Crônica de uma reportagem imaginária
(ficção)

Era uma pauta de reportagem como outra qualquer. Deveria ser, ao menos. Mais uma matéria sobre a seca, esse problema crônico que assola muitos lugares do Nordeste.
A história girava em torno do fato de que no sertão da Bahia a seca chega a durar ciclos de seis, sete, até oito anos. Com isso, muitas crianças que nasceram nesse período, nunca viram a chuva.
Eu deveria ir lá, conversar com as crianças e as famílias. Depois, escolher alguna dos pequenos entrevistados e levar até Salvador, junto com os pais, para que eles tivessem contato com a chuva pela primeira vez. E, por fim, descrever a experiência para os leitores.
É o que a gente chama no jornal de reportagem humana. Um certo sentimentalismo que eu, particularmente, já não tenho mais, mas que as pessoas gostam de ler. Faz muito tempo que eu já não me emociono com essas coisas. Mas, sei lá, são os ossos do ofício.
Em Salvador, onde eu nasci, a chuva é algo comum. Chega a ser flagelo, às vezes, derrubando morros, matando gente.
Seu João, dona Zeni, e os meninos, Nino e Lia são uma família comum de Macucuré, cidadezinha do Raso da Catarina, sertão baiano. Família igual a tantas outras. Morando numa casinha de pau-a-pique, num sitiozinho pobre, sem água e com a lavoura toda seca. Algumas cabras e um pouco de mandioca são toda a riqueza que eles têm.
As crianças nunca viram a chuva. Nino tem seis anos e Lia tem cinco. Os pais falam da chuva. Da tão esperada chuva. Mas os dois pequenos nem imaginam como faz para a água cair do céu.
Eu nunca senti falta da chuva, na realidade, ficava muito chateado quando ela vinha de repente e atrapalhava as brincadeiras, estragava a praia, interrompia o baba.
Já na estrada, cheio de expectativa no coração, Nino dá vazão às suas especulações metafísicas:
- Moço, é Deus quem fez a chuva?
- Acho que sim...
- Então Deus não gosta da gente daqui de Macucuré.
Não sei como responder a isso. Poderia explicar o fenômeno cientificamente, mas, no fim, daria tudo no mesmo. É pura filosofia para um garoto de seis anos. Aliás, é para mim também, já que nunca acreditei muito nesse negócio de meteorologia.
Na realidade, já faz algum tempo que eu perdi o interesse por discussões filosóficas, ideológicas ou o que seja. Já não me preocupo mais.
Vejo hoje os garotos saindo da faculdade e chegando às redações sem manifestar qualquer interesse pela coletividade. Acho que é sinal dos tempos. O Renascimento tirou Deus do Centro do Universo e colocou o homem. A modernidade tirou a humanidade dali. E o que veio no lugar? O eu, a tecnologia, o dinheiro, nada? Acho que a única diferença entre mim e os garotos da faculdade é que eu sinto falta de acreditar em alguma coisa. Acho que eles não.
Sinto cheiro de pó, cheiro de chuva chegando. E lembro de quando era criança. Da excitação que esse cheiro dava. A criançada saía correndo do campo de futebol. Ia cada um para a sua casa, se esconder da chuva.
Estamos no meu jardim, Nino, Lia e eu. Seu João e dona Zeni estão lá dentro, olhando através da grande porta de vidro aberta. Eles sabem o que é chuva. Não há novidade para eles.
Eu gostava de ir para o meu quarto e ouvir, deitado no escuro, de janelas fechadas, o tamborilar dos dedinhos da chuva nas telhas de barro. Uma sinfonia que começava com algumas notas e depois ia num crescendo, enchendo tudo com seu chiado sinfônico imenso.
Um relâmpago rachou o céu. Logo vem o estrondo, pensei. As crianças estão maravilhadas. Parece até que sentem a chuva chegando.
Vem para mim, muito forte, a lembrança de um dia em especial. Eu tinha mais ou menos a idade de Nino. Nesse dia, a chuva me pegou lá fora no meio da brincadeira. Entrei correndo em casa e deixei um rastro de barro e pingos d´água pela casa.
Como eu sempre fazia, fui para o meu quarto, para ouvir a trovoada e o cantar da chuva no telhado. Estava nesse idílio de sensações, quando a sombra de meu pai surgiu na porta do quarto. Senti que ele estava muito zangado.
Trovão.
Senti o rosto queimar com o tapa. O barulho foi alto e o rosto dói, assim como aperta o coração pela violência inesperada. Não levantei os olhos. Sabia que o olhar de reprovação dele ia doer muito mais.
Mas o pior veio depois. Comecei a chorar e o braço subiu no ar novamente em tom de ameaça.
-Homem não chora. Não chora, ouviu. Não chora.
Engoli o choro. Engoli as lágrimas. Entendi a mensagem.
As crianças estão encantadas com tudo, principalmente com o fato de que há água em todo lugar aqui em Salvador. O mar tão grande, os rios, as torneiras jorrando. Não viram ainda a chuva, mas estão muito admiradas. E eu comento:
-A gente mesmo é feito de água...
-Num pode, não, moço. Se tivesse água dentro da gente, a gente num passava sede, né?
Mais uma vez eu me esquivo de confrontar a inocência com dados científicos. Para falar a verdade, eu também nunca entendi muito bem isso de 70% de água no organismo, mesmo.
As árvores tremem sob o vento. Folhas voam para lá e para cá. A chuva vem chegando, os primeiros pingos grossos caem no chão. Vão formando estrelas na calçada. Sinto a chuva mais próxima. Dou dois passos e estou abrigado. Mas ainda bem próximo das crianças, que olham para as nuvens se contorcendo no céu.
É um milagre para elas. Ver o mar pela primeira vez é uma experiência de impacto para qualquer um. Mas o mar, apesar da imensidão, ainda obedece à lógica. É um imenso reservatório de água no chão.
A chuva não. A chuva é água que cai do céu. Vem de onde não se espera e a lógica simples das crianças não explica. É milagre.
Chove mais forte. As crianças começam a dançar sob a água que cai. Riem, pulam e correm sem direção. Os pais, lá dentro, sorriem e se olham.
Sinto uma mãozinha segurando na minha. As duas crianças continuam dançando na minha frente. A mãozinha é de um menino de seis anos que eu não vejo há muitos anos. Que eu perdi em algum lugar.
Um relâmpago. Sinto mais perto. Sei que já não vou conseguir segurar.
Vejo o menino deitado no quarto escuro. Ele adora a chuva.
Rosna o trovão. Sinto a chuva por dentro.
Nino pára na minha frente e me olha. Chama a atenção da menina e aponta para o meu rosto.
- Ói, Lia, o moço tinha razão. Tem água dentro da gente mesmo.
Wilson Gasino