domingo, 15 de junho de 2008

IMPERMANÊNCIAS 38



Os Enamorados



A carta dos Enamorados ou dos Amantes (Tarô de Crowley) é a carta da dúvida, do momento de decisão. Na evolução da consciência humana representada pelo tarô, esta carta de número 6 mostra o desenvolvimento da capacidade de escolher o próprio caminho. E mais: de arcar responsavelmente com essa decisão.

A carta anterior, O Papa, representa o conjunto de valores morais que recebemos de nossos pais, da cultura vigente, escola, religião, etc. Mas assumir o próprio caminho requer que tomemos decisões próprias que muitas vezes não estão previstas em códigos e preceitos.

A figura clássica do Tarô de Marselha mostra um jovem decidindo entre duas mulheres tendo acima a figura do cupido apontando para a da direita. Seus pés se dividem: um em cada direção. E se o corpo pende em movimento para a direita, seu olhar (e cabeça – racional) se volta teimosamente para a esquerda.


No livro “Jung e o Tarô”, Sallie Nichols interpreta a mulher da esquerda como a mãe super-protetora que dificulta ao filho assumir o controle da própria vida. E a jovem da direita, muito parecida com ele, seria sua ânima, seu lado feminino e intuitivo que precisa se desenvolver para que ele tenha uma vida plena e possa assim tomar suas decisões.


De fato, o ensinamento que a carta traz é o de que estamos prestes a tomar uma decisão difícil. Para tal, será preciso escolher entre algo seguro e conhecido, que já está em nossa vida, e algo mais novo, que pode nos assustar. A energia da paixão, representada pelo Cupido, que dá um empurrãozinho, torna claro que a evolução exige corrermos riscos. O impulso erótico de construir opõe-se, assim, à tendência da conservação (e posterior degradação) e nos empurra para o desconhecido e para a possibilidade da morte e renovação que está, entre outras coisas, no sexo.


Os Enamorados estão ligados ao signo de Gêmeos, à dualidade, à ambivalência, à oscilação entre realidade e fantasia, entre mundo material e mundo espiritual, entre bem e mal, entre passado e futuro, entre seguir em frente e voltar atrás, entre buscar o aconchego do ninho e desafiar o azul do céu. Mas é esse movimento de oscilação, de tentativa, erro, acerto e aprendizado é que faz o crescimento da consciência.


Um ponto importante: essa carta também é o primeiro momento no Tarô em que aparece o outro como nosso igual, nossa contraparte, nosso espelho. E a entrada do outro em nossa vida e o reconhecimento dele como nosso igual nos traz a cnsciência da responsabilidade sobre as nossas decisões, já que podemos feri-lo.

Enfim, a carta dos Enamorados não traz nem sim, nem não, mas a dúvida, a possibilidade de decidir e escrever o próprio caminho. A potencialidade de assumir as rédeas do próprio destino, sabendo de antemão que a energia da Vida nos empurra para frente, nos prometendo todas as dores e delícias que pudermos abraçar.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

IMPERTINÊNCIAS 38


A vírgula



Texto da campanha dos 100 anos da ABI (Associação Brasileira de Imprensa)

A vírgula pode ser uma pausa ...ou não.
Não, espere.
Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.

Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

Ou muda uma atitude.
Matar o Rei não é crime!
Matar o Rei não, é crime!

Uma vírgula muda tudo.

A.B.I.: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

INVENTÁRIOS 37



Ambivalências




(Continuação da série de posts “INVENTÁRIOS”)

Um pequeno coelho prateado enfeitava o chaveiro que Beth ganhou de Ismael no dia em que os dois passaram a morar juntos. Mais tarde, no dia em que ficou parada em frente à porta de casa, Beth pensou em quantas vezes tinha brincado com o chaveiro enquanto os pensamentos iam e vinham em momentos de distração ou de nervosismo.
- Um coelho? – perguntou Beth.
- É. Um coelhinho – respondeu Ismael - pra dar sorte. É símbolo de fartura.
- E de apetite sexual...
- Isso também – riu Ismael
- Isso é bom.
- Você parece um pouco nervosa. Eu tenho visto isso nos últimos dias. Por que isso, meu amor?
- Sei lá. Fico pensando. Pra mim é uma coisa séria a gente vir morar junto. Pode dar errado, não sei...
- Isso pode ser qualquer coisa. Pode dar errado com a gente morando separado também...
- É que tudo tem sido tão bom com a gente junto. Eu não queria estragar isso.
- Eu entendo. Só não sei por que você se preocupa tanto.
- Eu fico tentando entender o sentido das coisas, da vida...
- E eu é que sou professor de filosofia. Você já pensou que a vida pode não ter sentido nenhum?
- Algumas vezes. Você pensa assim?
- Penso. E acho que além de não ter sentido nenhum, tudo o que a vida faz sempre é nos provar justamente isso, uma vez atrás da outra, até que a gente perca a esperança de que ela tenha um sentido.
- Mas isso já seria um sentido, não seria?
- Hahahaha. Agora você me pegou. Seria sim. Mas é um não sentido. Hahaha.
- Não sei, Ismael. Você parece confortável em não acreditar em nada. E eu preciso sempre acreditar em alguma coisa.
- Você precisa parar de querer carregar o mundo nas costas, de ficar cultivando essas dores, essas experiências ruins do passado. De ficar encasquetando com tudo, achando que tudo tem um porquê.
- Acho que um dia eu já não vou ter mais no que acreditar, mas aí eu já não vou ter mais nenhuma dúvida mesmo. Mas isso é triste. Acho que se a gente não tem mais dúvidas, só tem certezas, e se só tem certezas, não tem mais esperanças.
- Isso é poesia, não é filosofia.
- É que eu achava que o amor poderia ser uma certeza, entende?
- Mas não é. Não existem certezas eternas. Muito menos no amor. E, como diz aquele livro do sociólogo Pedro Demo, a gente só tem a certeza da incerteza.
- É difícil, pra mim, viver assim.
- É pra todo mundo. Mas é assim que as coisas são. A gente não sabe do amanhã.
- Mas eu preciso de referências.
- A única referência com a qual você pode contar é você mesma. Muita gente escolhe Deus, a família, uma ideologia, uma instituição, uma busca, um projeto de vida e até um amor. Aliás, é muito comum as pessoas procurarem isso numa pessoa amada. Mas ela não pode dar isso. Ninguém pode. Você só pode ter certeza dentro de você mesma.
- Mas eu não tenho. É tudo muito confuso, incoerente e inconstante. Eu mudo de idéia a cada hora. Não sei o que fazer e não sei que caminho eu tenho que seguir. Como eu posso ser referência.
- Você vai ter que se virar. Vai ter que aprender. Se não, você nunca vai ser feliz de verdade. Vai viver a vida sempre em função de alguém ou alguma coisa, num estado de apreensão e insegurança insuportável.
- Me sinto perdida e sozinha assim...
- É assim que todos nós estamos. Você precisa aprender a lidar com isso, com a solidão das nossas decisões. O que não significa que eu não esteja do teu lado, te apóie e te ame. Mas não coloque em mim as tuas certezas. Não é justo comigo nem com você. Muito menos com o nosso amor.



(Continua na série de posts “INVENTÁRIOS”)

terça-feira, 10 de junho de 2008

IMPERMANÊNCIAS 37

A internet vem mudando o fazer jornalismo e todas as nossas relações com a linguagem, passando cada vez mais do linear para o sistêmico. Esse vídeo mostra que o repensar a linguagem também nos leva a repensar a nós mesmos. Bem bacana.

sábado, 7 de junho de 2008

IMPERTINÊNCIAS 37


Música inaudível




A morte dança com a vida
Com encanto e delicadeza,
Como dever ser e será.

E como posso ficar sem ouvir essa música
Se em tuas mãos escreves o meu futuro?

Quando ouvires nossas respirações juntas,
Não tenhas medo da música,
Pois quando nossos olhares se encontram
É minha alma que chama a tua
pra dançar.


Wilson Gasino

sexta-feira, 6 de junho de 2008

INVENTÁRIOS 36


ECOS




(Continuação da série de posts “INVENTÁRIOS”)

Seis semanas antes do dia em que Beth está parada, de pé, em frente à porta com a chave na mão, ela chora, sentada no chão de um banheiro sujo de bar. Bêbada, ela não lembra da música de Cazuza e os pensamentos se traduzem em palavras que se repetem em círculos dentro da cabeça como um eco doentio.

Tudo. Tudo. Agora nada. Nada. Nada. O mesmo. O mesmo. Ou diferente? O outro. O outro. O outro. O outro. Tudo. Tudo. Tudo. Por que? Por que? Por que? E eu? E eu? E eu? Sina. Sina. Sina. Tudo. Tudo. Nada. Nada. E agora? E agora? O outro. O outro. Os outros. Os outros. Por que? Por que? Por que? Sina. Sina. Sina. Eu vi. Eu vi. Eu vi. Eu sabia. Eu sabia. Eu sabia. Eu sempre soube. Eu sempre soube. Eu sempre soube. Não. Não. Não. Não pode ser. Não pode ser. Não pode. Diferente. Diferente. Igual. Igual. Tudo. Tudo. Tudo. Tudo. E agora... E agora... E agora... Sina. Nada. Sina. Nada. Sina? Nada? Nada. Sina. Por que? Porque. Tudo? Tudo? Tudo... Tudo... Porque... Porque... Porque... Sina... Sina... Nada... Sina... Nada não. Nada. Não. Nada? Não? Não? Não! Não! Não! Não... Não... Não... O mesmo. O mesmo. E agora... Por que? Por que? Por que? Sempre soube. Soube? Soube? Soube... Soube... E eu? E eu? E eu... E os outros? E o outro? O outro!!! O outro... O outro. Sina. Sina. Agora. Sina. Não. Tudo. Nada. Eu. O outro. O outro. O outro. E agora? E agora? E eu? E eu? Diferente. Diferente. Igual? O mesmo? Folhas. Folhas. Folhas. Passam. Passam. Passam. Tudo. Tudo. Tudo. Mesmo. Mesmo. Mesmo. Morte. Morte. Morte. Fica. Fica. Fica. Vai. Vai. Vai. Chega. Chega. Chega...

(Continua na série de posts “INVENTÁRIOS”)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

IMPERMANÊNCIAS 36


Poetas

O jornal A TARDE tem muitos poetas. Só pra citar alguns: Kátia Borges, Katherine Funke e Florisvaldo Mattos, sem falar no cordelista Zezão (que está deixando a Redação). Tive oportunidade de ler também um ótimo livro de contos de Luís Lasserre.
Nessa toada, segue abaixo poema do jornalista, violeiro e poeta guanambiense Ari Donato. Para quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho de Ari, o blog dele é o Modas e Viola. Detalhe: foi Ari quem gravou pra mim e me apresentou o trabalho do grande violeiro Elomar.

Lua

O que dizer para definir coisas especiais,
se as palavras criadas por nós
nunca determinam o que pensa o coração.
Pois ele, lá dentro, próximo à alma,
deixa transbordar aquilo que sente, que lhe toca,
enquanto as palavras, cá fora,
têm sentido geral, nunca específico, como quer o coração.
Mas, arrisco com as palavras
e puxo, do meu coração, meu sentimento:
Você está além,
acima da pequena vida material que me cerca.

Ari Donato