domingo, 16 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 12



Perguntas




(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

Golia, o anão do circo, não gostava de Lúcia. Quando ela desistiu de ser assistente do mágico, ele quis mandá-la embora. Reuniu o grupo e fez a proposta.
Os três palhaços não entendiam:
-Por que? – perguntou Primeiro.
- É, por que? Por que? – insistiu Segundo.
- Hummmmmhummhum? – argüiu Terceiro.
- Porque ela tem a alma inquieta – respondeu Golia, ajeitando a cartola e a gravata borboleta.
- Mas ela tem um coração tão bom e... – começou Luna.
- ...é tão útil ajudando em tudo – completou Stela.
- Mas ela tem essa enorme e inútil cicatriz no olhar – retrucava o anão, enquanto Lúcia abaixava os olhos.
- Ela pode tentar outras coisas no circo – tentou o mágico Grande Abelardo.
- E não podemos abandoná-la assim – ajuntou Diana, a mulher barbada.
- O sorriso dela – elevou o tom, Golia – é uma ferida só.
Silêncio. Parecia não haver argumentos para convencer Golia, o apresentador e a voz mais poderosa do circo.
- Ela fica – disse Dorival, que acabava de chegar, em um tom firme que fez o anão tremer.
- Mas e as razões que eu apresentei? - contestou Golia com a voz baixando.
- Ela fica – sentenciou Dorival – não me interessam as suas razões, só aquilo que nós sentimos. Então ela fica.

(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

sábado, 15 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 11


Réstias





(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

Dorival procurava Lúcia. Ela fugia. Muito trabalho no circo. Ia dia. Vinha dia. A noite anoitecia. E amanhecia. Dia mais dia.

À noite, Lúcia via o número de mágica. O Grande Aberlardo. Gostava muito. Especialmente aquele momento de suspense. Silêncio. Tudo parado. Depois, explosão de palmas.

Na mágica – pensava Lúcia – tudo é possível, tudo é surpresa. E ela pensou em aprender mágica.

A oportunidade surgiu quando a assistente do Grande Abelardo fugiu com um caixeiro viajante. Lúcia se animou. Começou a aprender.

Mas, belo dia, O Grande Abelardo resolveu ensaiar com ela um novo número. Espadas perfurando a caixa com a mulher dentro. Lúcia desistiu.

O Grande Abelardo não entendeu, mas aceitou a perda da assistente. Muita gente queria aquele lugar. Ele ainda disse a Lúcia:
- Para ser mágico, é preciso aceitar todas as possibilidades. Que as coisas não são exatamente o que aparentam. Mas aquilo que a gente quer que seja.
- Se é para ter medo – respondeu Lúcia – quero temer as espadas de verdade, não as falsas.
- Mas não é preciso ter medo de espadas falsas – insistiu o mágico.
- E não há como vencer o medo das lâminas de verdade acariciando as falsas – objetou Lúcia - isso seria apenas enganar a mim mesma.

(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Inconsciências 10


Sombras




(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)


A Velha Aurora. A pessoa que mais intrigava Lúcia no circo. Cega desde a infância. Não tinha função. Não trabalhava. Ficava lá. Sentada. Sozinha. Em seu trailer.

As pessoas iam chegando. Entravam. Sentavam. Pediam conselhos. A Velha Aurora dava. Era muito certeira. Diziam.

Tinha perdido a visão aos oito anos. Diziam. Um cigano a raptara e furara seus olhos. Fez isso para colocá-la na rua. Para esmolar. Ganhava mais assim. Diziam.

Com a vista perdida, Aurora aprendera a enxergar outras coisas.

Enxergava o que está nos corações. Via o que se passa na alma. Até o que as próprias pessoas não vêem em si mesmas. Diziam.

Lúcia tinha medo da Velha Aurora. Encontrara-se com ela uma vez. As cavidades dos olhos lhe esquadrinhando a alma. Arrepios na espinha. Estômago embrulhado.
- Ééééchhhhh – gritara a Velha Aurora como um grande pássaro que avista a presa.
- A luz – disse a velha com seus olhos de cratera lunar - provoca sombras nas saliências da alma.

(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 9


Riscos




(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)


Espetáculo terminado. Os artistas do circo vão se juntando. Conversam. Trocam impressões. Alguns bebem um pouco. Outros, muito.


Lúcia termina a faxina. Ouve as risadas lá fora. Resolve ir ao trailer se deitar. Não quer conversar com ninguém esta noite.

-Nova por aqui?

Ela se vira e vê Dorival, parado ao lado do picadeiro.

- Sou sim – responde.

- Meu nome é Dorival.

- Lúcia.

- Gosta daqui?

- Gosto. Muito.

- Estou no circo há muitos anos. Eu atiro facas. Gosto do que eu faço. Acho que nunca vi ninguém fazer tão bem.

- Que bom – comenta Lúcia. Sensação ruim na barriga.

- Quer ver uma coisa? – pergunta Dorival.

- Sim – ela responde sem vontade.

Dorival lhe mostra uma bainha de couro escuro decorada com metal onde descansa um grande punhal.

- É de aço temperado – ressalta Dorival – de Toledo. Uma das melhores lâminas do mundo.

Ele desembainha a faca. A lâmina brilha. Lúcia estremece. Desvia o olhar.

- Não é bonita? – ele insiste.

- É sim. Mas eu tenho que ir agora. Boa noite.

Dorival segura o braço de Lúcia. Ela sua frio.

- Tenho simpatia por você – ele revela.

- Pois eu não – ela corta – e passe bem.


(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 8


Flores




(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

A lona principal do circo era amarela com listas brancas. Amarela também era a roupa dos palhaços. Estrelas azuis. E verdes. E punhos de renda.

O nariz era uma bola vermelha. E também a boca pintada. Bem grande. Em volta uma enorme mancha branca. Para dar a impressão de um sorriso contínuo.

Lúcia triste. Parada num canto. Tinha acabado de conhecer Dorival. Que a deixara encantada. Para logo descobrir que ele era o atirador de facas do circo. Tinha pavor de facas.

Os três palhaços se aproximaram. Tinham acabado sua apresentação.

Eles se chamam Primeiro, Segundo e Terceiro. Primeiro é o mais falante e esperto e tem as tiradas engraçadas. Segundo é sensível e delicado e sempre acaba levando a pior nas brincadeiras. Terceiro tem uma fala incompreensível, parece um bebê gigante e é adorado pelo público, principalmente as crianças.


- Você está triste? – pergunta Primeiro a Lúcia.
- Ela está. Ela está – observa Segundo, compassivo.
- Hummhummmm – resmunga Terceiro.
- Trouxemos flores – diz Primeiro, tirando um ramalhete de plástico, todo desfolhado, do bolso.
- Flores. Flores – bate palmas Segundo.
- Humhumhummmmm – emenda, feliz, Terceiro.
- Obrigado – sorri, Lúcia, confusa – eu queria tanto ser mais alegre...
- E eu queria ser um transatlântico – revela Primeiro.
- E eu, um elefante cor-de-rosa – conta Segundo, revirando os olhinhos.
- Huuuummmmmhumm – prossegue Terceiro, com ar sonhador.
- Nããããããoooooo – respondem, de sopetão, os outros dois juntos - isso é totalmente, ridiculamente, absurdamente e definitivamente impossível.

(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 7


Encontros



(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)


Noite de espetáculo, Lúcia observa por entre as frestas da lona.


Vê o show dos palhaços, com suas cambalhotas, arrancando gritos e risadas. Vê o equilibrista na corda bamba deixar a platéia em silêncio. Vê o domador desafiar leões e tigres. Vê os malabaristas chineses jogando argolas e garrafas para o ar.


O número predileto de Lúcia é o de mágica. O Grande Abelardo faz coisas que deixam o público de boca aberta. Faz a ajudante de palco desaparecer, tira um coelho da cartola, puxa uma revoada de pombos de um lenço.


Lúcia é feliz e chora. Bate palmas. Ri e se emociona. É o mundo com o qual sempre sonhou quando era criança.


Repentinamente, um moço de terno branco com lapela azul se aproxima. Passa por ela, cumprimenta com gentileza, sorri e segue para a entrada do palco. Tem a pele morena e o olhar gateado. O cabelo é engomado e o bigodinho lembra Clark Gable, que Lúcia viu um dia, num filme, na matinê.


Ela fica encantada e pergunta a Diana, a mulher barbada, quem é aquele moço.

- Gostou dele, né? – perguntou Diana.

- Gostei sim. Demais. Quem é?

- O nome dele é Dorival. É o atirador de facas.


(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

domingo, 9 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 6



Sonoridades




(Continuação da série de posts "INCONSCIÊNCIAS)


- A dança... - dizia Luna.

- ...é a própria essência da vida - completava Stela.

- Ou ainda... - recomeçava Luna.

- A vida... - seguia Stela.

- ...é a própria essência da dança - filosofava Luna.

Diana, a mulher barbada, não dava muita trela a estas coisas. Era pragmática:

- O que nos faz diferentes é o que nos faz especiais. Se eu não tivesse barba, seria uma mulher comum.

- Verdade? - perguntou Lúcia.

- É por isso que as pessoas pintam os cabelos, fazem tatuagens, carregam na maquiagem. Só para acentuar algo em que são diferentes. Ninguém quer ser igual a todo mundo. E o diferente é o estranho, o esquisito, o mórbido. Aquilo que atrai atenção, admiração, horror ou pena. Qualquer coisa é melhor do que a indiferença. Qualquer coisa... - continuou Diana.

- Como uma perna manca? - arriscou Luna.

- Como um olho vazado? - insistiu Stela.

- Como uma enorme, vermelha, líquida, abrupta e angustiante cicatriz??!! - quase sussurrou Lúcia.


(Continua na série de posts "INCONSCIÊNCIAS)