sábado, 8 de março de 2008

INVENTÁRIOS 16


Who made who?





(Continuação da série de posts "Inventários")

Mesa do bar Valentino. Beth conversa com Ismael e com um casal de amigos, Teresa e Dinho. Ela é jornalista e ele cursou psicologia junto com Beth. A conversa varia sobre diversos temas, que vão desde falar mal de pessoas chatas e arrogantes, até divagações sobre política e futebol. No momento, falam sobre música.
- Gosto de Los Hermanos. Principalmente do Bloco do Eu Sozinho. Todo o Carnaval Tem Seu Fim. Acho uma coisa diferente na música brasileira - observa Teresa, comentando a música cantada pelo rapaz com um violão, no pequeno palco do bar.
- Que coisa nova o quê. É uma releitura de várias coisas antigas, que vão desde bossa nova e samba, até o rock inglês dos ano 80 e 90. É Nara Leão misturado com The Smiths e Coldplay - replica Dinho.
- Se for pensar desse jeito, tudo hoje é mistura de alguma coisa. Nos anos 90 acho que já era assim também - emenda Beth - hoje de manhã eu tava ouvindo Madeleine Peyroux. É pura Billie Holliday. É imitação descarada.
- Não quero decepcionar vocês, mas a gente vive no tempo do sampler e do remix. Tudo agora é a uma revisão de algo antigo, um retalho colado a outros retalhos, tentando parecer algo novo. Aliás, desde os Beatles não tem nada de novo na música – intervém Ismael.
- Até os Beatles tiveram suas influências, cara. Folk music, blues, clássicos – aponta Dinho.
- Mas eles desenharam um caminho por onde todos vieram depois – acrescenta Teresa.
- Será que eles tinham noção disso? - Pergunta Ismael.
- Como assim? – Pergunta também Beth.
- Será que não foram as releituras posteriores é que foram acrescentando novas significações e que enriqueceram o trabalho deles? – Responde Ismael com outra pergunta.
- É uma teoria interessante – dá de ombros Teresa.
- Não é minha. Vários filósofos da cultura já falaram sobre isso, principalmente na literatura. É a idéia de que a obra se completa com o olhar do leitor e quanto mais rica e generosa for a sua interpretação, mais a sua obra cresce – prossegue Ismael.
- Li um conto do Jorge Luis Borges sobre isso. Ele fala de um cara que quer reescrever o Quixote, 200 anos depois de Cervantes. Palavra por palavra. Mas esse maluco, chamado Pierre Menard, simplesmente não consegue. E Borges, construindo seus velhos labirintos, vai nos provando que escritores posteriores influenciaram seus antecessores – conta Dinho.
- É mais ou menos lógico. Como alguém que vê um filme do Godard e só depois vê pela primeira vez um Hitchcock. É o nosso olhar que fica influenciado – lembra Teresa.
- Como alguém que ouvisse a Madeleine primeiro e depois Billie Holliday e achasse que ela é que imita – brinca Beth.
- Mas, então, a gente nunca vai poder dizer que tem uma música do nosso tempo? - questiona Dinho.
- A gente só vai saber disso depois. O poeta Baudelaire dizia que a obra prima é aquela que ao mesmo tempo fala uma coisa do seu tempo e outra que é essencial a todas as épocas. Ou seja, ao mesmo tempo que ela é eterna, você também pode localizá-la exatamente no tempo dela – cita Ismael.
- Então a gente não tem uma cultura. Tem retalhos requentados de culturas mais antigas? – ironiza Beth.
- E se sempre foi assim? E se é a gente que se acha tão desenvolvido e importante que resolve achar que é diferente? E se tudo for igual ao que sempre foi? A gente se reinventando sempre. O tempo todo vasculhando os bolsos dos defuntos atrás de um trocado, de uma boa idéia... – argumenta Dinho
- Acho que a gente não vai conseguir responder essa pergunta numa mesa de bar – interrompe Teresa.
- Muita coisa boa já saiu de uma mesa de bar... – insiste Ismael.
- Não sei de vocês, mas nesse momento, a única coisa que eu quero é outra cerveja e que esse cara que tá cantando pare de tentar imitar o Djavan – reclama Beth.
- Essa é a pôrra da cultura remix – segue Dinho, rindo. E os outros concordam e riem também, enquanto Beth pede outra cerveja e faz caretas imitando o cantor.

(Continua na série de posts "Inventários")

sexta-feira, 7 de março de 2008

IMPERMANÊNCIAS 16


Nos desnudaram hoje

Nos desnudaram hoje,
Nos desarmaram,
Nos revelaram,
Nos desferiram golpes sem dó.

Nos desnudaram hoje,
Nos desmentiram,
Nos esmagaram,
Nos reduziram a pó.

Nos desnudaram hoje,
Nos desvendaram,
Nos descobriram,
Nos desataram o nó.

Nos desnudaram hoje,
Nos decantaram,
Nos definiram,
Nos transformaram num só.

Wilson Gasino

quarta-feira, 5 de março de 2008

IMPERTINÊNCIAS 16


O “Esquecedor” e a Sociedade da Informação

Wilson Gasino

Obs.: Este é um artigo que eu escrevi para a revista Hottopos, de Filosofia, há 10 anos atrás. As coisas só se acirraram desde então e o texto se torna interessante para entender o papel do jornalista e demais profissionais que lidam com a informação nos tempo da internet. Tanto que acabou sendo citado em várias teses de pós-graduação e mestrado (algumas disponíveis na internet). É longo demais para um blog, mas acho que vale a pena ler.

Os avanços da eletrônica neste século mudaram a forma como as pessoas têm acesso e lidam com a informação. O telégrafo, o telex, o rádio, a televisão, o fax e, nas últimas décadas, a Internet, abriram um mundo novo, possibilitando ao ser humano receber em pouco tempo um volume de informações inimaginável no passado.
Essa aceleração da informação trouxe enormes benefícios em termos de avanço científico, comunicação, lazer, processamento de dados e busca do conhecimento. Mas também trouxe ao ser humano o dilema da saturação da informação. A máquina, substituindo o papel, passou a ser a forma mais prática e fácil de acumular e gerenciar dados. A máquina passou a ajudar o homem a se lembrar, ampliando a capacidade de memória da humanidade.
O homem, definido pelo poeta clássico grego Píndaro como "aquele que esquece", "o esquecedor", pensou que a máquina poderia ajudá-lo a lembrar. Mas a máquina multiplicou o número de informações com que o homem lida a cada dia, chegando a níveis absurdos. Hoje, uma pessoa pode ter acesso num só dia a um número equivalente de informações aos quais um indivíduo teria a sua vida inteira na Idade Média. De acordo com uma pesquisa recente feita pela Price Waterhouse, o volume de conhecimento necessário para se manter atualizado no mundo dos negócios dobra a cada ano.



São milhões de bits, ondas, cifras, códigos, imagens, símbolos, sons e signos que se fendem, multiplicam, misturam e sobrepõem a cada segundo, gerando, às vezes, muito mais confusão do que esclarecimento. A informação que vale neste instante pode não valer no próximo e, olhe lá ela, voltando, travestida de novidade verdadeira em apenas um segundo.
Os cérebros se tornam verdadeiras esponjas, onde a informação entra num momento e, já descartável, é atirada ao lixo da memória, logo em seguida. As pessoas se expõem ao estresse informativo, recebendo esse bombardeio desordenado, sem ter controle sobre isso e sem saber como se proteger, ou, pelo menos, como selecionar de maneira correta. O jornalista passa, então, a ter uma importância fundamental nesse contexto, tornando-se ao mesmo tempo o indivíduo mais atingido, o maior propagador dessa situação, e um dos principais encarregados de tornar esse panorama confuso um pouco mais organizado para as outras pessoas.
Esse cenário de caos é uma das faces da sociedade da informação, que uniu a era da informática ao consumismo desenfreado. A informação transforma-se em objeto de consumo imediato, tão descartável quanto um chiclete ou uma lâmina de barbear. Ela é processada de forma industrial: produzida, montada, embalada, enviada e vendida como unidade autônoma e separada de qualquer contexto.



A sociedade da informação herda o paradigma do universo do mundo moderno, em que, como disse Marx, tudo o que é sólido se volatiliza. Esse conceito foi aprofundado por Marshall Berman em seu livro "Tudo o que é sólido se desmancha no ar". No livro, Berman nos diz que a modernidade que une todo o gênero humano é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade: "envolve-nos a todos num redemoinho perpétuo de desintegração e renovação, de luta e contradição, de ambigüidade e angústia".

Nesse mundo, não há um processo de transformação que contextualize e interligue a informação volátil, transformando-a em conhecimento real, sólido e resistente às flutuações dos números, fatos, opiniões e emoções. A informação acaba se destacando e se diferenciando da fonte de tal maneira que só passa a importar o "que se diz" e não mais o "como se diz". A informação torna-se ferramenta num estreito conceito de funcionalismo semiótico, não deixando espaço nem tempo para interpretações.
Ou seja, ao desprender-se totalmente da fonte e não possibilitar ao receptor a sua decodificação e interpretação, a informação deixa de ser mensagem e passa a ser estímulo pontual num oceano de "infocommoditties". A informação não carrega valores, não tem raízes culturais e, como o capital volátil que flutua pelos mercados financeiros do mundo, não tem pai, pátria, ou patrão.
Por outro lado, a informação recebida sem carimbo de origem também tem dificuldade em procurar espaço dentro da memória do receptor. Não há identidade e por isso não há identificação. Os conteúdos se perdem, nada acrescentam e não encontram raízes emocionais ou intelectuais onde se firmar. A informação permeia a mente e o espírito, perdendo-se novamente no vórtice sem deixar vestígio. Tudo isso para ser substituída em tempo real por uma nova informação passageira, como numa corrente frenética de milhões de elétrons.



Mas o receptor não fica incólume ao processo e à dificuldade de reconhecer, absorver e assimilar a informação, tornando-a conhecimento. Esse processo contínuo faz com que ele também perca suas noções mais sólidas da própria identidade e sua relação com a realidade. O maremoto da informação distorce a percepção do mundo e desfoca o processo de auto-referência, criando realidades momentâneas repicadas e alternantes como um caleidoscópio de 360 graus.
Essa perda da auto-referência no oceano da informação fragmentária hipnotiza o ser e alija de sentido a existência. A velocidade sobrepuja o espírito crítico, e a necessidade de conexão com a massa, já que a posse de certas informações é emblemática para a participação em determinados grupos sociais, absorve a consciência.


Como afirmou o pensador francês Raymond Queneau, perdeu-se a identidade entre o conhecimento adquirido e aquilo que se é no fundo; quebrou-se o elo entre aquilo que se sabe verdadeiramente e aquilo que se pensa que se sabe. Isto é, chegamos à perda do significado do saber que permite ao receptor o reconhecimento da sua identidade própria.
O redemoinho substitui a vida, substitui a experiência do real e dificulta a construção e a manutenção de valores duradouros. Os valores se volatilizam como a informação, tornando-se móveis e adaptáveis de acordo com as situações, que, de certa forma, também são manipuláveis do ponto de vista do sujeito.



Nesse turbilhão, torna-se uma tarefa difícil colocar a cabeça para fora do mar de informações e emergir numa nova realidade. Como no filme "Matrix", em que o protagonista "Neo" consegue vislumbrar, ao menos por um instante, o falso tecido que envolve o mundo, formado por milhões de bits. No filme, o personagem consegue, então, ver uma nova realidade, onde o próprio homem decide sua vida e suas ações, enxergando além daquilo que lhe é imposto como realidade.
Esse salto para fora do turbilhão só pode acontecer dentro de um processo consciente de avaliação daquilo que absorvemos. Uma espécie de desaceleração seletiva, procurando dar sentido à informação. Nesse processo, a figura do jornalista e de todos os chamados formadores de opinião, que, de certo modo, servem de referência no processo de busca da informação, é fundamental.


Tal papel deve abranger desde a seleção da informação, até o processamento, valoração e organização, de forma a dar sentido àquilo que se transmite e, assim, dar sentido também ao mundo que nos cerca. Esse papel inclui a valorização do indivíduo receptor e da sua capacidade de avaliar e assimilar criticamente aquilo que lhe é oferecido. Um receptor que também deve ser capaz de processar e retransmitir o que entendeu, acrescentando a sua participação.
O processo deve ter como foco a interligação do indivíduo com o todo, e a valorização das duas partes. Afinal, o objetivo do indivíduo deve ser o desenvolvimento da humanidade, e o objetivo da humanidade deve ser a realização do indivíduo.


A aceleração da informação é importante e alimenta o mundo. Mas para que ela seja realmente útil e traga crescimento ao ser humano, essa informação deve trazer componentes racionais e emocionais úteis ao processo de desenvolvimento da pessoa. Assim, o "esquecedor" poderá esquecer mais uma vez aquilo que aprendeu ontem, mas já não será mais o mesmo. Ele seguirá mudado, da mesma maneira que o homem que se banhou no rio e do rio que lavou o homem.

terça-feira, 4 de março de 2008

INVENTÁRIOS 15

Lisabeta

(Continuação da série de posts “INVENTÁRIOS)



Beth, minha querida Beth,
Os últimos três meses (isto é, desde que eu te conheci) têm sido muito bons pra mim. Tenho aprendido muito e cada novo dia é uma surpresa maravilhosa. Entendo muito bem a sua dificuldade em confiar, em se entregar. Ontem, escrevi esse poema pensando em você.


do seu

Ismael


I
É preciso ser Beth
Assim como é preciso
Caminhar, ver, ouvir e sonhar,
É preciso respirar o mundo,
Como se não houvesse
Outra forma de ser ela mesma.

É preciso que as palavras
Tenham muitos sentidos
E não façam sentido algum,
Além daquele
Que não faça sentido
Além dos silêncios da alma.

Ela me disse que tinha medo
De um dia enlouquecer,
Se não fosse o riso,
Se a vida não fosse
A própria síntese da loucura.


II
É preciso ser Beth
Assim como é preciso
Ser forte sendo tão delicada,
É preciso ouvir os próprios passos,
Como se não houvesse
Outra forma de ser ela mesma.

É preciso que os pensamentos
Tenham muitas direções
E não busquem direção nenhuma,
Além daquela
Que não busca direção
Além dos caminhos do ser.

Ela me disse que tinha medo
De um dia se entregar
Se não fosse a dúvida,
Se a vida não fosse
A própria síntese da entrega.


III
É preciso ser Beth
Assim como é preciso
Romper, manter, guardar e mudar,
É preciso dobrar cada esquina,
Como se não houvesse
Outra forma de ser ela mesma.

É preciso que os sentimentos
Tenham muitas explicações
E não tenham qualquer explicação,
Além daquela
Que não tem explicação
Além das luzes do coração.

E ela me disse que tinha medo
De um dia se encontrar
Se não fosse o tempo,
Se a vida não fosse
A própria síntese do encontro.


IV
É preciso ser Beth
Assim como é preciso
Espelhos, labirintos e janelas,
É preciso reinventar cada olhar,
Como se não houvesse
Na vida, no mundo, no tempo,
Na alma, no ser, no coração,
No silêncio, no caminho, na luz,
Outra forma de ser Beth.

(Continua na série de posts “INVENTÁRIOS)

segunda-feira, 3 de março de 2008

IMPERMANÊNCIAS 15


Torta de Aspargos com Gorgonzola

Esta é uma receita bem fácil e gostosa. Para servir com uma salada de folhas verdes, com rúcula e tomate seco, acompanhada por um bom vinho tinto. Eu mesmo inventei a receita experimentando com os ingredientes. Por isso, você também pode tentar variações com o recheio e acrescentar o seu próprio tempero. Afinal, como diz o mestre cozinheiro Auguste Gusteau (Ratatouille), "qualquer um pode cozinhar"...

Aí vai:

Ingredientes:
200 g de aspargos em conserva (aquele branquinho)
100 g de queijo prato
100 g de queijo gorgonzola
30 g de queijo parmesão ralado
500 g de farinha de trigo
200 g de maionese light
200 ml de creme de leite light
1 colher de margarina
1 gema de ovo

Preparo:
Misture a maionese aos poucos com a farinha de trigo até a massa ganhar consistência e se tornar moldável. Essa é a famosa “massa podre”. Pode ser feita também com óleo de soja, canola ou outros óleos comestíveis. Prefiro a maionese light pelo sabor e porque fica mais leve.
Depois da massa pronta, separe dois terços dela e molde no fundo e lados de um refratário de aproximadamente 30 cm. Reserve o restante da massa para cobrir.

Para fazer o recheio, derreta a colher de margarina numa frigideira e frite os aspargos até ficarem dourados e começarem a se desmanchar. Então, adicione o queijo prato e o gorgonzola picados. Quando começarem a derreter, desligue a frigideira e acrescente o creme de leite, mexendo até misturar bem. Adicione sal ao seu gosto.

Despeje o recheio dentro da torta no refratário e feche com o restante da massa. Espalhe a gema do ovo sobre a torta e polvilhe com o parmesão ralado.

Pré-aqueça o forno por 10 minutos e deixe assar por cerca de 30 minutos a 200 graus. Está bom quando a parte de cima estiver dourada. Depois de retirar, deixe esfriar por 10 minutos antes de servir.

O rendimento é para três a quatro pessoas, mas é só aumentar na proporção os ingredientes para servir mais.

Bom apetite!!

domingo, 2 de março de 2008

IMPERTINÊNCIAS 15

Like A Hurricane
Neil Young

Once I thought I saw you
in a crowded hazy bar,
Dancing on the light
from star to star.
Far across the moonbeam
I know that's who you are,
I saw your brown eyes
turning once to fire.

You are like a hurricane
There's calm in your eye.
And I'm gettin' blown away
To somewhere safer
where the feeling stays.
I want to love you but
I'm getting blown away.

I am just a dreamer,
but you are just a dream,
You could have been
anyone to me.
Before that moment
you touched my lips
That perfect feeling
when time just slips
Away between us
on our foggy trip.

You are like a hurricane
There's calm in your eye.
And I'm gettin' blown away
To somewhere safer
where the feeling stays.
I want to love you but
I'm getting blown away.

You are just a dreamer,
and I am just a dream.
You could have been
anyone to me.
Before that moment
you touched my lips
That perfect feeling
when time just slips
Away between us
on our foggy trip.

You are like a hurricane
There's calm in your eye.
And I'm gettin' blown away
To somewhere safer
where the feeling stays.
I want to love you but
I'm getting blown away.

sábado, 1 de março de 2008

INVENTÁRIOS 14


Outrum lugar


(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS)

Beth nunca pensou que sentiria tanta falta da mãe. Apesar de toda a indiferença, das demonstrações de desprezo, do desdém pela sua escolha da faculdade de psicologia e de tantas outras ocasiões em que ela fizera questão de ser desagradável. Apesar de tantas vezes ela ter jogado para cima de Beth toda a frustração de ter largado uma vida própria para se dedicar à família. E apesar das tantas vezes em que a mãe descarregara nela a raiva das amantes que o pai fazia questão de não esconder.
Mas Beth sentiu o baque da morte da mãe. Enquanto as pessoas iam e viam em torno do caixão, ela pensava em tudo o que poderia ter sido. De como seria bom ter tido uma mãe amiga e companheira, com quem pudesse ter dividido segredos, descobertas e dúvidas. De como teria sido bem mais fácil e prazeroso o difícil percurso da adolescência.
Quando a mãe morreu, fazia dois anos que Beth tinha saído da casa dos pais para morar com uma amiga de faculdade. No início, ela sempre ia ver a família nos almoços de domingo, mas, com o passar do tempo, as visitas foram rareando. E agora que ela estava entrando no último ano de faculdade, chegava a passar mais de um mês sem ver os pais.
Mesmo assim, Beth ficou chocada. Mais ainda pela forma como a mãe morrera. Nunca pensara que ela seria capaz de cometer suicídio. Alguém tão apegado à vida e à imagem que os outros faziam dela. Alguém que tinha como seu maior prazer a inveja dos outros, coisa que o dinheiro do pai de Beth sempre ajudava a proporcionar.
O mais irônico de tudo foi que justamente a partir daí é que o suicídio entrou na vida de Beth como uma idéia concreta. Até então, o suicídio lembrava à Beth apenas a morte de sua melhor amiga de infância, Mira. Mas, depois da morte da mãe, passou a fazer parte do seu dia-a-dia.
E isso aconteceu justamente num momento em que ela se sentia fraca e sem sentido. Em que começara a experimentar drogas pesadas com alguns colegas de faculdade e um forte desejo de autodestruição despontava nas suas pequenas atitudes. Não se alimentava direito, não dormia bem, não cuidava dos cabelos e da roupa. Passava dias sem arrumar a cama.
A única rotina era a faculdade, que ela freqüentava numa disciplina quase mecânica, como algo que tem que ser feito sem qualquer questionamento.
Nessa época, as coisas pareciam embotadas e Beth procurava sensações fortes para poder realmente sentir alguma coisa. E de todas as sensações fortes, a mais aguda e a única que parecia ser capaz de vencer o entorpecimento e fazê-la se sentir viva era a dor.
E nesse período, algumas vezes, a dor a fez feliz.


(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS)