Pequenas desonestidades

(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")
O primeiro contato real de Beth com a desonestidade foi aos seis anos de idade, num domingo de Páscoa. O objeto de delito era um lindo ovo de chocolate que seu irmão mais velho, Ricardo, tinha ganhado naquela manhã. É bem provável que o ovo recebido por Beth fosse tão ou mais bonito do que o de Ricardo, mas ela não resistiu à tentação de surrupiar um naco daquele tão desejado doce.
Ricardo não viu. Seus pais também não. E talvez aquilo tivesse sido esquecido rapidamente por Beth, se não fosse pelo sermão do padre na missa daquele domingo.
- Aquele que rouba aquilo é que do seu irmão, entristece ao Senhor – bradava o pároco empolgado com a grande presença de público naquele domingo.
E Beth se encolheu no banco da igreja, escondendo o rosto com a mãozinhas, sentindo o enorme peso do remorso apertando seu coração. Que buraco enorme se abria ali em frente, sob seus pés, enquanto a voz histriônica do padre, com sotaque alemão, lhe dizia o quanto ela era indigna de ser amada.
Na saída da igreja, a mãe puxava Beth pela mão enquanto ela caminhava de cabeça baixa. A mãe, então, berrava com ela, enquanto cumprimentava todos à volta, fingindo simpatia. Uma ou outra lágrima pingava dos olhos da menina, mas ninguém via. E os impropérios da mãe só confirmavam à Beth quão indigna criatura ela era.
Mais tarde, já na adolescência, Beth leu um livro que sua melhor amiga Mira lhe emprestou. “Demian”, de Hermann Hesse. E ela se identificou o drama do personagem Emil Sinclair, no início do romance, quando ele furta algumas moedinhas do cofrinho da família e se sente um verdadeiro criminoso.
O livro fez Beth refletir sobre essa culpa toda. Ela não poderia jamais culpar Emil pelo pequeno furto contado no livro. Era um menino de 10 anos, inocente e que acabara fazendo isso por ceder à chantagem de um colega mais velho. Ele tinha motivações que deveriam ser levadas em conta. Não desejava o mal de ninguém e sofria pelo que fez.
E se Beth, aos 12 anos, podia enxergar as coisas dessa forma e não ver culpa em Emil Sinclair, porque é que um Deus onisciente e que existia desde sempre, não poderia também levar tudo em consideração e perdoá-la?
- Por que? Perguntava Beth aos 12 anos.
- Por que? Perguntou Beth aos 21.
- Por que? Perguntou Beth tantas outras vezes mais.

(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS")
