Águas

(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)
Atrás da lona. Lúcia olha. Dorival atira facas. Celeste, a assistente, recebe os golpes à sua volta. Impassível.
As facas voam. Precisas. Desenham o contorno da moça. Cravam-se na taboa. Recortam o mundo à volta dela.
Lúcia treme. Primeiro, o barulho do metal deixando a bainha. Então, zunido no ar. Por fim, som seco na madeira.
Dorival nunca treme. Mão firme como aço de sabre. Olhar direto ao ponto. Nenhum desvio. Nenhuma dúvida.
Celeste confia nele. É sua irmã. Os dois fazem o número desde crianças. Nunca houve um erro. Até ali.
Dispersa. Ela tenta se concentrar. Pensa em Hélio. Marido doente. O cigarro comeu o pulmão. Disse o médico.
Ela faz o que não devia. Distrai-se. Move o corpo para a direita. Alguns centímetros. E a faca penetra o ombro.
Gritos. A luz se apaga por segundos. Acende de novo. Música. Palhaços. Bailarinas. Malabaristas. Cavalos.
Atrás da lona. Lúcia chora. Não presta atenção ao barulho de bip. Teimoso. As lágrimas não são por Celeste.
(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)





