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sexta-feira, 14 de março de 2008

INVENTÁRIOS 18


Paralelos

(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")


Com a cabeça deitada sobre o peito de Ismael, Beth ouve o bater rápido do coração dele, que, aos poucos, vai desacelerando. O corpo quente e suado relaxa depois dos momentos de explosão de tensão e delícia, e vai entrando num torpor leve e delicado. A voz grave e ritmada de Ismael, divagando, faz Beth mergulhar ainda mais na sensação de relaxamento.
- O tempo parece parar nesses momentos – diz Beth – parece que só existimos nós dois e não tem mais nada lá fora.
- O tempo é uma construção relativa – responde Ismael.
- Eu não entendo nem como funciona um relógio, quanto mais essas coisas de relatividade.
- Mas têm um pouco de poesia nessas coisas todas. Veja, por exemplo, a teoria dos mundos paralelos.
- Isso parece coisa de Jornada nas Estrelas.
- É um negócio interessante e faz muito sentido.
- Hmmmm. Pra mim, não.
- A física quântica foi mergulhando cada vez mais fundo no mundo das partículas subatômicas até chegar nos quanta, que são as quantidades menores de energia que nós conseguimos medir. E os quarks, que são as menores partículas que pudemos observar. Acontece que, nesse nível, esses elementos se comportam ora como partícula, ora como energia. Um exemplo é o fóton, que é a partícula da luz, mas que também é onda. Ou seja, ao mesmo tempo matéria e energia.
- Quark, pra mim, são aqueles caras ultra-religiosos americanos, como aqueles da caixa de aveia.
- Aqueles são os quakers.
- É, tem razão. Eu nunca gostei de aveia, mesmo.
- O fato é que os cientistas fizeram várias experiências sobre essas coisinhas e elas estão sempre mudando de forma, de lugar e de direção do movimento. Em cada medição, elas eram partícula ou onda e estavam num lugar diferente, indo numa direção diferente. A impossibilidade de determinar a posição e a direção da partícula ao mesmo tempo é que gerou o famoso “Princípio da Incerteza” de Werner Heinsemberg. E, assim, alguns físicos acabaram chegando à conclusão de que realmente essas coisinhas minúsculas são as duas coisas ao mesmo tempo, partícula e onda, têm probabilidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo e de se deslocar para todos os lugares ao mesmo tempo.
- Nossa. Isso é surreal.
- Pois é. Mas isso explica porque os átomos, sendo feitos quase que só de nada, ou seja, a porção de matéria deles é ínfima em relação à órbita dos elétrons, e, mesmo assim, um não penetra no outro. Como a probabilidade da partícula-energia é estar em todos os lugares ao mesmo tempo, é como se a gente batesse numa coisa sólida.
- Interessante.
- E tem mais. Se a probabilidade é de que elas estejam em todos os lugares, o mundo tem infinitas possibilidades... E há infinitas possibilidades de mundos...
- Passei...
- É o seguinte: pense que uma leve mudança na posição de uma partícula dessas gera um mundo novo. Então, temos infinitos mundos diferentes. Pode haver um mundo em que nós não estamos aqui, nessa cama, juntos. Outro em que não fizemos amor há meia hora atrás. Outro em que brigamos. Outro em que somos dois homens. Outro em que somos uma pessoa só, ou somos três, dez, cem, mil.
- Entendi. São infinitas possibilidades e, também, infinitos mundos possíveis. Paralelos.
- Existe até uma experiência teórica chamada de suicídio quântico.
- Suicídio quântico? Nossa.
- Eles pensaram num cara tentando suicídio, tendo na mão um revólver que disparasse a bala apenas quando a medida da carga do quark, que é o que determina a direção do movimento dele, fosse negativa. Assim, quando o sujeito tentasse se matar, se a medida da carga fosse positiva, a arma fazia click, mas ele não morria. Se a carga fosse negativa, a bala saía e ele passava desta pra melhor.
- E aí?
- E aí que a cada vez que ele puxava o gatilho, a carga dava positiva e dava negativa também. Assim, o tempo se dividia em dois, seguindo num paralelo que, logo adiante se dividia em dois novamente e assim por diante. E sempre havia um sujeito morto e outro paralelo que sobrevive.
- Isso é coisa de maluco.
- Sem dúvida.
- Você fica mesmo pensando nessas coisas o tempo todo ou é só quando você tem algum problema muito sério.
- Não, eu gosto mesmo dessas coisas. Me faz bem, pensar nisso. E eu acho bonito. Tem até a teoria das cordas, que é quase música.
- O universo é feito de música. Taí, essa eu gostei mais.
- E nós somos feitos de que música?
- Que tal Across the Universe, dos Beatles?
- Sei de uma que tem mais a ver com toda essa conversa de física quântica que você falou.
- Qual?
- “Você é luz, é raio, estrela e luar...”
- “Manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô..”
- Hahahaha.
- Agora você realmente ganhou o prêmio. Wando. Nossa. Quero ir urgente pra outro universo paralelo. Socorro. Hahahaha.

(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS")