Mostrando postagens com marcador Woody Allen. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Woody Allen. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de maio de 2008

IMPERTINÊNCIAS 32

Dilemas de consciência


Até o surgimento dos códigos de conduta da religião judaica, não existiam noções teóricas de certo e errado absolutas no Ocidente. Tudo era relativizado pelas circunstâncias, pelas relações com o poder, pela situação social, pela “vontade dos deuses”. Um crime não era um crime contra o outro, mas contra os deuses e isso atraía a ira desta ou daquela divindade, embora pudesse ser simultaneamente bem aceito por outra.

O código moral que criou a linha de conduta do judaísmo, do cristianismo e do islamismo começou também mais preocupado com a ira divina do que com o bem do outro. Mas, aos poucos, ganhou um foco diferente. Dos Dez Mandamentos, os quatro primeiros referem-se à relação do homem com a divindade e os seguintes falam de atos cometidos contra o “próximo”, transformando-se em regras de conduta necessárias para que seja possível o convívio social.

O filme O Sonho de Cassandra (Cassandra´s Dream), de Woody Allen, mostra dois irmãos com temperamentos bem diferentes se defrontando com o mesmo ato cometido. Cada um interpreta e vive de forma diferente essa experiência. Enquanto um é mais racional e pragmático, convencendo-se de que fez aquilo que deveria ter sido feito e as conseqüências são positivas (os fins justificam os meios), o segundo, mais emocional, afunda-se num dilema de culpa e autopunição, martirizando-se no remorso.

A construção de Woody Allen, que faz os personagens atingirem o mesmo ponto e, depois, aos poucos, irem seguindo seus caminhos diferentes, é muito interessante e bastante realista. Nos permite a leitura de que os irmãos sejam uma metáfora do próprio ser humano, com dois lados se digladiando internamente num processo de auto-julgamento contínuo.


Por um lado, quando nos colocamos como referência de mundo, a vida segue e é preciso pensar pragmaticamente naquilo que queremos e precisamos. De outro, quando temos pontos de referência externos em que nos apoiamos - as pessoas à nossa volta, a cultura universal ou a possibilidade de uma divindade maior - temos que responder pelos nossos atos.
De qualquer forma, é uma grande filme. Colin Farrel e Ewan McGregor estão muito bem. E Woody Allen continua sendo um mestre.