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domingo, 26 de outubro de 2008

INCONVENIÊNCIAS 1


Casulos




Os dias após o baile vinham sendo de sonho para Mirka. Ela quase não dormira de excitação na noite em que dançara com o Conde. Falara tanto sobre o assunto na volta para casa, que o pai e a irmã mal tiveram tempo de abrir a boca.

Sozinha, em seu quarto, os dias seguintes foram de sonho sobre um novo mundo que parecia se abrir diante dela. O mundo inteiro agora parecia estar ao seu alcance. Sentia seu coração bater com mais força e o corpo encher-se de calor quando pensava no Conde, seus braços fortes, sua elegância, seu olhar misterioso, sua voz profunda e sua personalidade dominadora.

Ele era tudo o que ela imaginara antes e muito mais. Cada vez que lembrava dos acontecimentos do baile, Mirka acrescentava uma série de fatos, de características e de qualidades ao Conde, tornando-o cada vez maior em suas lembranças.

Imaginava o quanto as outras moças da região a invejavam. Ficava fantasiando o dia em que o Conde entraria pela porta e pediria sua mão em casamento. E que casamento seria! Um vestido maravilhoso. Uma festa gigantesca, como nunca houvera outra por ali. E depois, eles viajariam pelo mundo e o Conde a apresentaria a todo o tipo de gente importante e ela conheceria lugares maravilhosos.

O pai cortava o assunto quando ela falava sobre o Conde na mesa. Ela sentia que ele não gostava do seu amado. Talvez fosse ciúme, medo de perdê-la, preocupação normal de um pai. Já a irmã, apenas sorria e não falava nada. Talvez Danuta sentisse inveja dela como todas as outras moças.

Perdida em suas fantasias, Mirka mal percebeu a preocupação do pai e da irmã quando Elias morreu. O pai passou a vir mais cedo para casa. Olhava todas as portas antes de dormir e se certificava que os cachorros estavam soltos no quintal. Danuta rezava muito, não tirava o olho da irmã durante o dia e não a deixava sair sozinha à noite.

Mas Mirka nem notava. Apenas fazia planos, imagina os novos mundos que iria conhecer, os mistérios do universo que iria desvendar quando conhecesse a fundo aquele homem poderoso. Já era hora dela ter aquilo que merecia da vida.

Desde que nascera, tivera sempre a sensação de que havia uma parte da verdade – terrível ou maravilhosa – à qual ela nunca tinha acesso. Uma parte maior da vida, imensa até, e que talvez permanecesse desconhecida pelo resto da sua existência.

Ao mesmo tempo, havia partes da sua própria vida da qual ela sentia que estava sempre fugindo. Havia um lugar na memória que ela evitava como se evita dentro de casa o quarto de alguém que já morreu. Às vezes ela até parava em frente a esse quarto da memória, abria a porta, olhava para dentro, dava uma espiada, mas logo depois fechava e ia embora. E ela realmente nunca entrava lá ou falava com alguém sobre isso.

Pensava nas mentiras que inventava. Não se lembrava mais do momento em que descobrira que a mentira era a maneira mais simples e eficaz de se proteger. Esconder ou falsear o que sentia ou o que queria era a melhor forma de preservar sua intimidade, seu mundo do alcance dos olhos aguçados e críticos dos outros.

Começara mentindo para os outros, criando uma barreira intransponível para o seu mundo interior. Não se lembrava com exatidão, em que momento, também para se proteger, começara a mentir para si mesma. E, desde então, nunca mais parara.


domingo, 18 de maio de 2008

IMPERMANÊNCIAS 33


Luz Invisível




Capítulo I - O Vermelho

O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor.
Livro de Jó 1:21


De tão branco o vestido da menina cegava os pássaros e os derrubava na manhã de sol. A irmã mais velha, menos brilhante, segurava seu pulso com a mão úmida, pele ainda amolecida da louça lavada do café. O pai ia na frente, terno ambulante de domingo, boticário longe das suas prateleiras e vidraças.
A missa das nove reunia toda a paróquia e as famílias vinham de longe, estrada de pó, para ouvir o sermão em latim com sotaque polaco. Vinha gente até da Colônia do Pilarzinho e das proximidades do rio Barigui.
– Mirka, Danuta – chamava o pai, quando as duas meninas paravam para olhar alguma flor ou bicho no canto da estrada. Danuta puxava a irmãzinha pelo braço e corria a responder o chamado.
Desde que a mãe morrera no parto da mais nova, o pai se tornara calado e distante. Triste em seu terno velho. Os olhos apagados de brilho por trás das grossas lentes dos óculos. Muita leitura fizera sua vista miúda, muita dor levara toda a sua vontade de ver o mundo. Não fosse pelas duas mocinhas, Danuta hoje com vinte e três anos e Mirka com treze, teria vagado pelo mundo, porta afora, cego de vez.
De quando em quando, Mirka desvencilhava o pulso dos dedos da irmã e corria atrás de alguma borboleta. O pai impacientava-se, mas não gritava com a menina, apenas chamava pelo nome que fora de sua avó.
Que dê aquele jovem impetuoso que de tudo fazia uma guerra santa? Que dê a força no negro dos cabelos e no amarelo dos olhos? Que dê a paixão pela vida e o sangue poderoso encharcando seus músculos?
Agora era só silêncio e as tardes intermináveis na botica. No domingo, a missa pela manhã, e depois o almoço, comendo carne de porco e pierogui e bebendo cerveja e gasosa de framboesa.
Ainda bem que as duas filhas o mantinham vivo. Ainda bem que a vida continuava por si mesma, sem que ninguém precisasse mandar.


(Este é o primeiro capítulo do romance inédito "Luz Invisível", que se passa nos arredores de Curitiba, no final do Século XIX)