sábado, 6 de setembro de 2008

INVENTÁRIOS 48



Exoesqueleto



(Continuação da série de posts “INVENTÁRIOS”)

Nos filmes, desenhos animados, livros, gibis e estórias infantis, Beth sempre achou na imagem da borboleta saindo do casulo a metáfora mais clara da transformação das pessoas. Sempre acreditou nessa situação de metamorfose libertadora, de mudança profunda e avassaladora da alma. Sempre esperou por um momento desses em sua vida. Mas ele nunca veio.
Ela tinha a esperança de que, de uma hora para a outra, mudassem as coisas dentro dela com as quais tinha dificuldade em lidar. Mas ela permanecia sempre a mesma em sua essência com apenas pequenas mudanças. Algumas coisas se atenuavam, outras se salientavam, mas ela continuava sendo a mesma e, fundamentalmente, lutava contra os mesmos problemas. Por mais que o tempo passasse e ela enfrentasse novas situações na vida.
Beth pensava em casulos apertados e na deliciosa sensação que seria finalmente sair dali e abrir as asas ao vento. Na sensação de liberdade, de superação, de evolução e leveza que essa imagem lhe trazia.
E a borboleta era também um ser de beleza reconhecida e admirada por todos. Todas as pessoas gostam de borboletas – pensava Beth – e, depois, ninguém mais lembra que elas, um dia, foram lagartas horríveis.
Certa vez, um amigo jogou para ela as cartas do Tarô. Uma imagem lhe chamou muito a atenção: a da carta do Enforcado. Era um homem amarrado pelo pé, de ponta cabeça. Permanecia imóvel, como quem é apanhado numa armadilha.
Segundo o amigo, era a imagem do sacrifício necessário para se alcançar algo maior. Um sacrifício de angústia e espera, de antecipação e imobilidade, de dor e escuridão, de solidão e desespero, de forca e cruz.
Mas também, segundo o amigo, um sacrifício de superação, o momento necessário que precede a morte e a transformação do ser, a noite escura da alma que antecede o amanhecer.
Por algumas semanas, aquela imagem não saiu da cabeça de Beth e no dia em que Ismael morreu, ela lembrou bastante de O Enforcado. Mas, no cemitério, enquanto todos acompanhavam a cerimônia do enterro, uma outra imagem chamou sua atenção. Era uma casca de besouro. Vazia. Seca. Sendo levada por algumas formigas.
Lembrou das aulas de biologia do segundo grau. Era o exoesqueleto. Tipo de esqueleto de alguns insetos, que fica na parte exterior, diferentemente do que acontece com os animais vertebrados.
É um sistema de proteção muito eficaz contra predadores, intempéries e outros perigos que ameaçam a vida dos pequenos insetos. Um sistema eficaz e praticamente perfeito que possui apenas um senão. Por ser rígido, ele é limitado. Assim, quando o inseto cresce, fica preso em sua própria carapaça, que o impede de se expandir. Então, aquele que foi o seu mais importante mecanismo de proteção, se torna um entrave.
A solução providenciada pela natureza é o abandono do exoesqueleto para que cresça um novo, maior e mais perfeito, e que permita ao inseto evoluir. Mas há um risco: o novo esqueleto, que cresce por baixo do outro, é flexível por ainda um tempo após a perda do antigo. Assim, por um espaço breve de tempo, o inseto fica totalmente vulnerável.
É uma escolha difícil para ele. Abandonar a casca antiga e poder crescer, arriscando-se ao abrir-se pra o mundo, ou ficar limitado e morrer espremido dentro da antiga. De um lado, a segurança e a estagnação, de outro, o risco da dor e a possibilidade de crescer.

Mas a natureza não deixa dúvidas. Os insetos sempre abandonam os exoesqueletos.

Para a alegria das formigas.

(Continua na série de posts “INVENTÁRIOS”)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 48

Mitos sobre os jornais


O jornalista espanhol Javier Errea, um dos principais designers de jornais do mundo na atualidade, enumera o que ele considera dez mitos da atualidade sobre o tema. Em sua apresentação no 7° Congresso da Associação Nacional de Jornais (ANJ), em agosto passado, em São Paulo, ele fez uma apresentação interessante sobre o tema, argumentando contra alguns dos paradigmas na área. Os mitos enumerados por Errea, que é presidente da SND - Society for News Design, são os seguintes (já com as respostas dele):

1) Os diários de papel estão morrendo
- É possível tomar uma aspirina e ficar adiando o fim ou procurar soluções que realmente dêem uma sobrevida aos jornais

2) Os jornais vão se tornar cada vez menores
- Isso é muito mais o comodismo das empresas e corte de custos, do que vontade do leitor

3) Os jovens não querem pagar por jornais
- Os jovens hoje têm mais dinheiro do que nunca. Mas eles só pagam pelo que efetivamente desejam

4) O futuro é digital, segmentado e dirigido por demanda
- E quanto à nossa missão básica de fazer jornalismo?

5) Os leitores decidem tudo
- Para fazer jornalismo é preciso tomar muitas decisões pelo leitor, antecipar seus questionamentos e surpreendê-lo positivamente

6) Jornais precisam de mais páginas e promoções
- Os diários cheios de páginas estão matando a si mesmos. E, afinal, queremos promoções para vender jornais ou jornais para vender promoções

7) As pessoas não gostam de ler
- Quantas páginas tem um livro de Harry Potter?

8) Temos que ir devagar nas novidades para não assustar o leitor
- Nós realmente conhecemos nossos leitores? Na realidade, somos muito conservadores

9) Novos formatos de publicidade não afetam a marca do jornal
- A publicidade já atravessou uma linha perigosa e que representa sim riscos para a marca

10) Tudo se resolve com o redesign de jornais
- Isso é uma febre, os consultores estão tirando a personalidade dos jornais

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

IMPERMANÊNCIAS 48


Soneto XVII

Pablo Neruda

No te amo como si fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y el alma

Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra

Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo porque no sé amar de otra manera

sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.

domingo, 31 de agosto de 2008

INVENTÁRIOS 47


Paroxismo





(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")

Na faculdade, Beth se apaixonou, certa época, por Freud. A visão fria e mecanicista do pai da psicanálise trazia para Beth um certo conforto em um mundo tão cheio de incertezas. Embora complexa e difícil de ser alcançada, a felicidade parecia algo matemático e possível na busca do equilíbrio de forças proposto por Freud.
- Pode demorar um tempão - pensava Beth - mas é possível. E se não der certo, pelo menos a gente sabe porque.
Na interprestação que Beth fazia das suas leituras de Freud, a infelicidade humana provinha de três fontes básicas.
A primeira, era porque o ser humano não consegue controlar a natureza ao seu redor, que é mais forte do que ele. E isso frusta seus desejos. E o frustra.
A segunda fonte seria o tempo cruel, que avança sem a menor possibilidade de ser detido. E o corpo humano decai, adoece e morre. E o ser humano sabe disso e nada pode fazer para controlar essa marcha.
E a terceira fonte seria a alteridade. A existência do outro como ser auto-consciente, individualizado e diferente. Um outro que não pode ser controlado, que nos contraria e decepciona.
Beth gostava dessa definição mas achava que faltava ainda uma fonte de infelicidade a ser citada. Para ela, a incapacidade de controlar a si mesmo seria a quarta e definitiva fonte de infelicidade do ser humano. E, na opinião dela, a maior fonte de frustração também.

(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS")

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

IMPERMANÊNCIAS 47


Novo Portal


Já está no ar o novo portal do A TARDE ON LINE. Ficou bacana. Bem mais moderno, mais fácil de ler e com muito mais serviços. Mais chamadas, mais funcionalidade, mais vídeos, mais ferramentas, mais blogs, mais tudo. Valeu o esforço da galera.


quinta-feira, 28 de agosto de 2008

IMPERTINÊNCIAS 47


Fragmento da canção 129

Francesco Petrarca

Ove porge ombra un pino alto od un colle
talor m'arresto, et pur nel primo sasso
disegno co la mente il suo bel viso.
Poi ch'a me torno, trovo il petto molle
de la pietate; et alor dico: Ahi, lasso,
dove se' giunto! et onde se' diviso!
Ma mentre tener fiso
posso al primo pensier la mente vaga,
et mirar lei, et oblïar me stesso,
sento Amor sí da presso,
che del suo proprio error l'alma s'appaga:
in tante parti et sí bella la veggio,
che se l'error durasse, altro non cheggio.
Onde deita sombra um alto pinheiro, ou numa colina
às vezes eu paro e na primeira pedra
desenho com a mente o seu lindo rosto.
Quando volto a mim, tenho o peito encharcado
de lágrimas de ternura; e então digo: – Infeliz!
em que estado te achas! e de que te separaste!
Mas enquanto posso guardar fixo
no primeiro pensamento a mente errante,
e mirá-la e esquecer-me de mim,
sinto o Amor tão perto,
que do seu próprio engano a alma se contenta:
em tantas partes eu assim bela a vejo,
que se o erro durasse, outro não quereria.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

INVENTÁRIOS 46


Igbó Ikú




(Continuação da série de posts “INVENTÁRIOS”)


Ismael sempre dizia que iria morrer no mar. Que seria doce, como nos versos de Dorival Caymmi. Mas ele adorava barcos e sempre sobreviveu ao mar. Um acidente de carro é que acabou levando Ismael.
Uma coisa boba. Um sinal que acaba de fechar e alguém tenta aproveitar o último segundo. E por causa de um único segundo, uma coincidência absurda, algo que não aconteceria um segundo antes ou um segundo depois, acaba acontecendo.
Teve velório, missa e enterro. Todas aquelas coisas que sempre tem. Aquelas coisas que Beth e Ismael sempre detestaram e diziam que jamais passariam por isso. Mas os pais de Ismael queriam e Beth não teve forças para discutir isso.
Depois do enterro, foi para casa. Queria parar de pensar em tudo. Resolveu ir para a internet, dar uma olhada nos perfis das comunidades virtuais de que participava. Começou com o Hi5. Achou que não tinha a ver com ela e apagou tudo.
Depois veio o Orkut, Facebook e finalmente o My Space. Apagou os fotos do Flickr e os vídeos do You Tube. Saiu do Del.icio.us, exterminou seu avatar no Second Life e deletou milhares de e-mails arquivados, endereços, contatos do MSN e Google Talk, músicas e textos.
Deletou cada uma dessas coisas como se fossem as lembranças de quem ela era é que causassem dor. Apagou tudo, devagarzinho. E sentiu algum alívio. Por pouco tempo.
Na verdade, Beth queria mesmo era se dissolver assim, se apagar, se diluir nos bilhões de bytes de informação da internet. Mas nem tudo pode ser deletado assim. Não dá para reestartar a máquina, nem reformatar o HD. O disco continua girando. Sem parar.

(Continua na série de posts “INVENTÁRIOS”)