terça-feira, 11 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 8


Flores




(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

A lona principal do circo era amarela com listas brancas. Amarela também era a roupa dos palhaços. Estrelas azuis. E verdes. E punhos de renda.

O nariz era uma bola vermelha. E também a boca pintada. Bem grande. Em volta uma enorme mancha branca. Para dar a impressão de um sorriso contínuo.

Lúcia triste. Parada num canto. Tinha acabado de conhecer Dorival. Que a deixara encantada. Para logo descobrir que ele era o atirador de facas do circo. Tinha pavor de facas.

Os três palhaços se aproximaram. Tinham acabado sua apresentação.

Eles se chamam Primeiro, Segundo e Terceiro. Primeiro é o mais falante e esperto e tem as tiradas engraçadas. Segundo é sensível e delicado e sempre acaba levando a pior nas brincadeiras. Terceiro tem uma fala incompreensível, parece um bebê gigante e é adorado pelo público, principalmente as crianças.


- Você está triste? – pergunta Primeiro a Lúcia.
- Ela está. Ela está – observa Segundo, compassivo.
- Hummhummmm – resmunga Terceiro.
- Trouxemos flores – diz Primeiro, tirando um ramalhete de plástico, todo desfolhado, do bolso.
- Flores. Flores – bate palmas Segundo.
- Humhumhummmmm – emenda, feliz, Terceiro.
- Obrigado – sorri, Lúcia, confusa – eu queria tanto ser mais alegre...
- E eu queria ser um transatlântico – revela Primeiro.
- E eu, um elefante cor-de-rosa – conta Segundo, revirando os olhinhos.
- Huuuummmmmhumm – prossegue Terceiro, com ar sonhador.
- Nããããããoooooo – respondem, de sopetão, os outros dois juntos - isso é totalmente, ridiculamente, absurdamente e definitivamente impossível.

(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 7


Encontros



(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)


Noite de espetáculo, Lúcia observa por entre as frestas da lona.


Vê o show dos palhaços, com suas cambalhotas, arrancando gritos e risadas. Vê o equilibrista na corda bamba deixar a platéia em silêncio. Vê o domador desafiar leões e tigres. Vê os malabaristas chineses jogando argolas e garrafas para o ar.


O número predileto de Lúcia é o de mágica. O Grande Abelardo faz coisas que deixam o público de boca aberta. Faz a ajudante de palco desaparecer, tira um coelho da cartola, puxa uma revoada de pombos de um lenço.


Lúcia é feliz e chora. Bate palmas. Ri e se emociona. É o mundo com o qual sempre sonhou quando era criança.


Repentinamente, um moço de terno branco com lapela azul se aproxima. Passa por ela, cumprimenta com gentileza, sorri e segue para a entrada do palco. Tem a pele morena e o olhar gateado. O cabelo é engomado e o bigodinho lembra Clark Gable, que Lúcia viu um dia, num filme, na matinê.


Ela fica encantada e pergunta a Diana, a mulher barbada, quem é aquele moço.

- Gostou dele, né? – perguntou Diana.

- Gostei sim. Demais. Quem é?

- O nome dele é Dorival. É o atirador de facas.


(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

domingo, 9 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 6



Sonoridades




(Continuação da série de posts "INCONSCIÊNCIAS)


- A dança... - dizia Luna.

- ...é a própria essência da vida - completava Stela.

- Ou ainda... - recomeçava Luna.

- A vida... - seguia Stela.

- ...é a própria essência da dança - filosofava Luna.

Diana, a mulher barbada, não dava muita trela a estas coisas. Era pragmática:

- O que nos faz diferentes é o que nos faz especiais. Se eu não tivesse barba, seria uma mulher comum.

- Verdade? - perguntou Lúcia.

- É por isso que as pessoas pintam os cabelos, fazem tatuagens, carregam na maquiagem. Só para acentuar algo em que são diferentes. Ninguém quer ser igual a todo mundo. E o diferente é o estranho, o esquisito, o mórbido. Aquilo que atrai atenção, admiração, horror ou pena. Qualquer coisa é melhor do que a indiferença. Qualquer coisa... - continuou Diana.

- Como uma perna manca? - arriscou Luna.

- Como um olho vazado? - insistiu Stela.

- Como uma enorme, vermelha, líquida, abrupta e angustiante cicatriz??!! - quase sussurrou Lúcia.


(Continua na série de posts "INCONSCIÊNCIAS)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 5


Espelhos





(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)


As duas bailarinas com quem Lúcia morava no trailer se chamavam Luna e Stela. Elas eram irmãs gêmeas e trabalhavam no circo desde crianças.


Logo, Lúcia identificou nelas uma estranha complementaridade. Quando uma estava triste, a outra ficava alegre. Quando uma era rude, a outra, doce. Uma falante, a outra calada. Uma profunda, a outra fútil. Uma infinita, a outra singular.


As duas viviam o tempo todo juntas nessa estranha sintonia. Uma era o espelho da outra, oferecendo-lhe sempre a própria imagem invertida.


A simbiose era tamanha, que Lúcia tinha a impressão de que quando uma inspirava o ar era a outra quem expirava. E as duas se revezavam em todos os ritmos da vida. Sístole e diástole, distensão e contração, quente e frio, desejo e repulsa, dor e prazer, fome e fastio.


Com elas, Lúcia aprendeu sobre os dois lados de tudo. Que não é só o punhal que se move em direção ao ventre. O ventre também busca o punhal.


(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 4



Picadeiros



(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)


Um emprego no circo. Lúcia estava feliz. Limpava o picadeiro após os shows. Restos de pipoca. Cocô de cavalo. Algodão doce pisado. Papel de bala colorido.


Guardava as lâminas de prata das embalagens vazias de chocolate. Recolhia restos de riso, aplauso e respiração suspensa. Eram seus tesouros no silêncio da grande lona.


Morava num trailer com duas bailarinas gêmeas e a mulher barbada. Boa companhia. Pediram ao dono do circo que aceitasse Lúcia quando ela foi encontrada dormindo sob a arquibancada.


Amigas como não tinha há muito tempo. Mesmo assim, não contava do que acontecera antes. Calava sobre a cicatriz, sobre as dores no ventre, sobre Romildo.


Dizia que seu nome era Renata. Artista que vira quando criança. Graciosa na corda bamba.


Lúcia tinha morrido. Tinha ido embora. Na ponta de uma faca.


(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 3


Cortes




(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

- Quem é você? - Perguntou uma voz distante e rude dentro da cabeça de Lúcia.

- Quem é você? - Insistiu a voz, menos distante e mais rude.

Lúcia abriu os olhos e viu o anão de casaca e cartola parado ao seu lado. Era engraçado e simpático, mas fazia cara de poucos amigos. E continuava a perguntar:

- Quem é você?

Lúcia olhou o anão. Édipo olhando a esfinge. Pensou em responder tantas coisas.

Acabou saindo a única coisa que parecia fazer sentido naquele momento. Escapou de sua boca como um gemido:


- Eu sou aquela que foi ferida.

(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)

domingo, 2 de novembro de 2008

INCONSCIÊNCIAS 2


Cicatrizes




(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)


O cheiro do hospital é ruim. Há barulho, gritos, choro e ranger de dentes. Lúcia sente o próprio fedor. Carne morta. Remédios fortes. Mijo e cocô no lençol. Dias de dor e febre. Sono intermitente.


Ela finalmente acorda. Deixa o hospital. A barriga dói, mas ela nem vai para casa. Sabe que Romildo pode estar à espreita. O medo é maior do que tudo. Medo dele. E, ainda mais, medo das facas.


Ela anda o dia inteiro sem parar. Nos arredores da cidade, já anoitecendo, as luzes de um circo. Um sonho de infância com cheiro de serragem.


Ela vê, por debaixo da lona, o final do espetáculo. Brilho e alegria. Palhaços dançam.

Sob a arquibancada, ela dorme. O sonho de infância a acolhe e embala.


(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)