Casulos
Os dias após o baile vinham sendo de sonho para Mirka. Ela quase não dormira de excitação na noite em que dançara com o Conde. Falara tanto sobre o assunto na volta para casa, que o pai e a irmã mal tiveram tempo de abrir a boca.
Sozinha, em seu quarto, os dias seguintes foram de sonho sobre um novo mundo que parecia se abrir diante dela. O mundo inteiro agora parecia estar ao seu alcance. Sentia seu coração bater com mais força e o corpo encher-se de calor quando pensava no Conde, seus braços fortes, sua elegância, seu olhar misterioso, sua voz profunda e sua personalidade dominadora.
Ele era tudo o que ela imaginara antes e muito mais. Cada vez que lembrava dos acontecimentos do baile, Mirka acrescentava uma série de fatos, de características e de qualidades ao Conde, tornando-o cada vez maior em suas lembranças.
Imaginava o quanto as outras moças da região a invejavam. Ficava fantasiando o dia em que o Conde entraria pela porta e pediria sua mão em casamento. E que casamento seria! Um vestido maravilhoso. Uma festa gigantesca, como nunca houvera outra por ali. E depois, eles viajariam pelo mundo e o Conde a apresentaria a todo o tipo de gente importante e ela conheceria lugares maravilhosos.
O pai cortava o assunto quando ela falava sobre o Conde na mesa. Ela sentia que ele não gostava do seu amado. Talvez fosse ciúme, medo de perdê-la, preocupação normal de um pai. Já a irmã, apenas sorria e não falava nada. Talvez Danuta sentisse inveja dela como todas as outras moças.
Perdida em suas fantasias, Mirka mal percebeu a preocupação do pai e da irmã quando Elias morreu. O pai passou a vir mais cedo para casa. Olhava todas as portas antes de dormir e se certificava que os cachorros estavam soltos no quintal. Danuta rezava muito, não tirava o olho da irmã durante o dia e não a deixava sair sozinha à noite.
Mas Mirka nem notava. Apenas fazia planos, imagina os novos mundos que iria conhecer, os mistérios do universo que iria desvendar quando conhecesse a fundo aquele homem poderoso. Já era hora dela ter aquilo que merecia da vida.
Desde que nascera, tivera sempre a sensação de que havia uma parte da verdade – terrível ou maravilhosa – à qual ela nunca tinha acesso. Uma parte maior da vida, imensa até, e que talvez permanecesse desconhecida pelo resto da sua existência.
Ao mesmo tempo, havia partes da sua própria vida da qual ela sentia que estava sempre fugindo. Havia um lugar na memória que ela evitava como se evita dentro de casa o quarto de alguém que já morreu. Às vezes ela até parava em frente a esse quarto da memória, abria a porta, olhava para dentro, dava uma espiada, mas logo depois fechava e ia embora. E ela realmente nunca entrava lá ou falava com alguém sobre isso.
Pensava nas mentiras que inventava. Não se lembrava mais do momento em que descobrira que a mentira era a maneira mais simples e eficaz de se proteger. Esconder ou falsear o que sentia ou o que queria era a melhor forma de preservar sua intimidade, seu mundo do alcance dos olhos aguçados e críticos dos outros.
Começara mentindo para os outros, criando uma barreira intransponível para o seu mundo interior. Não se lembrava com exatidão, em que momento, também para se proteger, começara a mentir para si mesma. E, desde então, nunca mais parara.

