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sexta-feira, 18 de abril de 2008

IMPERMANÊNCIAS 28

A Vida dos Outros

Manu Sombra já tinha me indicado há várias semanas, mas só no último domingo eu finalmente fui ver A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen), que está passando na Sala de Arte – Aliança Francesa. Muito bom. Interessante e angustiante.


O filme mostra um casal - um escritor e uma atriz - sendo vigiado pela polícia política socialista, a Stasi, da antiga Alemanha Oriental dos anos 80 do século passado. Era o período pré-queda do Muro de Berlim, quando a vigilância se tornou mais rígida porque as fugas e vazamentos de informação aumentavam a cada dia.
É um thriller psicológico interessante que mostra as fraquezas e idiossincrasias de qualquer regime totalitarista e como o poder acaba - pela força ou pela insistência - dobrando os seres humanos, para o bem ou para o mal.



Apesar de parecer coisa do passado, pertencente aos regimes totalitários de esquerda e direita do Século XX, esse tema não está tão distante assim do nosso dia-a-dia. Os mecanismos de controle são diferentes, muito mais sutis, mas, infelizmente, eles persistem.

O mais interessante desse tipo de processo é que, quase sempre, aquele que é controlado, em algum momento, permitiu o acesso de quem o vigia. Em algum momento abriu mão da sua liberdade e privacidade em nome de algo que considerava mais importante. No fundo, abriu mão da responsabilidade sobre as próprias decisões, deixando-se levar por um belo discurso, uma promessa, uma comodidade, um prazer momentâneo, um benefício financeiro ou qualquer coisa assim.

Em muitos casos, isso também acontece pelo mecanismo inverso. Porque se acredita estar protegido de algo que seja uma ameaça maior. E o medo nunca é um bom conselheiro no longo prazo.

O que mais impressiona a gente é que vez ou outra surge algum imbecil elogiando tempos de ditadura e controle no Brasil, esquecendo de toda a carnificina, medo, tortura, silêncio, desmandos, invasões de privacidade, corrupção, abuso de poder e injustiça.

Isso me lembra a letra daquela música “Toda Forma de Poder” dos Engenheiros do Hawaii:

“Toda Forma de Poder”

“Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada
Fidel e Pinochet tiram sarro de você
Que não faz nada e eu
Começo a achar normal que algum boçal
Atire bombas na embaixada

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Toda forma de poder
É uma forma de morrer por nada
Toda forma de conduta
Se transforma numa luta armada
A história se repete
Mas a força deixa a estória mal contada

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
O fascismo é fascinante
Deixa a gente ignorante e fascinada
É tão fácil ir adiante
E esquecer que a coisa toda tá errada
Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada”

Humberto Gessinger