Exoesqueleto

(Continuação da série de posts “INVENTÁRIOS”)
Nos filmes, desenhos animados, livros, gibis e estórias infantis, Beth sempre achou na imagem da borboleta saindo do casulo a metáfora mais clara da transformação das pessoas. Sempre acreditou nessa situação de metamorfose libertadora, de mudança profunda e avassaladora da alma. Sempre esperou por um momento desses em sua vida. Mas ele nunca veio.
Ela tinha a esperança de que, de uma hora para a outra, mudassem as coisas dentro dela com as quais tinha dificuldade em lidar. Mas ela permanecia sempre a mesma em sua essência com apenas pequenas mudanças. Algumas coisas se atenuavam, outras se salientavam, mas ela continuava sendo a mesma e, fundamentalmente, lutava contra os mesmos problemas. Por mais que o tempo passasse e ela enfrentasse novas situações na vida.
Beth pensava em casulos apertados e na deliciosa sensação que seria finalmente sair dali e abrir as asas ao vento. Na sensação de liberdade, de superação, de evolução e leveza que essa imagem lhe trazia.
E a borboleta era também um ser de beleza reconhecida e admirada por todos. Todas as pessoas gostam de borboletas – pensava Beth – e, depois, ninguém mais lembra que elas, um dia, foram lagartas horríveis.
Certa vez, um amigo jogou para ela as cartas do Tarô. Uma imagem lhe chamou muito a atenção: a da carta do Enforcado. Era um homem amarrado pelo pé, de ponta cabeça. Permanecia imóvel, como quem é apanhado numa armadilha.
Segundo o amigo, era a imagem do sacrifício necessário para se alcançar algo maior. Um sacrifício de angústia e espera, de antecipação e imobilidade, de dor e escuridão, de solidão e desespero, de forca e cruz.
Mas também, segundo o amigo, um sacrifício de superação, o momento necessário que precede a morte e a transformação do ser, a noite escura da alma que antecede o amanhecer.
Por algumas semanas, aquela imagem não saiu da cabeça de Beth e no dia em que Ismael morreu, ela lembrou bastante de O Enforcado. Mas, no cemitério, enquanto todos acompanhavam a cerimônia do enterro, uma outra imagem chamou sua atenção. Era uma casca de besouro. Vazia. Seca. Sendo levada por algumas formigas.
Lembrou das aulas de biologia do segundo grau. Era o exoesqueleto. Tipo de esqueleto de alguns insetos, que fica na parte exterior, diferentemente do que acontece com os animais vertebrados.
É um sistema de proteção muito eficaz contra predadores, intempéries e outros perigos que ameaçam a vida dos pequenos insetos. Um sistema eficaz e praticamente perfeito que possui apenas um senão. Por ser rígido, ele é limitado. Assim, quando o inseto cresce, fica preso em sua própria carapaça, que o impede de se expandir. Então, aquele que foi o seu mais importante mecanismo de proteção, se torna um entrave.
A solução providenciada pela natureza é o abandono do exoesqueleto para que cresça um novo, maior e mais perfeito, e que permita ao inseto evoluir. Mas há um risco: o novo esqueleto, que cresce por baixo do outro, é flexível por ainda um tempo após a perda do antigo. Assim, por um espaço breve de tempo, o inseto fica totalmente vulnerável.
É uma escolha difícil para ele. Abandonar a casca antiga e poder crescer, arriscando-se ao abrir-se pra o mundo, ou ficar limitado e morrer espremido dentro da antiga. De um lado, a segurança e a estagnação, de outro, o risco da dor e a possibilidade de crescer.
Mas a natureza não deixa dúvidas. Os insetos sempre abandonam os exoesqueletos.
Para a alegria das formigas.
(Continua na série de posts “INVENTÁRIOS”)





