Adeus você

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(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")
A morte sempre mexeu de um jeito estranho com Beth. Toda vez que recebia a notícia da morte de alguém, mesmo que fosse um mero conhecido, isso a abalava muito. Era uma sensação de que lhe tinham roubado algo, de que tinha sido enganada, ludibriada, traída.
- Beth.
Era como se um pedaço da vida fosse subtraído e ela não pudesse fazer nada para recuperar. Sentia raiva, medo, revolta e também culpa. Como se, de alguma forma, algo que ela tivesse feito ou deixado de fazer, contribuísse para a morte da pessoa.
- Beth.
As mortes que ela mais tinha sentido na vida haviam sido a do cachorrinho Fred, da amiga Mira e, já adulta, a da mãe. Mas parecia que a morte nunca havia chegado tão perto dela. Nem mesmo quando tinha tentado se matar.
- Beth.
Em cada morte, tinha sido diferente e ela tinha sentido de um jeito. A de Fred era fria, confusa, macia como a pelagem, seca como o barulho do porta-malas do carro se fechando, marrom como a terra.
- Beth.
Na morte de Mira, havia cheiro de cigarro, sensação de vazio, azul da nesga de céu vista da janela em intermináveis horas deitada na cama, som deBlack do Pearl Jam, gosto acre de revolta apodrecendo na boca.
- Beth.
Quando sua mãe morreu, era uma espécie de suspensão, de amortecimento dos pensamentos e dos sentidos. Mas Beth lembrava do cheiro das flores, da cor castanha da madeira do caixão, da sensação de abraços incompletos, do som de passos teimosos na cozinha vazia e da dor provocada pelo tempo irrecuperável.
- Beth.
Agora, parecia tudo agudo e ao mesmo tempo misturado. Como se o ranger da madeira de um barco jogado pelo mar tivesse um gosto, como se uma risada tivesse perfume, como se músicas queimassem e palavras espetassem como alfinetes e carinhos antigos tivessem cores esmaecidas. - Não agora - pensou Beth - Não ele.
- Ismael.
(Continua na série de posts "INVENTÁRIOS")



(Continuação da série de posts "INVENTÁRIOS")

