domingo, 23 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 18



Águas



(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

Atrás da lona. Lúcia olha. Dorival atira facas. Celeste, a assistente, recebe os golpes à sua volta. Impassível.

As facas voam. Precisas. Desenham o contorno da moça. Cravam-se na taboa. Recortam o mundo à volta dela.

Lúcia treme. Primeiro, o barulho do metal deixando a bainha. Então, zunido no ar. Por fim, som seco na madeira.

Dorival nunca treme. Mão firme como aço de sabre. Olhar direto ao ponto. Nenhum desvio. Nenhuma dúvida.

Celeste confia nele. É sua irmã. Os dois fazem o número desde crianças. Nunca houve um erro. Até ali.

Dispersa. Ela tenta se concentrar. Pensa em Hélio. Marido doente. O cigarro comeu o pulmão. Disse o médico.

Ela faz o que não devia. Distrai-se. Move o corpo para a direita. Alguns centímetros. E a faca penetra o ombro.

Gritos. A luz se apaga por segundos. Acende de novo. Música. Palhaços. Bailarinas. Malabaristas. Cavalos.

Atrás da lona. Lúcia chora. Não presta atenção ao barulho de bip. Teimoso. As lágrimas não são por Celeste.

(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

sábado, 22 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 17



Pés



(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

Lúcia pensa. A Velha Aurora lhe deixara confusa. Final de tarde. Pôr-do-sol. Circo movimentado. Artistas se preparam para o espetáculo.

Os três palhaços passam. Sapatos enormes. Engraçados. Lúcia pensa.
- Gosta dos meus sapatos? – pergunta Primeiro.
- Gosta, gosta, gosta? – insiste Segundo.
- Hummhummm!! – afirma Terceiro.
- Só queria saber qual o tamanho dos pés... – diz Lúcia.
- Como assim? - indaga Primeiro, fazendo uma careta esquisita, no que é imediatamente imitado pelos outros dois.
- Ora – tenta explicar Lúcia – só queria saber o quanto sobra da parte do sapato que já não é mais pé.
- Mas tudo aqui é pé – responde Primeiro – desde que somos palhaços.
- É sim, minha querida, é sim – confirma Segundo.
- Hummhummmmmhuhuhummmmmhuhuhuhuhummmmmmmmm – acrescenta Terceiro, que recebe um olhar de reprovação dos outros dois por ser tão óbvio.
- Mas, mas, mas – gagueja Lúcia – se vocês tivessem que cortar a parte do sapato que não é pé, que não é parte de vocês, como vocês fariam para saber?
- Não há como saber. Já é parte do que somos. Se cortarmos, não vamos mais ser nós mesmos – pontua, pausadamente, Primeiro.
- Seremos outras pessoas – prossegue Segundo.
- Hummhum – aponta Terceiro, desta vez mais comedido.
- Mas, mas... – tateia Lúcia pelas palavras.
- Eu serei o presidente Kubitscheck-check-check – caçoa Primeiro.
- E eu, Severina Xique-xique-xique – emenda Segundo.
- Hum – começa Terceiro, mas é interrompido pelos outros dois em uníssono.
- Pssssssssssittttttttt, mas que disparate. Estamos a falar de coisas sérias – berram os palhaços.

Lúcia pensa. Ainda mais confusa. Não ouve direito a discussão dos palhaços. Escuta ao longe, mais uma vez, um som parecido com um bip.

(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 16


Ventos



(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

Tarô de Crowley. Velha Aurora pede a Lúcia. Ela tira uma carta. Baralho velho e viscoso. Luz de velas.

A carta tem o número 10. Lâminas entrelaçadas.

- Dez de espadas – exclama Lúcia.

- Ruína – diz a voz rouca da Velha. Olhos vazios. As sobrancelhas gritam.

- Ruína? – pergunta Lúcia. Ela ouve um barulho. Espécie de “bip”. Longe.

- A carta é o rei da ruína. Desesperança, perda, dor.

- Mas...

- Naipe de espadas é elemento ar, pensamento, razão, consciência. Respiro e sopro. Nascimento e morte. A décima casa é o fim de uma viagem.

- Não tem saída para mim, então?

- Essa é a saída. Tudo vai ruindo. E cai também a prisão que você construiu para se guardar. Cercada de espadas. Idéias afiadas que cortam você. Não lute contra elas. Isso só machuca.

- Como?

- Deixe o medo vir – riu a bruxa estridente.

- Mas eu não dou conta.

- Eeeechhhhh – gritou a Velha Aurora – use a espada.


(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 15



Números




(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)


Lúcia dormiu e sonhou enquanto todas as luzes do circo pareciam acesas lá fora e todas as possibilidades de contato impossíveis para ela e para o mundo inteiro e nada nada nada nada nada nada poderia ser feito ou dito ou pensado ou tentado ou ignorado ou omitido ou achado ou perdido que pudesse aliviar aquele sentimento de derrota e de falência e de perda e de incapacidade e de insatisfação e de insuficiência e de falta e de ausência e de total fraqueza diante do desafio que era vencer seus próprios medos e encarar de frente todos os riscos que a vida lhe propunha no que dizia respeito à paixão e ao desejo e ao amor sendo que isso ganhava tanto mais força quanto maior era essa paixão e esse desejo e esse amor e ela sentia que o tempo passava e as dores em seu ventre se acendiam em brasa quanto mais próxima ela estava de Dorival e aquilo a devorava por dentro e iniciava um processo interno de discussão contínuo dela consigo mesma onde cada lado defendia um ponto de vista e ela sofria com essa briga que a ia partindo em duas como se outra faca a cortasse devagar e dolorosamente e a fizesse lembrar mais uma vez do que lhe tinha acontecido antes de se juntar ao circo e a fazia maldizer cada momento ruim que havia passado na época e a fazia rogar ao universo que levasse embora aquelas memórias e também a fazia perguntar-se porque ela e porque aquilo e porque tanto e se isso nunca mais acabaria e se ela viveria assim até o fim de sua vida limpando o chão do picadeiro do circo e ouvindo aplausos e risadas e sem saber o que seria subir no palco e executar aquele que seria o seu próprio número dentro do grande espetáculo...


(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

INTERMEZZO 7


Casca de Noz


Visitei o site da Armazém Companhia de Teatro. Companhia cujo trabalho eu acompanho e gosto muito. Fiquei bem feliz de ver que uma crítica que eu escrevi em 2004 no Jornal de Londrina foi escolhida para figurar no site. Está lá. Ao lado de críticas de O Globo, JB e Tribuna da Imprensa. O pequeno e fantástico Jornal de Londrina. (Saudade).

Ah, a crítica de O Globo é de Bárbara Heliodora. Olha só.

A peça é Casca de Noz, que empresta o título de Shakespeare (Hamlet), inspiração de Italo Calvino (Cosmicômicas) e tem um incrível texto de Maurício Arruda Mendonça. Uma peça que realmente eu gostei muito de ver. Daquelas que ficam na memória para sempre.


INCONSCIÊNCIAS 14


Contornos




(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

Lúcia bate na porta. Ansiedade. É a primeira vez no trailer de Dorival. Um jantar. Disse ele. Olha lá. Disse ela.

Dorival abre a porta. Lúcia suspira e sobe. A escada é curta. Três degraus. Não há mais tempo para pensar. Pensa ela.

Ele sorri. Ela fica feliz. Um abraço forte. Tranqüilo. Um beijo longo. Doce. Como isso é bom. Suspira ela.

Então ele começa. Orgulhoso. Mostra a coleção. Na mesa. Nas paredes. Nas caixas. Em todo lugar. Sorri ele.

Adagas. Espadas. Cimitarras. Katanas. Punhais. Tesouras. Navalhas. Canivetes. Facas. Facões. Facalhões. Facalhazes.

Numa caixa, a frase: “não me uses sem motivo, não me guardes sem honra”.

Lúcia fica tonta. Tenta resistir. O estômago embrulha. Falta de ar. Imagens terríveis retornam. Pavor. Desiste ela.

Dorival olha. Pede que ela volte. Não entende. Ela corre. A porta bate. O silêncio fica. Não posso. Grita ela.

(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 13



Fogueiras



(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

Noite de São João. Depois do espetáculo. O circo dança. É festa.


Os músicos tocam. Helvécio, rapaz tatuado que ergue lonas, canta. Voz suave. Vicente Celestino.


Dançam as bailarinas gêmeas Luna e Stela. Dançam os três palhaços Primeiro, Segundo e Terceiro. Diana, a mulher barbada, dança com Santelmo, o equilibrista. O Grande Abelardo dança com sua nova assistente Olívia. O domador de leões Rigoberto dança com o chimpanzé Lolô. E todos dançam com Lúcia. Que dança. Só.


Dorival, o atirador de facas, procura Lúcia com os olhos. Ela tenta dançar com eles para longe. Seus pés lhe traem. Os olhos se encontram. E falam. E dançam juntos.


Atrás da barraca de tiro ao alvo. Beijo. Música de realejo. Fogos de artifício. Macio. Molhado. Quente. Doce.


Tão perto. Encaixe perfeito. Lúcia não quer que acabe nunca mais. É tarde.


Tarde?


(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)