quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 6


Ligação com o mundo interior

A carta de número 2 do Tarô é a Sacerdotisa ou Papisa. É o arquétipo feminino mais básico, ligado à maternidade ainda no estágio da concepção, e também à criatividade e à intuição. Representa a ligação do ser ao seu próprio inconsciente. Por isso, no Tarô Mitológico, a carta é representada por Perséfone, a esposa de Hades, deus grego das profundeza, do inferno, do subconsciente. Ou seja, onde enterramos nossos monstros e fantasmas. Perséfone foi raptada por Hades, e ele, pressionado pelos deuses, acabou fazendo um acordo, onde a mulher passava todos os anos seis meses na superfície e seis meses no inferno.
Perséfone tornou-se, então, um ser cambiante entre os dois mundos, entre a luz e a escuridão, entre o conhecido e o misterioso, entre o consciente e o inconsciente. A mãe de Perséfone era a deusa Ceres, ligada à agricultura. Por isso, Perséfone também é vinculada à imagem da semente, que é enterrada, passa as estações frias debaixo da terra, e depois irrompe para viver sob a luz do sol o resto do ano. Depois de colhida, ela é enterrada novamente, reiniciando o ciclo.

Daí, a necessidade de que certos conceitos e sentimentos sejam enterrados e morram para ressuscitar de forma iluminada e produtiva. É o sacrifício da semente. O mito do herói ressuscitado está muito presente na história da Humanidade, passando por figuras sagradas em diversas culturas, como Jesus, Orfeu e Osíris.
Se na primeira carta do tarô, o Mago, o desafio é iniciar a caminhada, fazer descobertas e enfrentar as próprias limitações, a Sacerdotisa leva o ser a uma visita ao que ele tem de mais profundo. E mais, ela traz para o lado de fora – o consciente – as revelações necessárias para a vida aquele momento.
Por isso, a carta também é ligada à criatividade, à intuição, àquilo que está sendo gerado no interior do ser. Está ligado ainda ao estágio em que o ser humano está tão profundamente ligado à mãe que ainda vê a si mesmo e ela como um só ser. A consciência do Eu começa a ser construída e isso implica percepção do outro, diferenciação, separação, dor, descoberta e, finalmente, crescimento.




Ilustrações:
1 – A Sacerdotisa – baralho do Tarô Mitológico
2 – A Papisa – baralho do Tarô de Marselha3 – A Sacerdotisa – baralho do Tarô de Aleister Crowley

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

IMPERMANÊNCIAS 6





Cobertores




O livro em quadrinhos "Blankets", de Craig Thompson, é uma das melhores coisas que eu já li. Ganhei de presente de Natal de Greice e só agora terminei de ler. Degustei bastante. As ilustrações são maravilhosas e as seqüências de quadros trazem incríveis sensações. Sei que estes são adjetivos muito vagos, mas não há muito de concreto a dizer sobre todas as impressões que o trabalho gráfico de Craig Thompson causa.

A verdade é que, a cada página lida, eu queria voltar e ler de novo. Ver mais uma vez cada quadro, cada ilustração. Não que os desenhos sejam muito complexos: são simples e diretos, mas a forma e o ritmo trabalham de uma maneira conjunta que funciona muito bem. Simples. Mas de encaixe perfeito.

O enredo também é simples e conta a história real do primeiro amor do autor. Enquanto Craig se debate na decisão de qual rumo tomar em sua vida, lutando internamente com uma formação católica extremamente repressora, ele conhece Raina, sua primeira paixão. Tudo tem a ver com dividir um cobertor, ou seja: confiar, se entregar, dividir, compartilhar até os últimos centímetros do corpo e da alma. É uma história bonita, cheia de humor e poesia. Faz a gente se emocionar, suspirar e rir.

domingo, 27 de janeiro de 2008

INVENTÁRIOS 5


Alma fragmentada




(Continuação – ver os outros posts da série Inventários)

Pelo que Beth se lembrava, aquele sentimento de inadequação estivera com ela desde sempre. Desde as festas infantis, quando as crianças com quem ela queria brincar a rejeitavam. E aquelas que a perseguiam propondo todo o tipo de brincadeiras, ela considerava aborrecidas e fugia delas. Ficava, então, sempre sozinha, e podia sentir o olhar de reprovação dos adultos, achando Beth uma criança estranha e triste.
Sentia-se ainda pior quando todos a comparavam com Ricardo, o irmão mais velho, “o rei da popularidade”, querido e elogiado pelos adultos e crianças. Ele era três anos mais velho que Beth e seu maior divertimento era fazer chacota da irmã o tempo todo, aliando-se aos outros meninos.
Quando tinha oito anos, Beth viu a primeira coisa que a encantou realmente. Era um cachorrinho recém-nascido de uma ninhada na casa da vizinha. Ela adorou o filhotinho e pediu para levar para casa. Seus pais, como sempre indiferentes a tudo o que dizia respeito a ela, deixaram o bichinho ficar, sem nenhuma reação.
Ela deu ao cachorrinho o nome de Fred e passou o dia brincando com ele. À noite, deixou-o na área de serviço, numa caixinha, numa caminha feita de pano. Fred choramingava muito, o que fez com que o pai de Beth resmungasse e dissesse que daria um fim no animalzinho. Até que ela saiu da cama, apanhou o bichinho e o levou para cama.
De manhã, quando Beth acordou, o filhotinho estava duro, morto, deitado ao seu lado. De nada adiantou quando sua avó disse que ele provavelmente já estava doente e que não era culpa dela. Beth concluiu que ter alguém a quem pudesse dar amor e atenção não era algo permitido a ela. Ficou triste e não aceitou quando a avó disse que lhe daria outro bichinho. – Ele morreria também – pensou a menina. E ninguém falou mais sobre o assunto.

A primeira amiga de verdade que Beth teve foi aos 11 anos. Mira era o nome dela. Tinha um ano a mais do que ela e era também uma criança solitária.
Foi Mira quem tomou a iniciativa de se aproximar, um dia, durante o recreio do ginásio onde estudavam. Beth, de início manteve-se arredia, mas, aos poucos, percebeu que as duas tinham muito em comum.
E foi um mundo de maravilhas o que ela descobriu com Mira. De cumplicidade, companheirismo, segredos compartilhados, atenção, respeito e amizade. As duas se fechavam naquele casulo só delas e ignoravam as chacotas, o desprezo, a frieza e todas as outras agressões do mundo lá fora. Foram os melhores anos da vida de Beth.
Aos 13, Beth já atraía a atenção de alguns meninos, assim como sua amiga Mira. Mas as duas preferiam ficar horas juntas, passeando, conversando, trocando suas confissões e impressões sobre o mundo.
Foi uma noite em que os pais de Mira haviam saído para jantar e Beth tinha ido dormir na casa dela que mais marcou a amizade das duas. Elas conversavam sobre como seria beijar um garoto e faziam mil elocubrações a respeito. Riam de dar gargalhadas e sair lágrimas só de pensar em todo o tipo de maluquices sobre como seria a sensação do primeiro beijo.
Beth estava feliz como nunca se sentira. Então, num súbito gesto puro de carinho, aproximou seus lábios da boca de Mira e a beijou. Foi um beijo doce, longo e gostoso. Uma entrega sem restrições e sem culpa em que ela sentiu como se sugasse todo o afeto de Mira para dentro de si, enquanto dava tudo o que tinha de mais bonito de sua alma para ela.
A porta do quarto se abriu. Eram os pais de Mira que haviam chegado em casa. Houve gritos, acusações, repreensões e palavras muito duras. Beth dormiu aquela noite num quarto separado de Mira e, pela manhã, os pais dela contaram tudo aos seus.
Os pais de Beth não levaram muito a sério aquilo. Acharam que era coisa de criança tola e esquisita. Mas os pais de Mira proibiram-na de vê-la e até mudaram a garota de escola. Foram dias e noites difíceis para Beth.
Cerca de um mês depois, soube por coleguinhas da escola que Mira havia pulado da sacada do apartamento. 14 andares. O mesmo número de anos de vida de Mira.
Beth não foi ao enterro. Tinha medo de possíveis olhares acusatórios dos pais de Mira. Tinha medo que os olhares só confirmassem a imensa culpa que sentia. Que ficasse claro a todos que estivessem ali à volta que Beth era uma espécie de ser amaldiçoado, a quem o amor era algo proibido por Deus. Daquele dia em diante, Beth passou a ter certeza de que se amasse alguém todo o tipo de mal poderia sobrevir a essa pessoa. Seu amor poderia provocar a morte.
Sentia muita dor e não tinha com quem compartilhar. Achava que aquilo poderia fazer com que ficasse doente ou algo assim, mas não tinha o que fazer.

Não lembrava ao certo se tinha ouvido de alguém ou lido em algum lugar a história de uma garotinha de seis anos cuja mãe havia morrido. A família escondeu da menina o fato durante anos, achando que era o melhor para ela. Diziam que a mãe tinha ido fazer uma longa viagem.
Até que um dia, aos 10 anos, a garota brigou com a babá e disse coisas cruéis à moça. Como vingança, a babá contou-lhe que a mãe havia morrido e que ela era a única “boba” que não sabia disso. Naquela noite, todos os cabelos e pelos da menina caíram e nunca mais voltaram a crescer.
(Continua – ver os outros posts da série Inventários)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

IMPERMANÊNCIAS 5


Teus Olhos

Voz de roçar de asas,
Riso de água cristalina,
Viajo pelos teus olhos,
Percorro a delicada
Paisagem do teu corpo.

Minha alma irmã,
Minha alma,
Estende tuas raízes
Por sobre o meu peito,
Festa de nuvens,
Campo de trigo
Tremulando ao vento.

Minha alma,
Minha alma irmã,
Céu azul aberto
Barulho do mar,
Pergunto se quando,
Num breve descuido,
Momento de alegria,
Fechares teus olhos,
Será que eu deixarei de existir?

Wilson Gasino

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 5


Música de A a Z

De Alceu Valença a Zélia Duncan, de Arrigo Barnabé a Zeca Pagodinho. O site Música de A a Z, do jornalista Marcos Venâncio, é uma mina de ouro para quem gosta de boa música. Alguns discos inclusive só foram lançados em vinil.

Muitas raridades, passando por jazz, blues, clássicos, MPB, rock e até música angolana. Para quem quiser conhecer, aí vai o link: http://www.venancio.110mb.com/ .


Worldometers

Outra dica do mestre Venâncio: o site de estatísticas em tempo real Worldometers. Os tarados por números podem acompanhar, por exemplo, o crescimento da população mundial. Mas tem muito mais para quem souber garimpar. Ótimo pra jornalistas e insones crônicos:
http://www.worldometers.info/

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

INVENTÁRIOS 4


Ismael





(Continuação – ver os outros posts da série Inventários)


Beth conhecera Ismael há cerca de seis anos. Ela o achou bonito, embora normalmente não se sentisse atraída por homens que usam brinco. Também achou um pouco ruim o fato de ele morar ainda com os pais aos 30 anos de idade. E ela achou engraçado quando ele se apresentou:
- Chamam-me Ismael.
Ele explicou que essa é a primeira frase do livro Moby Dick, um dos seus preferidos e com o qual disse se identificar. Ismael era o nome do personagem narrador do livro e tudo acontecia à sua volta sem parecer envolvê-lo diretamente, como se ele fosse um eterno observador privilegiado de sua própria vida. Ahab, Starbuck, Quequeg, a baleia branca e os outros personagens flutuavam ao seu redor em suas lutas e buscas próprias e ele parecia não ser atingido nunca. Nem mesmo pelo duelo atávico do Capitão Ahab com o leviatã Moby Dick, metáfora do seu próprio inconsciente, que o acabaria arrastando para o fundo do oceano. Ismael sempre passava ao largo de tudo.
Mas Ismael tinha seus muitos encantos. Sua imaginação poderosa, sua alma de criança, sua poesia, sua alegria, sua leveza de sempre, e, principalmente, sua capacidade de ver a beleza das coisas, de se maravilhar com tudo.
- “Stupor mundi”, dizia ele, exercitando seus dotes de professor de filosofia - O “assombro do mundo”.
E tinha também a doçura de Ismael. Quase feminina, o que atraía muito Beth, já tão cansada da brutalidade dos homens comuns. Ela confiou tanto nele, logo de início, que foi a primeira pessoa para quem falou das visões e vozes. E ele achou aquilo muito engraçado. Nem pensou que ela era louca, nem nada.
E Ismael contou para ela a história do garoto que queria muito bater o recorde da vizinhança de ficar mais tempo debaixo d'água, sem respirar. Ele treinava muito, ficava horas praticando na piscina. Um dia, ficou até mais tarde no clube. Todo mundo foi embora e ele ficou ali, praticando, sozinho. E, numa dessas tentativas, forçou demais, perdeu a consciência e morreu.
- E o que é que isso tem a ver com as visões que eu tenho?
- Sei lá. Acho que eu lembrei disso porque queria dizer que você precisa ir fundo nisso pra descobrir o que é. Mas também precisa saber o seu limite. É isso.


(Continua – ver os outros posts da série Inventários)

domingo, 20 de janeiro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 4


Sobre Eu Sou a Lenda, Ionescu e Saramago

Fui ver o filme “Eu Sou a Lenda” no cinema. Não é um grande filme, mas é um bom entretenimento e possibilita alguma reflexão. O tema não é novo: a resistência ao processo de desumanização. Desde Ulisses lutando para não virar porco nas mãos da feiticeira Circe, para poder continuar sua Odisséia, até os rinocerontes do teatro de Ionesco e as hienas de Bráulio Pedroso, bem como o Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago, muitas vezes foi revisitado o mito do ser humano que luta contra a bestialização. Um processo representado por algo que vem de fora e que encontra seu eco lá dentro.

Se olharmos à nossa volta, para a banalização da violência, para a brutalização dos sentimentos, para a cada vez maior e mais “justificada” redução do outro a objeto, para a limitação da Vida à satisfação gerada por prazeres fugazes e vazios, vemos que os vampiros lendários estão soltos por aí. Porque quando reduzimos o outro a objeto, sem direito à subjetividade e às suas próprias vontades, desejos e sentimentos, ele se torna simples instrumento ou obstáculo para as nossas satisfações.

Nesse processo, pouco importa se faço sofrer ou causo dano, desde que obtenha minha satisfação. É esse raciocínio que “justifica” o estupro, o latrocínio, o assassinato, a mentira e a traição. E é também esse raciocínio que oferece “alívio” à consciência para os crimes por atacado, como o desvio de recursos públicos, as ações lesivas aos consumidores e a destruição de recursos naturais. Nesses casos, as coisas também são facilitadas porque não são vistos os rostos, nem conhecidos os nomes.

É óbvio que é impossível o tempo todo considerar a alteridade, mas há uma simples palavra que possibilita ter uma medida sobre o quanto estamos considerando o outro em sua subjetividade: respeito. Isso implica em ver o outro como uma pessoa completa como se vê a si mesmo. Até mesmo o amor, sem respeito, pode ensejar posse, uso, invasão de limites e anulação. Vai aí embaixo uma música, de uma banda chamada Marillion, que fala algo sobre o tema:


AFRAID OF SUNLIGHT
(http://uk.youtube.com/watch?v=nVPE6EOreFw)

Drive the road to your surrender
Time comes around... out of my hands
Small boats on the beach at the dead of night
Come and go before first light

Leave me running in the wheel
King of the world
How do you feel?
What is there to feel?

So how do we now come to be
Afraid of sunlight?
Tell me girl why you and me
Scared of sunlight?


Been in pain for so long
I can't even say what hurts anymore
I will leave you aloneI will deny
I will leave you to bleed
I will leave you with your life

So how do we now come to be
Afraid of sunlight?
Tell me girl why you and me
Scared of sunlight?

All your spirit rack abuses
Come to haunt you back by day
All your Byzantine excuses
Given time, given you away

Don't be surprised when daylight comes
To find that memory prick your thumbs
You'll tell them where we run to hide
I'm already deadIt's a matter of time

So how do we now come to be
Afraid of sunlight
How do we now come to be
Afraid of sunlight

Day-Glo Jesus on the dash
Chalk marks on the road ahead
Friendly fire in hostile waters
Keep the faith
Don't lose your head
So how do we now come to be?


O outro lado





Quase sempre a raiz da falta de respeito com o outro é a falta de amor para consigo mesmo. Afinal, já disse Jesus: “Amar o próximo como a si mesmo”. Se não me amo e me respeito, como posso amar o outro? A culpa e o perfeccionismo são sintomas dessa falta de amor próprio. Os filmes “Desejo e Reparação” e “O Caçador de Pipas” falam sobre isso.

Os dois tem estórias muito boas de erro e busca da reparação, da redenção, do auto-perdão. Cada um traz uma solução diferente para o problema e os dois mostram que há ainda mais beleza nas coisas profundas do ser humano. Também são muito bons como cinema. Têm uma pitadazinha de pieguice, mas dá pra encarar. Vale a pena ver.