sexta-feira, 11 de abril de 2008
IMPERMANÊNCIAS 26
Christopher Morley
Tendo nascido companheiro dos pássaros,
Das feras e das abelhas,
E inconsciente de ti mesmo como as árvores...
Exultante explorador de cada sentido
Sem desânimo, sem fingimento...
Em teus inexperientes olhos transparentes
Não existe consciência nem surpresa
- Aceitas os estranhos enigmas da vida
Tua estranha Divindade ainda presente...
Houve dias, ó doce elfo,
Em que foste a própria poesia
terça-feira, 8 de abril de 2008
IMPERTINÊNCIAS 26
Mensagem
Alexandre Bowen
Rir é arriscar parecer tolo.
Chorar é arriscar parecer sentimental.
Tentar alcançar alguém é arriscar envolvimento.
Expor sentimentos é arriscar rejeição.
Expor seus sonhos perante a multidão é arriscar parecer ridículo.
Amar é arriscar não ser amado de volta,
Seguir adiante face a probabilidades irresistíveis é arriscar ao fracasso,
Apenas uma pessoa que corre riscos é livre.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
INVENTÁRIOS 25
Escaninhos

(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")
Durante a faculdade de Psicologia, Beth começou a fazer terapia. Passou por vários terapeutas, buscando sempre abordagens e estilos diferentes. Em algumas vezes, foi bastante divertido. Em outras, simplesmente não gostou. Com alguns terapeutas, aprendeu muitas coisas sobre si mesma, com outros, perdeu tempo. Mas o saldo era sempre positivo.
A terapeuta de quem mais gostou foi Paula, com quem começou a ter sessões algumas semanas depois de ter cortado os pulsos. Paula era bastante jovem, quase da idade de Beth. Era tranqüila, tinha um jeito meio alternativo e, para muitos pacientes, deveria parecer uma maluca. Mas Beth gostou da terapia com ela desde o primeiro encontro.
Uma das coisas que mais chamaram a atenção de Beth, entre as coisas que Paula dizia, era sobre a “integração da psique”. Conceito que Beth já conhecia da faculdade, mas que nunca tinha visualizado para si mesma.
Paula usava a figura de escaninhos e gavetas:
- É como se você tivesse um monte de escaninhos e vai aguardando cada coisinha no seu lugar. E tem também as gavetas, onde você guarda aquelas coisas em que não quer mexer com freqüência ou quer deixar meio escondidas. Está tudo lá: tudo bem divididinho, bem separadinho. Cada coisa no seu lugar.
- E qual é o problema com isso?
- O problema é que a sua vida é um monte de pedacinhos separados. Você é um monte de pedacinhos de pessoa e não sabe como juntar isso.
- Juntar?
- É. As coisas não se misturam, não se fundem, não se enriquecem.
- Não sei como isso funciona?
- Funciona assim: você, no trabalho, é um pedacinho de você. No amor, é um pedacinho de você. Na vida social, idem. No seu lado criativo, idem. E por aí vai.
- E daí?
- E daí é que é tudo pequeno. Nada é grande, nada é pleno. Você nunca vive um grande amor. Mas pequenos amores. Casos, se você preferir. E, no trabalho, vai fazendo coisas pequenas aqui e ali. Está feliz com sua vaga na área de recrutamento e seleção de uma empresa de pequeno porte. Não pensa em clinicar, em aprofundar estudos, nada assim. Tudo é pequeno. Pequenas tarefas. Pequenos desafios. Pequenas conquistas.
- Eu sinto isso. Mas não sinto vontade de nada grande.
- Não caberia mesmo. Com tantas gavetas e escaninhos, como você poderia aspirar a algo maior? - Mas por que é que isso acontece?
- Foi uma forma que você encontrou de se viver a vida com segurança, de correr menos riscos, de controlar tudo. Você sabe sempre até onde as coisas vão.
- Mas isso não é bom?
- Bom? Pode ser. Mas pode ser medíocre também. Você nunca vai viver nem fazer nada grande. Nunca vai viver nada pleno e profundo no seu ser. Nunca com toda a sua alma. Pequenas dores. Pequenos prazeres. Pequenos esforços. Pequenas conquistas.- E o que eu faço?
- Se livre de todos esses escaninhos e essas gavetas.
- Como?
- Você é que vai me dizer...
(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS")
domingo, 6 de abril de 2008
IMPERMANÊNCIAS 25
Amor de Índio
Beto Guedes

Tudo que move é sagrado
abelha fazendo o mel
vale o tempo que não voou
sábado, 5 de abril de 2008
IMPERTINÊNCIAS 25
Tenha medo!

Certa vez, uma terapeuta me disse que as coisas das quais mais temos medo são as que, no inconsciente, mais desejamos. Achei muito profundo e me pareceu aplicável em certas questões psicológicas. Mas a generalização dessa idéia logo me pareceu absurda: fiquei imaginando uma senhora desejando ardentemente uma barata ou um rato aparecerem ou coisa que o valha. Não dá.
Mesmo assim, o medo, essa emoção ancestral, nos permite especular uma série de questões reveladoras sobre as pessoas. Dias atrás, descobri um anjo lindo que tem medo de escuro. Já vi também mulheres muito seguras que tremiam frente a uma inofensiva mariposa e marmanjos inteligentes que se borravam com medo de falar em público. O medo nada tem de racional e está ligado diretamente ao que temos de mais ancestral: lutar ou correr.
Li um texto de Stephen King, prefácio do Drácula de Bram Stoker, em que ele diz que os medos retratam os tempos em que vivemos. Cita como exemplo o fato de em Drácula todos os temores estarem voltados ao misticismo e aos impulsos emocionais, enquanto as soluções vem da ciência de Van Helsing. É um retrato do tempo positivista em que foi escrito.
Já no Frankenstein de Mary Shelley, o medo é do exagero da ciência, a crença de que o homem pode conquistar tudo com o saber, de que pode até desafiar o divino, brincar de deus. O livro foi escrito justamente no período anterior ao da Revolução Industrial, quando a virada de pensamento se anunciava e havia temor sobre até onde a ciência poderia levar o homem.
O interessante, lembra King, é que vivemos hoje um tempo parecido com o de Shelley: medo de máquinas, medo de onde iremos parar com tudo isso. Dúvidas? Dá uma olhada nos filmes de ficção e terror: máquinas que dominam o mundo, matrix e coisas afins. O mundo dá voltas e o medo também.
A propósito, recebi nas mãos, vindo de Simone Ribeiro, o livro "Você tem medo de quê? - Fobias modernas". O autor, o jornalista/músico/escritor inglês Tim Lihoreau, faz um exercício humorístico interessante sobre quais são os novos medos das pessoas nos nossos tempos. São sacadas engraçadas mas que, ao mesmo tempo, fazem a gente se identificar. Vou dar alguns exemplos:
- Abcelofobia - Medo de sair de um reservado de banheiro - A fobia, no caso é de sair do reservado e encontrar alguém conhecido no banheiro que se espante com o, digamos, mal-cheiro.
- Agmenofobia - Medo de entrar na fila errada - Lembro de estar certa vez numa longa fila de cinema (acho que era para ver "Diários de Motocicleta") e de um sujeito ter perguntado oito vezes se aquela era a fila para a sala 8, para o horário das 20h, para o filme certo etc.
- Alterdissemofobia - Medo de estar perdendo alguma coisa em outro canal - Esse realmente não requer explicações.
- Aperepipofobia - Medo de abrir e-mails - ?????????????
- Cetusermofobia - Medo de call-centers - Esta eu não vou estar explicando para você estar entendendo...
- Excirculofobia - Medo de não ser escolhido - Quem é que já não morreu de medo de ficar de fora do jogo de futebol, queimada, volley ou qualquer outra brincadeira por não ser escolhido no par ou ímpar. Tem gente que tem trauma de infância disso. Mas não é nada grave.
- Hebdomofobia - Medo das noites de domingo - É Fantástico! Acredito que aquela musiquinha causa arrepios em muita gente. Em mim, por exemplo, é baixo astral mesmo.
São dezenas de medos. Quem se interessar, pode dar uma olhada no livro. É passatempo, mas pode fazer a gente pensar nos novos medos, como por exemplo o medo de ter escrito um post ridículo, ou longo demais, ou os dois, sei lá...
quarta-feira, 2 de abril de 2008
INVENTÁRIOS 24
Teias de aranha

(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")
Foi durante a gravidez de Beth que a mãe dela descobriu sobre a amante do pai. Ela não sabia antes. Talvez não quisesse saber e nem ao menos se permitisse suspeitar para que nada atrapalhasse aquela imagem de felicidade que ela gostava de vender para os outros.
Mas, durante a gravidez de Beth, ela não pode mais negar. Viu com seus próprios olhos. Sentiu na carne. Sentiu na alma. Culpou o corpo inchado. A barriga grande. O ventre prenho. Culpou alguém que nem ao menos havia ainda nascido.
Era como se aquela pequenina mulher dentro dela fosse a culpada de todos os seus males. Da perda do macho. Da perda do estatus. Da vergonha. Da ferida no ego. Da dor sentida. Do abandono como fêmea.
À noite, fazia planos de tirar a criança, rogava pragas, ameaçava, maldizia, chorava e lamentava. Nada parecido com a gravidez do filho mais velho, Ricardo. Uma gravidez amada e festejada.
Quando Beth nasceu, não a quis ver. Pouco pegou no colo. Não deu de mamar e cuidou descuidando. Deixou que a mãe, Dona Helena, e a babá cuidassem. Pensaram que era depressão pós-parto.
O pai não tinha tempo. Muito trabalho. E a amante. Definição genérica para um rol de mulheres que foram se sucedendo no tempo.
Beth talvez nunca tenha compreendido essa rejeição de forma consciente. Mas sentia. Sempre sentiu. O ódio da mulher e o desprezo do homem. Sempre.
(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS")
IMPERMANÊNCIAS 24
Bevabbè
Inteligente e muito engraçada. Bevabbè é a peça que a atriz italiana (hoje baiana) Dodi Conti está encenando no Teatro XVIII. Ela já fazia sucesso na Itália. Fazia teatro, TV e cinema e um dia veio curar um coração machucado aqui na Terra de Todos os Santos. Ficou. E trouxe na mala seu talento, seu texto e seu tempo excelente de comédia.Bevabbè quer dizer, em italiano, algo como “assim é demais”. A peça, sinal das mudanças profundas nas discussões sobre a sexualidade nos nossos tempos, fala de uma mulher homossexual que deseja voltar a ser heterossexual. Suas aventuras, decepções e surpresas são contadas de forma engraçadíssima por Dodi. E levam a gente a pensar muito sobre como andam as cabeças dos homens e mulheres atualmente, seja lá qual for a sua opção ou não-opção.
A peça fica em cartaz até o final do mês de abril, sempre nas quintas e sextas-feiras, às 20h. Os dias são os seguintes: 3 e 4, 10 e 11, 17 e 18, e 24 e 25 de abril. O ingresso é baratinho: R$ 4,00 reais e garante muitas risadas.
Um detalhe: o sotaque mezzo-italiano é uma cereja no bolo.
Detalhe 2: a visão que ela mostra dos homens heterossexuais na peça é horrível. Saí de lá imaginando que nós somos algum tipo de monstrengo. Bom pra rir e refletir um pouco.
