O Arthur se foi
Acordei com uma mensagem no celular: "(Luto) O Arthur se foi". Era do Reginaldo Araújo, velho amigo de infância, avisando que nosso amigo Arthur Hagedorn, da cidade de União da Vitória, interior do Paraná, morrera. A última vez que eu vi o Arthur foi entre o Natal e o Ano Novo, quando estive em União e fui visitá-lo no hospital, junto com o Reginaldo. Arthur lutava há cerca de sete anos contra um tumor no cérebro. Quando fizemos a visita ele já não conversava, ficava apenas ali deitado, sedado.
No final, nos conforta pensar que a morte veio como um descanso, para ele e para a família. Mas esse tipo de pensamento só serve de alívio para nós que estamos um pouco distantes. Para a família é sempre a perda daquilo que era e principalmente daquilo que poderia ter sido. Para o próprio Arthur também. Ele tinha pouco mais de 40 anos.
Viagem ao passadoNão pude ir ao enterro. São quase 3 mil quilômetros de Salvador a União da Vitória. Mas, de certa forma, caminhando hoje de manhã pela praia, pude viajar um pouco até lá para me despedir do velho amigo. Pude lembrar dos nossos tempos de adolescência, quando formávamos uma turma, Arthur, Reginaldo, eu, Adalberto (Padeiro) Manfredini, Edson (Canoinhas) Goya e outros tantos amigos. Das festas na Discoteca do Clube Aliança. De quando nos reuníamos na casa da Vana Gulicz ou da Júlia Araújo, junto com a turma toda das meninas e jogávamos baralho, dávamos risada e éramos muito felizes.
Lembro de um dia em que fizemos uma fritada de lambaris. Nós, os garotos, ficamos responsáveis por pescar os peixes e limpar, e as meninas fritariam os lambaris na casa na Vana, onde a turma iria se reunir.
Pescamos quase 100 lambaris e começamos a limpar, até que começaram as brincadeiras bobas de jogar peixe um no outro. O Reginaldo, como sempre, teve a pior idéia: jogar um peixinho dentro da camiseta do outro, nas costas, e dar um tapão em cima.
Disgusting thing!A bagunça foi tanta que caiu um peixe atrás da pia, num vão entre o tampo e a parede. Não havia como tirar de lá. O resultado é que a cozinha da casa da Vana ficou cheirando mal por muitos dias por causa daquele peixe e a mãe dela não deixou a gente ir lá por um tempo. Mas a gente se divertiu muito.
Rei e nuvemE, no meio de toda essa bagunça, o Arthur sempre foi meio quieto, meio na dele. Não falava muito, mas era um companheiro sempre pronto pra tudo. Lembro que as meninas chamavam ele em segredo de "rei", numa referência ao lendário Rei Arthur. E realmente ele era um cavaleiro da Távola Redonda, um grande sujeito, um príncipe no relacionamento com todas as pessoas.
Sempre muito educado, sempre de bom humor, sempre positivo e também quase sempre desligado. O que fazia com que o Reginaldo volta e meia o chamasse de "nuvem", dizendo que ele sempre estava flutuando no céu e não com os pés no chão.
Pois é. E o Arthur se foi.
E agora ele é mais rei e mais nuvem do que nunca.