
segunda-feira, 31 de março de 2008
IMPERTINÊNCIAS 24

sábado, 29 de março de 2008
INVENTÁRIOS 23
Limite

(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")
Beth se virava na cama, pensando sobre a vida, pensando sobre tudo. Não conseguia dormir. Pensou no Bibliotecário, pensou numa pergunta que lhe martelava a cabeça por dentro. E o homem do terno branco apareceu.
- Existe liberdade? - Perguntou Beth.
- Liberdade para que, por que, em relação a que? Esse é um conceito relativo. Vocês, seres humanos, querem sempre tornar absolutos conceitos relativos, mesmo levando em conta que vocês não são, de forma alguma, absolutos.
- Eu só quero saber se a gente é livre de verdade ou faz aquilo que está escrito em algum lugar ou porque a gente foi programado pra fazer pela nossa cultura, sei lá...
- A pergunta ainda é vaga. A resposta continuará sendo vaga.
- Quero saber se eu sou livre para ser o que eu quiser, por exemplo.
- A princípio, nesse caso, tudo é possível. Existem limitações naturais a serem vencidas, mas o ser humano consegue muitas vezes vencer esse tipo de barreira. Mas há sempre um preço a pagar por isso.
- Que preço?
- Cada situação pede algo diferente. Se você quisesse ser, por exemplo, uma grande jogadora de tênis ou uma grande pianista, teria que treinar ou ensaiar horas e horas por dia para atingir esse objetivo. E teria que abrir mão de uma série de outras coisas na vida.
- Sei. São coisas que dependeriam do meu esforço. Entendo. Mas também tem coisas que estão fora de questão, como por exemplo, eu querer ser a mulher mais alta do mundo.
- Como eu disse, a princípio, tudo é possível. Mas certas coisas dependeriam de uma conjugação de forças e de fatores que fogem da sua compreensão e estão além da minha alçada e até daqueles que me orientam.
- Quer dizer que você tem um chefe?
- Vamos voltar à sua pergunta. Está satisfeita com a resposta?
- Não. Você satisfez a minha curiosidade sobre algumas coisas, mas ainda não me respondeu. Quero saber se somos livres ou se existe algum tipo de destino, programação ou coisa desse tipo.
- De novo você vem com essa noção absoluta de liberdade. Você vive num mundo limitado, cheio de limitações, não há como ser absolutamente livre nele. Há uma série de fatores que limitam a sua vida.
- Esses fatores definem as nossas vidas, então?
- Eles limitam, mas não determinam.
- Como assim?
- Os limites estão aí para serem transcendidos. Aí é que está o segredo de tudo.
- Estou começando a desistir dessa estória de chamar você. Para cada resposta que você me dá, eu fico com um monte de novas perguntas. E aí, você simplesmente desaparece sem dizer nada.
- Se você prefere que eu me despeça, aí vai: boa noite.
- Boa... É isso... Transcendência... Conceitos absolutos... Tô com sono... Ah, deixa pra lá!
(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS")
IMPERMANÊNCIAS 23
Lua Cheia

Recorro à minha coleção de eus,
Qualquer coisa que me ajude
A interpretar esta noite
Entre o assombro e a ambiguidade
Entre a profundidade e a essência
A dificuldade e a dádiva de ser
O rio, o peixe e o pescador
Simultaneamente...
Wilson Gasino
quinta-feira, 27 de março de 2008
IMPERTINÊNCIAS 23
Psicologia da Composição
João Cabral de Melo Neto
quarta-feira, 26 de março de 2008
INVENTÁRIOS 22
PEQUOD

(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS)
Quando tinha oito anos, Beth viu dois cachorros cruzando, na rua, em frente ao portão de casa. Ela estava com Zena, a empregada, que ficou embaraçada quando Beth apontou o dedo e perguntou o que era aquilo.
- Os dois tão brigando - perguntou?
Sem ter respostas, Zena atirou pedras nos dois bichos, para separá-los. Depois de algum esforço, os dois se soltaram. Mas isso não acalmou as inquietações de Beth. Pelo contrário.
Ela queria saber o que era aquela coisa vermelha parecendo uma salsicha que o cachorro tinha no meio das pernas. Zena disse para Beth perguntar à mãe quando ela chegasse em casa. E foi o que ela fez.
- É o pipi do cachorro - explicou a mãe, de má vontade - é por ali que o cachorro faz xixi.
- Mas e por que ele tava em cima da cachorrinha? Por que os dois tavam chorando? - insistiu Beth.
- Eles tavam brincando, só isso. Agora me deixe, que eu tenho mais o que fazer.
Algum tempo depois, misturando as coisas que via na televisão e a conversa das amiguinhas, Beth descobriu que aquilo era o pênis do cachorro e o que eles estavam fazendo era sexo. E aquilo acabava fazendo outros cachorrinhos nascerem.
Com 10 anos, Beth descobriu livros sobre educação sexual na estante de casa, meio escondidos, na prateleira mais alta. Em momentos em que ficava só com a empregada em casa e ela estava ocupada, dava um jeito, subia numa cadeira e tirava os livros para dar uma olhada.
Eram cheios de fotos e figuras escuras, em preto e branco. Os textos falavam de doenças e de bebês nascendo. Parecia uma coisa ruim e dolorosa. Nada tinha a ver com prazer, nada tinha a ver com carinho. Ela não imaginava como aquilo poderia fazer parte do corpo dela. Era tudo feio, pesado, estranho e obscuro. Parecia ser um sofrimento imposto pela natureza aos animais.
Foi só com 11 anos, em conversas com sua amiga Mira, que ela descobriu que o sexo poderia trazer prazer. E foi nessa época também que ela descobriu o mistério do pênis, aquela coisa estranha que os homens tinham e as mulheres não. Era o poder, a força, a capacidade de invadir, de semear e de frutificar.
O poder do pênis, na cabeça de Beth, era o que poderia explicar o porquê da preferência dada pelos pais sempre ao seu irmão mais velho, Ricardo. Ele era homem. As coisas eram assim. Os homens são mais importantes. Eles mandam. Eles tem o grandioso e fantástico pênis.
Mas Mira não tinha toda essa reverência. Ela brincava com isso. Fazia desenhos malucos, simulava ter um pênis usando o que tivesse à mão. Um lápis, uma banana ou mesmo o dedo indicador. Tudo virava um pênis e motivo de brincadeira para Mira.
- Agora eu tenho um pênis e tenho o poder - dizia ela correndo atrás de Beth. E Beth ria.
- Mas o que será de nós - perguntava Beth - se a gente nunca tiver um homem, se a gente nunca tiver um pênis?
- Sei lá - respondia Mira - se esse pedacinho de carne pode fazer a gente tão feliz assim. Sei lá...
(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS)
IMPERTINÊNCIAS 22
O HIEROFANTE
A carta de número 5 do tarô é o Hierofante, que em alguns baralhos também é chamado de o papa ou o Sumo-Sacerdote. A simbologia desta carta está ligada ao desenvolvimento dos valores morais no homem, absorvidos através da tradição, da família e dos códigos sociais.O Hierofante é o princípio masculino conservador e passivo, fazendo par com a Sacerdotisa (ou Papisa) e contrapondo-se ao masculino ativo,
o Imperador. Se na Sacerdotisa o princípio religioso (ligação com o divino é intuitivo, no Sumo-Sacerdote, esse vínculo funciona através da codificação, da ritualização, da elaboração da religião como instituição. É o princípio que possibilita ao ser humano, quando ainda não tem o poder de julgamento completamente formado, agir através de conceitos pré-elaborados, os chamados pré-conceitos.Isso pode parecer algo ruim, mas é o que permitiu à Humanidade se desenvolver nos primeiros tempos e o que possibilita à criança crescer sadia enquanto tem a orientação dos ensimentos morais transmitidos pelos pais, religiosos e mestres. Daí vem também a forte ligação da carta com a figura paterna, protetora, benevolente, apaziguadora e orientadora.

O princípio proposto pela carta número 5 só se torna ruim quando o ser humano, já tendo formado a sua consciência julgadora em sua caminhada (veremos adiante na carta 8 - a Justiça) abdica de seu poder de discernimento e toma decisões apenas com base em preconceitos. Deixa, assim, de viver a sua vida e vive pelos valores dos outros.
O Papa representa a espinha dorsal, aquilo que mantém o ser em pé, o andar ereto que diferencia o ser humano dos animais, a elevação que almeja o encontro do terreno com o divino no homem.
segunda-feira, 24 de março de 2008
IMPERMANÊNCIAS 22
Daniel Senise

Gostei muita da exposição que está no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) com uma seleção de obras do carioca Daniel Senise. A mostra traz trabalhos do artista realizados entre 2000 e 2008.

Pintadas em tons terrosos, as telas têm um efeito sinestésico interessante e provocam sensações ao mesmo tempo de paz e de inquietude. Por mais paradoxal que isso pareça.
Essas sensações são ampliadas ainda mais pelo ambiente do MAM, com todo o espaço de madeira do Solar do Unhão.
Para quem quiser visitar, a exposição vai estar lá até o dia 20 de abril. Abrindo sempre de terça a domingo, das 13h às 19h e, aos sábados, das 13h às 21h. Muito bacana.
