pode.
- Essa é a sua imagem mesmo? Você é assim porque aparece assim pra mim, porque eu interpreto desse jeito? Afinal, você poder ser de outro jeito? Uma mulher, por exemplo?
- Esta é apenas uma das formas em que eu posso aparecer, mas se você quiser, pode me ver como mulher. Quer?
- Quero sim.
O homem moreno de terno, chapéu e sapato brancos transformou-se, de repente, numa mulher de cabelos pretos compridos, usando um vestido vermelho, que Beth considerou bastante espalhafatoso.
- Nossa - exclamou Beth.
- Senti uma ironia no seu olhar e na sua observação - disse a mulher com uma voz macia e um sotaque um pouco arrastado.
- Não é nada, não. Foi só a mudança.
- De qualquer forma, fico feliz que você tenha perdido o medo, mas espero que não perca o respeito. Não é recomendado para você.
- Não, não. De jeito nenhum. Mas e agora? Não posso mais chamar você de João. Como eu chamo você?
- Bárbara!
- Pronto. Gostei.
- E a sua pergunta?
- Eu sei que eu já perguntei uma coisa parecida, mas é que essa coisa não tá ainda bem clara pra mim. E é bem importante.
- Se é importante pra você, é importante pra mim também. Diga.
- Eu queria saber se a gente nasce como se fosse um recipiente vazio e depois a vida vai enchendo, ou se a gente já vem com muita coisa dentro.
- Você não é um recipiente vazio. Mesmo quando nasce.
- Mas parece que tudo vem do mundo de fora pra dentro. Que vai enchendo a gente com as experiências e a gente vai se tornando o que o mundo nos torna. Não é?
- As experiências são muito mais o que você interpreta delas do que propriamente uma coisa já pronta. Tudo depende de como você assimila, como você guarda elas dentro de você, ou seja, o que você faz com elas.
- Mas e essa chuva de informações o tempo todo bombardeando a gente? A cultura, a moda, a política, todas essas coisas, o que isso faz com a cabeça da gente? Isso muda o nosso jeito? Se não, como a gente evolui como pessoa?
- Vocês estão sempre buscando uma referência. Procurando uma certeza vinda fora. Isso é próprio da sua condição. Não é novo. O homem das cavernas também procurava vestir colares com garras ou dentes de animais, o que para ele significava assumir a força deles. É a mesma coisa quando alguém vai comprar uma roupa que determinada personalidade usa. Essa pessoa se identifica com a celebridade. A idéia é transferir para si algumas das qualidades dessa pessoa, mostrar que está por dentro da moda, que é legal, moderno ou qualquer coisa assim. É uma espécie de fetichismo.
(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS)





