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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

INVENTÁRIOS


Uma porta no tempo




Os dedos dela seguram a chave. E o frio corpo de metal está dentro da fechadura. Por um instante, ela não se move, parada do lado de fora da porta. É um quadro. Uma fotografia. Cena estática. Imóvel. Contida.
Quem a vê assim, não pode discernir se a chave girará no sentido horário ou anti-horário. Se ela está abrindo ou fechando a porta. Saindo ou chegando. Ela parece pensar em algo e é curioso como uma vida inteira pode passar diante dela nesse breve momento.
Talvez ela esteja tomando uma grande decisão. Talvez apenas esteja distraída.
E esse instante parece parado no tempo. Um hiato entre o passado e o futuro. Um simples elo de uma enorme cadeia de eventos, que pode ser assistida num sentido ou no outro. O que a move é o olhar do observador. E, nesse instante, nosso olhar está fixo sobre a cena da porta.

O tempo parou para ela, como na história daquela mulher na Idade Média, que só queria ajudar os outros, mas acabou sendo condenada à fogueira. O tempo parou para ela quando a fogueira começou a queimar. E ela, desesperada de medo e dor, resolveu invocar o próprio demônio, com quem ela nunca havia tratado e de quem havia sido acusada pela Santa Inquisição de ser amante. Rogou, propôs, fez comércio da própria alma. Mas o fogo não abrandou. O fogo não trai o fogo. O fogo nada cria. O fogo só transforma.
(Continua – ver os outros posts da série Inventários)