Quequeg

(Continuação da série de posts “INVENTÁRIOS”)
- Homem Invisível? Ah não, isso não é possível – reagiu Beth.
- E por que não? – perguntou Ismael.
- Ninguém quer ser o Homem invisível quando é criança. Não é o super-herói favorito de ninguém.
- Pra mim, sempre foi.
- Por quê?
- Porque ele pode ficar invisível, porque ninguém vê ele quando ele não quer ser visto. Basta desaparecer e ninguém mais enche o saco. É por isso eu queria ser o Homem Invisível
- Hmmmm. E como você ia dar aula sendo invisível?
- Os alunos não precisam me ver. É só eles verem o quadro negro, a tela com o power point projetado e ouvir a minha voz.
- É um desejo estranho...
- Muito mais estranho é uma criança querer ser um super-herói com um malhinha apertada, voando por aí e sendo perfeito, tipo Super-homem.
- Uma época, eu queria ser a Mulher Maravilha, mas eu enjoei dela. Mais tarde, eu gostava mais dos heróis sombrios, como Batman, Wolverine e Sandman.
- Mas o Sandman não é super-herói.
- É sim. Até o do Neil Gaiman. Ele não salva o Mundo dos Sonhos e as criaturas dele?
- É, tem razão, então eu quero ser o Sandman, porque ele tem um elmo da invisibilidade e pode desaparecer quando quer.
- Não acredito. Você é fixado mesmo nessa coisa de invisibilidade.
- Eu não agüento essa vontade de aparecer das pessoas, de querer ser visto a todo custo, de colocar mil perfis em Orkut, MySpace, FaceBook e coisas assim. E as pessoas que se tornam famosas, então, fazem tudo pra aparecer pros paparazzi.
- Isso rende dinheiro. É marketing.
- Pra mim, aparecer só rende dor de cabeça.
- É uma coisa de ego também. As pessoas querem se sentir aprovadas, aceitas, amadas, desejadas.
- E pra isso, elas deixam de ser elas mesmas. E, no final, são amadas pelo que elas fingem que são, não pelo que são de verdade. O que dá no mesmo que não ser amado. Tá cheio de artistas nessa onda. Tipo Marilyn Monroe, que se mata porque sente que não é amada pelo que é, e sim pela imagem projetada.
- Mas não é bom que as pessoas te conheçam, que você encontre gente, converse, se sinta apreciado?
- Isso pode ser qualquer coisa. Prefiro ficar de longe, conhecer umas poucas pessoas que realmente gostem de mim como eu sou e é só. Gastar esforço pra que gente que eu não conheço goste de mim é muita perda de tempo e de energia.
- Mas assim você fica de fora de muita coisa.
- Eu sempre lembro do epílogo do livro Moby Dick, quando o navio Pequod afunda e morre o capitão Ahab e toda a tripulação, arrastados pela baleia furiosa. Ismael é o único que se salva, se agarrando num caixão que tava no barco e sai flutuando. Ele fez parte de tudo aquilo, ele viu, experimentou, acompanhou, mas não se envolveu a fundo. E saiu vivo. Pra contar a estória.
- Tá bom. Você venceu. Pode ser o Homem invisível. Mas não vá se queixar se eu pisar no teu pé ou der uma joelhada no saco. É que eu não tô te vendo.
(Continua na série de posts “INVENTÁRIOS”)
