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domingo, 15 de junho de 2008

INVENTÁRIOS 38


Femme accroupie




(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")

Com o passar dos meses, vivendo junto de Ismael, Beth começou a perceber que havia algo que realmente criava uma grande distância entre os dois. Não que Ismael não fosse bom para ela, ou que não lhe desse atenção, carinho, sexo e a força constante do seu bom humor e leveza. Mas havia uma espécie de buraco dentro dela que a presença de Ismael não conseguia preencher.
Era como se Beth tivesse uma fome que jamais pudesse ser saciada, uma sede que nem toda água do mundo pudesse matar, um desejo que nunca era satisfeito e permanecia como uma dor que nunca parava de doer. Demorou um pouco também para Beth perceber que não poderia culpar Ismael por isso, já que o problema era seu.
Mas essa percepção não veio sem uma certa decepção. Para ela, Ismael, repentinamente, desceu do alto dos céus para o rés do chão (lugar do qual ele próprio talvez jamais tivesse desejado sair). Ismael sentiu esse distanciamento de Beth, mas achou normal, já que considerava exageradas mesmo as expectativas dela.
Para Beth, porém, o impacto foi grande, já que ela depositava nele a esperança de que um dia sua angústia fosse mitigada. E o vazio pareceu crescer diante de Beth com a constatação de que sua alma era insaciável.
O que ela sentiu então lhe lembrou da descoberta da poesia de Florbela Spanca, quando tinha 19 anos. Beth se identificava muito com a poesia dela e com a arte de outras mulheres desesperadas. Com as esculturas doloridas de Camille Claudel, a hipersensibilidade de Billie Holiday, as visões do mundo e de si mesma de Frida Kahlo, os gritos de Janis Joplin e a intensidade de Elis Regina.
Ultimamente, gostava de ouvir Amy Winehouse, mas achava que o sofrimento dela, embora fosse verdadeiro, era mais uma herança do que um sentimento original. Nessas horas, nada melhor do que a poesia de Florbela e o seu poema preferido era “Eu...”

EU...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Spanca

(Continua na série de posts “INVENTÁRIOS”)