Amor aos Pedaços

A Dona-de-Casa reclamou do tempo perdido e do tempo ainda a se perder em cada um dos incontáveis e improváveis dias.
A Gorda pensou nos números que a balança teimava em dizer que a faziam menos bonita aos olhos dos outros.
Mas a Garota Rebelde sabia de todas as coisas que viriam e por isso não tinha medo de nada que ainda não conhecia.
A Loira, que já fora um pouco grisalha e pintara e repintara seus cabelos várias vezes, teve vontade de chorar, mas preferiu esperar o final da novela.
A Esposa Solitária cantou uma velha cantiga como quem espanta da consciência fantasmas que sussurram verdades insuportáveis.
A Menina um dia disse que todos os seus sonhos se tornariam realidade, mesmo sem ter certeza de que era isso mesmo o que queria.
A Devota rezou e perdeu a fé e rezou mais e perdeu a fé novamente, até que conseguiu achá-la num programa de rádio da madrugada.
A Amante sentiu o corpo arder de desejo, mas a pele fria e abandonada sentiu como se as paredes do universo infinito fossem a própria carne do ser desejado.
A Namorada lembrou de uma música que dançara agarradinha e recordou como é bom amar e ser correspondida, mesmo que só de mentirinha.
A Mais Amada de todas forçou o incômodo sorriso como se fechasse as cortinas da alma, guardando o sol lá dentro e acendendo a tênue lâmpada lá fora.
A Feminista jurou que não mais sentiria medo dos homens e da sua eterna mania de assaltar fortalezas, roubar almas e não fazer prisioneiras.
Enquanto isso, a Submissa não entendia como seria possível viver num mundo sem ter alguém para lhe dizer o que pensar e o que fazer.
A Bruxa rogou pragas, pronunciou estranhos encantamentos e dominou um mundo deserto e evasivo com seus poderes absolutos.
A Devoradora de Homens limpou o sangue dos lábios e recontou mais uma vez os ossos que guardava num relicário como jóias de uma coroa de rainha.
A Despreocupada sorriu e resolveu esquecer os pensamentos tristes arrumando a gaveta das calcinhas perdidas.
A Velha Senhora Que Ainda Chegaria não sabia mais onde estavam as fotos que lhe lembravam de um passado que não tinha mais certeza ser seu.
A Vazia nada tinha a acrescentar ao mundo e por isso foi dormir mais cedo todas as noites.
A Bêbada gargalhou dentro da noite e se reconfortou com as mesmas mentiras engarrafadas, num eterno ciclo de auto-condenação e autocomiseração.
A Mãe sentiu um aperto lá dentro ao ouvir ecos de chorinhos e risadas num quarto já vazio.
A Princesa correu até a janela da torre e procurou no horizonte, em vão, pelo brilho das armaduras e espadas prometidas pela tela gigante da sessão vespertina.
A Amarga não soube o que fazer quando as flores do jardim coloriram de frescor seus pensamentos proibidos.
Aquela que Fora Professora quando jovem parou para refletir sobre tudo o que havia ensinado e descobriu que teria sido mais fácil não aprender nada.
A Pensativa tentou entender como a alma faz para que todas as experiências da vida se relacionem em essência e substância dentro da consciência.
A Sensível divisou poemas se materializando à sua volta em nuvens de perfume que saíam do seu próprio corpo.
A Fascinante contou estórias de sonhos e encontros místicos, falando sempre sobre algo além daquilo que pode ser visto ou tocado.
Então, a Mais Forte de Todas Elas levantou-se do sofá e viu no espelho uma multidão de almas se encontrando em seu olhar. E gostou do que viu.
E a Mulher decidiu que dali em diante seu nome seria Única e juntou os milhares de pedaços de um único e cansado coração no mesmo peito apesar de todo escuro e de todo frio, e apesar de bilhões de homens estarem dormindo naquele exato momento, sem poder captar a imensa e absurda magia daquele instante.
Wilson Gasino
