Tenha medo!

Certa vez, uma terapeuta me disse que as coisas das quais mais temos medo são as que, no inconsciente, mais desejamos. Achei muito profundo e me pareceu aplicável em certas questões psicológicas. Mas a generalização dessa idéia logo me pareceu absurda: fiquei imaginando uma senhora desejando ardentemente uma barata ou um rato aparecerem ou coisa que o valha. Não dá.
Mesmo assim, o medo, essa emoção ancestral, nos permite especular uma série de questões reveladoras sobre as pessoas. Dias atrás, descobri um anjo lindo que tem medo de escuro. Já vi também mulheres muito seguras que tremiam frente a uma inofensiva mariposa e marmanjos inteligentes que se borravam com medo de falar em público. O medo nada tem de racional e está ligado diretamente ao que temos de mais ancestral: lutar ou correr.
Li um texto de Stephen King, prefácio do Drácula de Bram Stoker, em que ele diz que os medos retratam os tempos em que vivemos. Cita como exemplo o fato de em Drácula todos os temores estarem voltados ao misticismo e aos impulsos emocionais, enquanto as soluções vem da ciência de Van Helsing. É um retrato do tempo positivista em que foi escrito.
Já no Frankenstein de Mary Shelley, o medo é do exagero da ciência, a crença de que o homem pode conquistar tudo com o saber, de que pode até desafiar o divino, brincar de deus. O livro foi escrito justamente no período anterior ao da Revolução Industrial, quando a virada de pensamento se anunciava e havia temor sobre até onde a ciência poderia levar o homem.
O interessante, lembra King, é que vivemos hoje um tempo parecido com o de Shelley: medo de máquinas, medo de onde iremos parar com tudo isso. Dúvidas? Dá uma olhada nos filmes de ficção e terror: máquinas que dominam o mundo, matrix e coisas afins. O mundo dá voltas e o medo também.
A propósito, recebi nas mãos, vindo de Simone Ribeiro, o livro "Você tem medo de quê? - Fobias modernas". O autor, o jornalista/músico/escritor inglês Tim Lihoreau, faz um exercício humorístico interessante sobre quais são os novos medos das pessoas nos nossos tempos. São sacadas engraçadas mas que, ao mesmo tempo, fazem a gente se identificar. Vou dar alguns exemplos:
- Abcelofobia - Medo de sair de um reservado de banheiro - A fobia, no caso é de sair do reservado e encontrar alguém conhecido no banheiro que se espante com o, digamos, mal-cheiro.
- Agmenofobia - Medo de entrar na fila errada - Lembro de estar certa vez numa longa fila de cinema (acho que era para ver "Diários de Motocicleta") e de um sujeito ter perguntado oito vezes se aquela era a fila para a sala 8, para o horário das 20h, para o filme certo etc.
- Alterdissemofobia - Medo de estar perdendo alguma coisa em outro canal - Esse realmente não requer explicações.
- Aperepipofobia - Medo de abrir e-mails - ?????????????
- Cetusermofobia - Medo de call-centers - Esta eu não vou estar explicando para você estar entendendo...
- Excirculofobia - Medo de não ser escolhido - Quem é que já não morreu de medo de ficar de fora do jogo de futebol, queimada, volley ou qualquer outra brincadeira por não ser escolhido no par ou ímpar. Tem gente que tem trauma de infância disso. Mas não é nada grave.
- Hebdomofobia - Medo das noites de domingo - É Fantástico! Acredito que aquela musiquinha causa arrepios em muita gente. Em mim, por exemplo, é baixo astral mesmo.
São dezenas de medos. Quem se interessar, pode dar uma olhada no livro. É passatempo, mas pode fazer a gente pensar nos novos medos, como por exemplo o medo de ter escrito um post ridículo, ou longo demais, ou os dois, sei lá...
