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terça-feira, 14 de outubro de 2008

IMPERTINÊNCIAS 51


Voltas e voltas



O mundo sempre dá voltas. A crise de 1929 ocorreu logo após um período de liberalismo econômico, chamado laissez-faire. A falta de um controle mínimo do Estado sobre os negócios levou à bancarota a economia dos Estados Unidos e da Europa já combalidada pela guerra. Foi o new deal de Franklin Roosevelt, com investimentos maciços do Estado na economia, que conseguiu tirar os EUA da depressão e catapultou o país definitivamente como a grande superpotência mundial.

A onda neoliberal, que varreu o mundo nas décadas de 80 e 90 do final do Século XX, teve grandes defensores da total ausência do Estado como regulador do mercado, citando sempre "a mão invisível" reguladora que a tudo equilibra. Sob esses auspícios, os anos 90 ensejaram as grandes crises do capital volátil, fazendo a fortuna de megaespeculadores como Jorge Soros e
quebrando muitas empresas do setor produtivo e até alguns países.




A história se repete e, para fugir da crise, os países intitulados "desenvolvidos" intervêm pesadamente no mercado, estatizando bancos, tornando públicos os prejuízos privados e tomando medidas fortes sobre a concessão de crédito e o mercado de ações. Numa coincidência irônica, a Europa mostrou mais agilidade e eficiência na tomada de decisões e inverte o eixo do processo de resolução da crise, tirando dos EUA, pelo menos em parte, o papel de "xerife do mundo".

E, por falar em xerife, nenhuma figura ganhou tanta projeção, como pivô dessa crise, quanto George W. Bush. Para muita gente, a impressão é de que trata-se de um coitado, um incompetente. Não se pode esquecer uma coisa: se alguém está perdendo, é porque alguém ganhou. O dinheiro não se evapora, simplesmente se transfere de uma mão para outra. A coisa, nesse caso, funciona mais ou menos como aquelas brincadeiras de pirâmide - com os últimos sempre pagando o pato, enquanto os espertos, que começaram e controlaram a brincadeira, já ganharam muito.

E a "mão invisível", para desgosto de Adam Smith, agora entra nos nossos bolsos para dividir o prejuízo que sobra no final.