Flores

(Continuação da série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)
A lona principal do circo era amarela com listas brancas. Amarela também era a roupa dos palhaços. Estrelas azuis. E verdes. E punhos de renda.
O nariz era uma bola vermelha. E também a boca pintada. Bem grande. Em volta uma enorme mancha branca. Para dar a impressão de um sorriso contínuo.
Lúcia triste. Parada num canto. Tinha acabado de conhecer Dorival. Que a deixara encantada. Para logo descobrir que ele era o atirador de facas do circo. Tinha pavor de facas.
Os três palhaços se aproximaram. Tinham acabado sua apresentação.
Eles se chamam Primeiro, Segundo e Terceiro. Primeiro é o mais falante e esperto e tem as tiradas engraçadas. Segundo é sensível e delicado e sempre acaba levando a pior nas brincadeiras. Terceiro tem uma fala incompreensível, parece um bebê gigante e é adorado pelo público, principalmente as crianças.
- Você está triste? – pergunta Primeiro a Lúcia.
- Ela está. Ela está – observa Segundo, compassivo.
- Hummhummmm – resmunga Terceiro.
- Trouxemos flores – diz Primeiro, tirando um ramalhete de plástico, todo desfolhado, do bolso.
- Flores. Flores – bate palmas Segundo.
- Humhumhummmmm – emenda, feliz, Terceiro.
- Obrigado – sorri, Lúcia, confusa – eu queria tanto ser mais alegre...
- E eu queria ser um transatlântico – revela Primeiro.
- E eu, um elefante cor-de-rosa – conta Segundo, revirando os olhinhos.
- Huuuummmmmhumm – prossegue Terceiro, com ar sonhador.
- Nããããããoooooo – respondem, de sopetão, os outros dois juntos - isso é totalmente, ridiculamente, absurdamente e definitivamente impossível.
(Continua na série de posts “INCONSCIÊNCIAS”)






